{"id":10710,"date":"2014-05-23T15:57:42","date_gmt":"2014-05-23T18:57:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=10710"},"modified":"2014-05-23T17:10:06","modified_gmt":"2014-05-23T20:10:06","slug":"nao-vai-ter-copa-na-tv-para-milhares-de-familias-onde-a-luz-nao-chegou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/nao-vai-ter-copa-na-tv-para-milhares-de-familias-onde-a-luz-nao-chegou\/","title":{"rendered":"N\u00e3o vai ter Copa (na Tv) para fam\u00edlias onde a luz n\u00e3o chegou"},"content":{"rendered":"<p>Uma reportagem da Ag\u00eancia P\u00fablica, editada nesta sexta-feira 23 pelo Uol, \u00e9 de estarrecer: o Brasil da Copa tem cidades onde a energia el\u00e9trica ainda n\u00e3o chegou. E para milhares de fam\u00edlias brasileiras n\u00e3o haver\u00e1 Copa da Fifa. Literalmente. Veja a reportagem a seguir.<\/p>\n<blockquote><p>Fortunato da Silva parece viver em outro planeta. Quando v\u00ea a camisa da sele\u00e7\u00e3o brasileira, mostra-se indiferente. Para ele, \u00e9 um &#8220;pano qualquer&#8221;. O desconhecimento sobre o manto mais famoso do futebol mundial justifica-se. O agricultor nunca teve energia el\u00e9trica em casa. Sem op\u00e7\u00e3o, mant\u00e9m dist\u00e2ncia de tudo o que cerca a Copa do Mundo, o maior evento da Terra, prestes a ocorrer a 450 quil\u00f4metros dali, em Fortaleza.<\/p>\n<p>A rotina de Fortunato, que vive em Serra da Estrela, comunidade localizada no munic\u00edpio de Saboeiro, no sert\u00e3o do Cear\u00e1, assemelha-se \u00e0 de pelo menos 242 mil fam\u00edlias brasileiras sem acesso \u00e0 eletricidade (correspondentes a 960 mil pessoas, segundo o Minist\u00e9rio de Minas e Energia). Essa parcela da popula\u00e7\u00e3o, espalhada pelo pa\u00eds, dificilmente participar\u00e1 da Copa do Mundo mais cara da hist\u00f3ria, com custo oficial previsto em R$ 25,7 bilh\u00f5es, segundo o Portal da Transpar\u00eancia.<\/p>\n<p>Entrar em est\u00e1dios ser\u00e1 privil\u00e9gio de poucos. Mas, para Fortunato e seus vizinhos, nem mesmo ver os jogos pela TV ser\u00e1 poss\u00edvel. Dentre os 184 munic\u00edpios do Cear\u00e1, Saboeiro \u00e9 o que tem maior propor\u00e7\u00e3o de habitantes sem energia el\u00e9trica. Ao todo, 8,9% dos moradores da regi\u00e3o n\u00e3o sabem o que \u00e9 isso. \u00c9 um \u00edndice alto, levando-se em conta que 1% da popula\u00e7\u00e3o do estado n\u00e3o possui o servi\u00e7o.<\/p>\n<p>Prazeres simples, como beber \u00e1gua gelada ou refrescar-se com a brisa de um ventilador, s\u00e3o desconhecidos para eles. &#8220;Na verdade, a gente se contentaria com muito menos, como ter condi\u00e7\u00f5es de ligar uma bomba para puxar \u00e1gua da cisterna para a planta\u00e7\u00e3o&#8221;, sonha Fortunato, cearense de 45 anos. Sem desfrutar de energia el\u00e9trica, a sa\u00edda \u00e9 fazer a irriga\u00e7\u00e3o de forma manual, quebra-galho sem o mesmo resultado. \u00c9 do plantio de milho, feij\u00e3o e fava, cultivo comum a todos os agricultores da regi\u00e3o, que sai o prato de cada dia.<\/p>\n<p>Qualquer outro acompanhamento nem sempre dispon\u00edvel, como frango, peixe ou carne vermelha, precisa ser todo consumido no mesmo dia, pois n\u00e3o h\u00e1 geladeira. &#8220;Se a gente mata um carneiro, tem que chamar os vizinhos para comer junto, sen\u00e3o estraga&#8221;, explica Fortunato. A solu\u00e7\u00e3o, para alguns, \u00e9 salgar a carne e lav\u00e1-la antes do consumo. Isso n\u00e3o impede que o cheiro forte nas casas atraia toda sorte de insetos.