{"id":107666,"date":"2016-07-29T09:30:14","date_gmt":"2016-07-29T12:30:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=107666"},"modified":"2016-07-30T16:51:43","modified_gmt":"2016-07-30T19:51:43","slug":"mirna-negra-favelada-futura-medica-quem-quer-faz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/mirna-negra-favelada-futura-medica-quem-quer-faz\/","title":{"rendered":"Mirna, 22, negra, favelada, futura m\u00e9dica. Quem quer, faz, diz ela, sorridente"},"content":{"rendered":"<p><strong>Luis Barrucho<\/strong><\/p>\n<p>A carioca Mirna Moreira, 22, lembra-se da rea\u00e7\u00e3o dos colegas no dia em que obteve nota m\u00e1xima na disciplina de Anatomia, a mais temida por alunos rec\u00e9m-ingressados no curso de medicina da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro).<\/p>\n<p>&#8220;Eu e uma outra menina? Branca? Gabaritamos a prova dessa mat\u00e9ria. Ningu\u00e9m se surpreendeu com o desempenho dela, mas comigo foi diferente. Algumas pessoas ficaram surpresas. Ouvi a frase &#8216;Como assim voc\u00ea conseguiu?'&#8221;, recorda.<\/p>\n<p>Negra e cotista, Mirna nasceu e cresceu no Complexo do Lins, conjunto de favelas na zona norte do Rio onde vive at\u00e9 hoje com a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Filha de uma telefonista e de um bombeiro, diz se considerar &#8220;privilegiada&#8221; diante da realidade hostil que a cerca. Mas n\u00e3o se esquece das ra\u00edzes.<\/p>\n<p>&#8220;Quero devolver \u00e0 minha comunidade o que vou aprender no curso de medicina. Quando ponho meu jaleco, prescrevo sonhos&#8221;, diz ela sobre a perspectiva de futuro que diz mostrar \u00e0s crian\u00e7as da favela.<\/p>\n<p>Recentemente, um post da p\u00e1gina Boca de Favela no Facebook sobre Mirna viralizou. Foram quase 79 mil curtidas e mais de 17 mil compartilhamentos. Em depoimento \u00e0 BBC Brasil, ela falou sobre pobreza, racismo, negritude e empoderamento feminino. Confira:<\/p>\n<p>&#8220;Nasci e cresci no Complexo do Lins, conjunto de favelas na zona norte do Rio de Janeiro. Hoje, aos 22 anos, me sinto uma privilegiada. Por esfor\u00e7o dos meus pais, ele bombeiro, ela telefonista, consegui ter acesso ao estudo e foi por causa deles que hoje fa\u00e7o medicina.<\/p>\n<p>\u00c9 at\u00e9 engra\u00e7ado falar em privil\u00e9gio nas minhas circunst\u00e2ncias. Mas n\u00e3o s\u00e3o todas as pessoas daqui que t\u00eam um sonho e podem concretiz\u00e1-lo. Sou uma exce\u00e7\u00e3o \u00e0 regra. Fala-se em meritocracia, mas ela \u00e9 inexistente a partir do momento que nem todo mundo tem as mesmas oportunidades.<\/p>\n<p>Com exce\u00e7\u00e3o do prim\u00e1rio, sempre estudei em col\u00e9gio particular. Ganhava bolsas parciais e meus pais se esfor\u00e7avam para pagar o resto. Quando fiz curso pr\u00e9-vestibular, a mensalidade era de R$ 2.000. Nunca teria esse dinheiro. Mas conviver com essas duas realidades completamente diferentes me permitiu ter maior senso cr\u00edtico. Conto nos dedos das m\u00e3os, por exemplo, os amigos que frequentavam minha casa durante a escola.<\/p>\n<p>\u00c9 desafiador ser negro e morar em uma favela no Brasil. Vivo um preconceito duplo. Vez ou outra, sou seguida por seguran\u00e7as em lojas.<\/p>\n<p><strong>Medicina<\/strong> &#8211;\u00a0E quando decidi cursar medicina, embora sempre tenha tido o apoio dos meus pais, muita gente pr\u00f3xima questionou minha escolha. Me perguntavam: &#8216;Voc\u00ea quer isso mesmo? Voc\u00ea n\u00e3o tem cara de m\u00e9dica&#8217;.<\/p>\n<p>Entendo em parte esse pensamento. A sociedade diz a n\u00f3s, negros, que n\u00e3o vamos conseguir. Al\u00e9m disso, continuamos sofrendo com a falta de representatividade. Voc\u00ea entra em um hospital e v\u00ea poucos m\u00e9dicos negros. Atores negros ainda s\u00e3o uma minoria nas novelas. E tudo isso apesar de sermos a maioria da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Prestei vestibular por tr\u00eas anos at\u00e9 conseguir passar no curso de medicina. Entrei por cotas, mas n\u00e3o estudei menos por isso. Nas vezes que fui reprovada, fiquei muito mal. Sabia que meus pais tinham outras contas para pagar e n\u00e3o poderiam me bancar nessa situa\u00e7\u00e3o. Mas eles n\u00e3o desistiram do meu sonho. Nem eu.<\/p>\n<p>Escolhi medicina pela arte de cuidar do outro. E pretendo ser m\u00e9dica de fam\u00edlia. N\u00e3o se trata de uma especializa\u00e7\u00e3o muito divulgada e \u00e9 at\u00e9 desprezada pelos pr\u00f3prios m\u00e9dicos.<\/p>\n<p>Mas acho que meu envolvimento com essa \u00e1rea diz muito de onde eu venho. Quero devolver \u00e0 minha comunidade o que me foi dado e atender a quem realmente precisa.