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia de Fortunato \u00e9 uma das onze de Serra da Estrela, a cerca de 35 quil\u00f4metros da sede de Saboeiro. Para chegar \u00e0 comunidade, \u00e9 necess\u00e1rio percorrer 10 quil\u00f4metros de estrada carro\u00e7\u00e1vel. Os seis \u00faltimos quil\u00f4metros s\u00e3o uma subida \u00edngreme, com acesso somente de moto. E, ainda assim, se n\u00e3o estiver chovendo forte. &#8220;Nossa vida j\u00e1 foi muito pior. Imagine quando n\u00e3o havia moto: subir com carga, s\u00f3 no lombo de jumento&#8221;, descreve Fortunato.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das motos, que se popularizaram na zona rural do Nordeste, outra novidade amenizou o sofrimento na comunidade: o Bolsa Fam\u00edlia, institu\u00eddo pelo governo Lula em 2003. Todas as fam\u00edlias de Serra da Estrela recebem o benef\u00edcio. No caso de Fortunato, s\u00e3o R$ 352 mensais, desde que mantenha na escola seus tr\u00eas filhos. Eles estudam no distrito de Barrinha e caminham os seis quil\u00f4metros serra abaixo para chegar ao col\u00e9gio.<\/p>\n<p>A renda certa \u00e9 quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia onde n\u00e3o h\u00e1 emprego al\u00e9m da agricultura de subsist\u00eancia. &#8220;Sem esse dinheiro, enfrentar as dificuldades de se viver sem energia el\u00e9trica seria ainda mais dif\u00edcil&#8221;, exp\u00f5e Fortunato. Outro programa federal, o Luz para Todos, nutriu a esperan\u00e7a de que o benef\u00edcio mais sonhado tamb\u00e9m chegaria a suas casas. Mas, at\u00e9 aqui, tudo n\u00e3o passou de um desejo frustrado<\/p>\n<p>Parte da pol\u00edtica governamental de oferecer melhores condi\u00e7\u00f5es de vida a popula\u00e7\u00f5es isoladas, o Luz para Todos levou torres de transmiss\u00e3o de energia a rinc\u00f5es de norte a sul do pa\u00eds. Uma dessas linhas passa literalmente sobre os moradores de Serra da Estrela. Instalada em 2006, ela transporta energia entre os munic\u00edpios de Juc\u00e1s e Catarina. Por\u00e9m, n\u00e3o foi poss\u00edvel iluminar a comunidade de Saboeiro.<\/p>\n<p>&#8220;A energia passa em cima das nossas casas, mas n\u00e3o pode chegar \u00e0s nossas casas. Quando instalaram as torres, explicaram que a alta tens\u00e3o impedia que um ramal descesse para c\u00e1&#8221;, relata o agricultor Valdir de Oliveira, de 48 anos. Por ironia, a luz passa t\u00e3o perto e, ao mesmo tempo, est\u00e1 t\u00e3o longe. &#8220;J\u00e1 pedimos muitas vezes energia para a Coelce [Companhia Energ\u00e9tica do Cear\u00e1], mas a desculpa \u00e9 sempre a mesma.&#8221;<\/p>\n<p>A Coelce opera o Luz para Todos no estado e, no fim de 2013, tinha como meta instalar energia el\u00e9trica em 30 pontos de Saboeiro durante 2014 \u2013 at\u00e9 mar\u00e7o, sete obras foram finalizadas. Por\u00e9m, os moradores de Serra da Estrela ter\u00e3o que usar por mais um tempo velas e lampi\u00f5es a g\u00e1s ou querosene durante a noite, pois a companhia n\u00e3o sabe onde fica a comunidade, nem tem registro de solicita\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o.<\/p>\n<p>Desde seu surgimento, o programa garantiu energia el\u00e9trica a 3,1 milh\u00f5es de fam\u00edlias, num total de 15,1 milh\u00f5es de pessoas, segundo o Minist\u00e9rio de Minas e Energia. Passados 11 anos, contudo, o acesso ao servi\u00e7o ainda n\u00e3o foi universalizado. At\u00e9 2000, 10,8% da popula\u00e7\u00e3o do Cear\u00e1 n\u00e3o tinha eletricidade, aponta o Instituto de Pesquisa e Estrat\u00e9gia Econ\u00f4mica do Cear\u00e1 (Ipece). Hoje, o n\u00famero est\u00e1 reduzido a menos de 80 mil pessoas, que vivem em comunidades isoladas como as de Saboeiro.<\/p>\n<p>Poucos munic\u00edpios como esse sofrem tanto com o problema. Ao todo, existem l\u00e1 sete comunidades sem energia el\u00e9trica, incluindo ainda Passo Fundo, Ninador, Queimadas, Logrador, Paran\u00e1 e Serra do Papagaio. &#8220;Em pleno s\u00e9culo 21, isso n\u00e3o podia acontecer. Esse \u00e9 um servi\u00e7o b\u00e1sico para a sobreviv\u00eancia humana&#8221;, opina Francisco Bezerra, agente administrativo da Secretaria de Agricultura de Saboeiro.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio j\u00e1 foi pior. Antes do surgimento do Luz para Todos, quase a metade da popula\u00e7\u00e3o de Saboeiro n\u00e3o desfrutava de energia el\u00e9trica. Como explica o gestor, cabe \u00e0 prefeitura fazer o levantamento das comunidades sem o servi\u00e7o e encaminh\u00e1-lo \u00e0 Coelce, que realiza um estudo topogr\u00e1fico da regi\u00e3o. Dependendo da verba fornecida pelo programa, a solicita\u00e7\u00e3o \u00e9 atendida de imediato ou futuramente.<\/p>\n<p>&#8220;O custo m\u00e9dio [para eletrifica\u00e7\u00e3o] \u00e9 relativo, pois deve-se, entre outras quest\u00f5es, conhecer a dist\u00e2ncia f\u00edsica entre o solicitante e o sistema el\u00e9trico da distribuidora&#8221;, pontua a assessoria de imprensa da Coelce. &#8220;N\u00e3o \u00e9 uma obra barata, \u00e9 fato. Mas \u00e9 um custo que impede outros gastos l\u00e1 na frente. Afinal, como se combate o \u00eaxodo rural sem oferecer condi\u00e7\u00f5es dignas de vida no campo?&#8221;, questiona Bezerra.<\/p>\n<p>Em 11 anos, j\u00e1 foram investidos R$ 16 bilh\u00f5es no Luz para Todos. A meta do governo federal \u00e9 universalizar o fornecimento de energia el\u00e9trica no Brasil. Para isso, ap\u00f3s a conclus\u00e3o da 3\u00aa etapa do programa, em dezembro deste ano, ser\u00e1 feito um novo estudo para descobrir quem ainda ficou de fora. Cansados de esperar, alguns cidad\u00e3os v\u00e3o dando seu pr\u00f3prio jeitinho, algo comum aos brasileiros.<\/p>\n<p>Francimar de Oliveira conheceu a energia el\u00e9trica numa de suas viagens a S\u00e3o Paulo, onde trabalhou em algumas temporadas na constru\u00e7\u00e3o civil. Desde 2007, ele n\u00e3o arredou mais o p\u00e9 de Serra da Estrela, gra\u00e7as ao Bolsa Fam\u00edlia. Com suas economias, o agricultor investiu numa tecnologia que a filha ouvira falar na escola. Por R$ 2 mil, o cearense instalou duas placas de energia solar no telhado, em janeiro.<\/p>\n<p>O sistema funciona na base do improviso. A energia passa por fios pela parede e alimenta uma bateria de caminh\u00e3o. A carga acumulada liga a TV, que a fam\u00edlia possu\u00eda em casa j\u00e1 havia dois anos, para o dia em que chegassem os postes por tanto tempo esperados. &#8220;A gente ainda n\u00e3o tem uma geladeira para realizar o sonho de beber \u00e1gua gelada, mas j\u00e1 d\u00e1 pra ter um contato com o resto do mundo&#8221;, festeja Francimar.