<\/p>\n<p><strong>Racismo<\/strong> &#8211;\u00a0N\u00e3o vou generalizar, mas sempre tem algu\u00e9m que me olha torto na faculdade. Porque sou negra, moradora de favela e cotista.<\/p>\n<p>No primeiro per\u00edodo, por exemplo, aconteceu um epis\u00f3dio do qual n\u00e3o me esque\u00e7o. Eu e uma menina branca fomos as \u00fanicas a gabaritar a prova te\u00f3rica de Anatomia, uma das disciplinas mais temidas pelos alunos. Alguns colegas ficaram surpresos. Disseram que &#8216;escondi o jogo&#8217; e me perguntaram como eu tinha tirado uma nota daquelas. Por qu\u00ea? Se as pessoas mal se conheciam, por que tanta surpresa com o meu desempenho e n\u00e3o com o dela?<\/p>\n<p>Recentemente, tamb\u00e9m fui alvo de um ataque racista na internet. Uma p\u00e1gina moderada pelos alunos da Uerj, sem v\u00ednculo com a universidade, decidiu fazer um concurso de beleza. Cada curso tinha uma representante &#8211;e eu fui escolhida para representar o curso de medicina.<\/p>\n<p>Minha foto recebeu v\u00e1rios coment\u00e1rios racistas. Li coisas do tipo: &#8220;Como assim essa preta t\u00e1 fazendo medicina?&#8221; ou &#8220;Voc\u00ea vota na negra mas n\u00e3o alimenta macaco no zool\u00f3gico&#8221;.<\/p>\n<p>Decidi registrar uma den\u00fancia na pol\u00edcia. Mas n\u00e3o houve investiga\u00e7\u00e3o. Se voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 artista, demora bastante.<\/p>\n<p><strong>Negritude<\/strong> &#8211;\u00a0Acho que essa minha iniciativa foi um reflexo da minha maturidade. Me sinto mais consciente sobre meus direitos. E tamb\u00e9m resolvi assumir de vez minha negritude, come\u00e7ando pelo meu cabelo.<\/p>\n<p>Desde crian\u00e7a, alisava os fios. Hoje, percebo que fazia isso porque queria me enquadrar. Na escola, minhas amigas eram brancas e tinham cabelo liso.<\/p>\n<p>Mas resolvi parar. N\u00e3o queria mais ser ref\u00e9m de algo que n\u00e3o me fazia bem. E foi uma \u00f3tima surpresa. Meu cabelo \u00e9 lindo e amo os meus cachos. Antigamente, me embranquecia. Isso acabou. Tenho orgulho de ser negra.<\/p>\n<p>E hoje tenho cada vez mais certeza disso. H\u00e1 alguns meses, participei de uma a\u00e7\u00e3o sobre sexualidade na adolesc\u00eancia para escolas p\u00fablicas no Morro dos Macacos. Na sa\u00edda de uma delas, as meninas negras pediram para tirar fotos comigo e elogiaram meu cabelo crespo. Elas me viram como refer\u00eancia.<\/p>\n<p>Isso porque, quando entro na favela de jaleco, n\u00e3o prescrevo apenas rem\u00e9dios, prescrevo sonhos. Mostro para essas meninas que elas podem ter um futuro.<\/p>\n<p>Coincidentemente, por\u00e9m, no dia dessa a\u00e7\u00e3o na escola, voltei no mesmo \u00f4nibus que uma aluna. E quando desci no mesmo ponto que ela aqui perto de casa, ela perguntou: &#8216;o que voc\u00ea t\u00e1 fazendo aqui&#8217;?<\/p>\n<p>Chorei muito. Mas isso s\u00f3 me fez ter mais consci\u00eancia da minha fun\u00e7\u00e3o social. Com o perd\u00e3o do trocadilho, quero poder dar uma &#8216;inje\u00e7\u00e3o de \u00e2nimo&#8217; nessas pessoas.<\/p>\n<p>Reconhe\u00e7o que aqui os sonhos s\u00e3o muitas vezes limitados pela falta de oportunidades. Mas espero que um dia todos n\u00f3s tenhamos chances iguais.<\/p>\n<p>N\u00e3o vai ser f\u00e1cil, mas sei que \u00e9 poss\u00edvel.&#8221;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-107667\" src=\"http:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/bbc-v2.gif\" alt=\"bbc-v2\" width=\"88\" height=\"31\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luis Barrucho A carioca Mirna Moreira, 22, lembra-se da rea\u00e7\u00e3o dos colegas no dia em que obteve nota m\u00e1xima na disciplina de Anatomia, a mais temida por alunos rec\u00e9m-ingressados no curso de medicina da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro). &#8220;Eu e uma outra menina? Branca? Gabaritamos a prova dessa mat\u00e9ria. Ningu\u00e9m se surpreendeu [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":107668,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[67],"tags":[],"class_list":["post-107666","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-mulher"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/107666","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=107666"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/107666\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":107855,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/107666\/revisions\/107855"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/107668"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=107666"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=107666"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=107666"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}