<\/p>\n<p>Torcedor do Fortaleza, sua casa era a \u00fanica da regi\u00e3o que podia assistir ao amistoso do Brasil contra a \u00c1frica do Sul, que ocorreu no dia 5 de mar\u00e7o, em prepara\u00e7\u00e3o para a Copa do Mundo. Na vizinhan\u00e7a, ainda sem saber da novidade pertinho de casa, quem mant\u00e9m algum contato com futebol precisou se contentar com a narra\u00e7\u00e3o via r\u00e1dio de pilha. Francimar, a esposa e os tr\u00eas filhos tiveram o privil\u00e9gio de ver al\u00e9m de ouvir.<\/p>\n<p>&#8220;O dinheiro que gastei \u00e9 muito para gente pobre como eu, mas n\u00e3o \u00e9 nada para um governo. Colocar placas dessas aqui na comunidade sairia mais barato do que trazer postes at\u00e9 aqui em cima&#8221;, compara o agricultor. Diferentemente de Fortunato, ele sabe o que significa a camisa amarelinha. E poder\u00e1 v\u00ea-la em sua casa pela primeira vez numa Copa do Mundo. Gra\u00e7as \u00e0 sua pr\u00f3pria iniciativa.<\/p>\n<p>Quem n\u00e3o esquece a primeira Copa do Mundo que viu? Para a maioria, \u00e9 uma lembran\u00e7a da inf\u00e2ncia. Gra\u00e7as ao programa Luz para Todos, em alguns rinc\u00f5es o torneio do Brasil ser\u00e1 justamente o primeiro. Dois deles t\u00eam nomes bem curiosos: Cafund\u00f3 e Escondido. Comunidades quilombolas de Chor\u00f3, a 175 quil\u00f4metros de Fortaleza, elas receberam o servi\u00e7o de energia el\u00e9trica h\u00e1 tr\u00eas anos, depois do \u00faltimo Mundial.<\/p>\n<p>O dia 20 de dezembro de 2011 n\u00e3o sai da mem\u00f3ria dos moradores. As 35 fam\u00edlias das duas comunidades do sert\u00e3o do Cear\u00e1, todas com algum grau de parentesco, sempre mantiveram a esperan\u00e7a de que suas noites fossem iluminadas. Os postes vieram do alto, por meio de helic\u00f3ptero. S\u00f3 assim foi poss\u00edvel para a Companhia Energ\u00e9tica do Cear\u00e1 (Coelce) executar o projeto de eletrifica\u00e7\u00e3o do local.<\/p>\n<p>Cafund\u00f3 e Escondido, como outras comunidades formadas por escravos fugidos, s\u00e3o duas das mais isoladas do pa\u00eds. Para chegar l\u00e1, \u00e9 preciso percorrer 30 quil\u00f4metros desde a sede de Chor\u00f3, sendo 10 quil\u00f4metros em estrada carro\u00e7\u00e1vel. Depois, \u00e9 necess\u00e1rio subir uma serra de 680 metros de altitude, a p\u00e9, num terreno bastante acidentado. Dependendo do f\u00f4lego, essa caminhada morro acima dura de uma a duas horas.<\/p>\n<p>Sem acesso por meio de carro, caminh\u00e3o ou moto, as comunidades viveram praticamente esquecidas at\u00e9 o s\u00e9culo 21. O Bolsa Fam\u00edlia e a chegada da energia el\u00e9trica ajudaram a frear o \u00eaxodo local. Os moradores passaram a contar com uma renda mensal, que complementa o plantio da agricultura de subsist\u00eancia, e a desfrutar dos prazeres da tecnologia.<\/p>\n<p>&#8220;A vida aqui melhorou muito. No meu tempo, eu trabalhava um dia inteiro para conseguir uma x\u00edcara de a\u00e7\u00facar para a garapa deles [\u00e1gua com a\u00e7\u00facar, bebida comum entre os pobres do interior do Nordeste]. Hoje, um dia de trabalho rende um saco de a\u00e7\u00facar para o leite dos filhos deles&#8221;, compara o agricultor Dion\u00edsio de Oliveira, de 48 anos, um dos moradores que receberam da Coelce um aparelho de TV.<\/p>\n<p>N\u00e3o que o acesso a bens de consumo tenha resolvido todos os problemas. A dist\u00e2ncia de tudo ainda \u00e9 um empecilho. A escola municipal de Cafund\u00f3 atende dez crian\u00e7as no ensino fundamental 1. Os mais crescidos, do fundamental 2, acordam \u00e0s 3h30 para uma caminhada de duas horas morro abaixo at\u00e9 o distrito mais pr\u00f3ximo, Concei\u00e7\u00e3o. J\u00e1 os alunos de ensino m\u00e9dio viajam mais 30 quil\u00f4metros de \u00f4nibus at\u00e9 a sede de Chor\u00f3.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa o nome. As pessoas vivem escondidas mesmo&#8221;, ri Jos\u00e9 Arimateia da Silva, de 37 anos. Nascido em Cafund\u00f3, o ex-agricultor desistiu da vida ao lado dos familiares em 2010. Vendeu a casa a um parente, por R$ 200, e alugou outra na sede de Chor\u00f3, na \u00e9poca por R$ 70. &#8220;Cansei de subir e descer aquilo ali. \u00c9 muito desgastante. Imagine ent\u00e3o o sofrimento de crian\u00e7as e idosos&#8221;, diz o vendedor de picol\u00e9.<\/p>\n<p>Apesar do f\u00edsico mirrado comum aos demais moradores, Tet\u00e9, como \u00e9 conhecido, era sempre requisitado para fazer for\u00e7a. Quando algu\u00e9m fica doente, os familiares ou amigos precisam desc\u00ea-lo carregado em redes de dormir. &#8220;Uma vez, ap\u00f3s uma briga, um homem furou outro (esfaqueou). No desespero, desci a serra em 10 minutos para chamar uma ambul\u00e2ncia, enquanto levavam ele carregado&#8221;, relembra.<\/p>\n<p>Na base da serra, h\u00e1 uma placa j\u00e1 desgastada que informa o projeto de eletrifica\u00e7\u00e3o. A obra custou R$ 797 mil ao programa Luz para Todos. Para que pudessem ser carregados por helic\u00f3ptero, os postes foram fabricados em fibra de vidro. N\u00e3o h\u00e1 ilumina\u00e7\u00e3o p\u00fablica, e, por isso, os clientes, todos de baixa renda, pagam em m\u00e9dia R$ 5 por m\u00eas. A medi\u00e7\u00e3o \u00e9 feita por um dos moradores, que tamb\u00e9m cuida da escola.<\/p>\n<p>A chegada da energia el\u00e9trica garantiu outra benesse dos novos tempos. O uso de telefones celulares, que em certas regi\u00f5es das comunidades captam sinal da TIM e da Claro \u2013 serra abaixo, tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel telefonar com chip da Oi. O munic\u00edpio ainda n\u00e3o disp\u00f5e de tecnologia 3G, mas sim a antiga 2G. Quando se est\u00e1 navegando na internet, uma chamada para o telefone derruba a conex\u00e3o.<\/p>\n<p>Apesar do horizonte aberto pela tecnologia, ainda existe gente sem contato com o exterior da comunidade. O agricultor Ant\u00f4nio Preto, de 74 anos, por exemplo, n\u00e3o faz ideia do que seja sele\u00e7\u00e3o brasileira. &#8220;Minha vida sempre foi de casa pra ro\u00e7a, da ro\u00e7a pra casa&#8221;, justifica. Hoje, por\u00e9m, ele virou exce\u00e7\u00e3o. Quase todos os moradores possuem TV, e quem n\u00e3o tem pretende ver os jogos na casa de algum vizinho.<\/p>\n<p>&#8220;A primeira Copa do Mundo que vi foi em 2010. Desci at\u00e9 a comunidade de Fonte Nova. Foram duas horas de ida e mais duas de volta&#8221;, relata o agricultor Geane de Oliveira, de 26 anos. &#8220;Foi tanto sacrif\u00edcio que aquele jogo da sele\u00e7\u00e3o brasileira foi o \u00fanico que assisti.&#8221; Ningu\u00e9m merece mesmo. Nem as fam\u00edlias de Cafund\u00f3 e Escondido, nem as 242 mil ainda sem energia el\u00e9trica no Brasil.<\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma reportagem da Ag\u00eancia P\u00fablica, editada nesta sexta-feira 23 pelo Uol, \u00e9 de estarrecer: o Brasil da Copa tem cidades onde a energia el\u00e9trica ainda n\u00e3o chegou. E para milhares de fam\u00edlias brasileiras n\u00e3o haver\u00e1 Copa da Fifa. Literalmente. Veja a reportagem a seguir. 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