{"id":109214,"date":"2016-07-27T05:22:13","date_gmt":"2016-07-27T08:22:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=109214"},"modified":"2016-07-30T11:21:04","modified_gmt":"2016-07-30T14:21:04","slug":"ignacio-de-loyola-brandao-conta-em-cronica-aos-80-o-tempo-que-ficou-para-tras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/ignacio-de-loyola-brandao-conta-em-cronica-aos-80-o-tempo-que-ficou-para-tras\/","title":{"rendered":"Ign\u00e1cio de Loyola Brand\u00e3o conta em cr\u00f4nica, aos 80, o tempo que ficou para tr\u00e1s"},"content":{"rendered":"<h6 class=\"Assina\"><strong>Maria Fernanda Rodrigues<\/strong><\/h6>\n<p>Ign\u00e1cio de Loyola Brand\u00e3o n\u00e3o gosta da ideia de que suas lembran\u00e7as e as hist\u00f3rias que viveu caiam no esquecimento &#8211; dele, inclusive. Por isso tamb\u00e9m, ele escreve. Mas garante que faz isso tudo sem nostalgia e que jamais entraria na m\u00e1quina do tempo e voltaria para a Araraquara da sua inf\u00e2ncia e juventude. &#8220;Meu tempo \u00e9 esse&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>O mundo era pequeno, tudo era proibido. N\u00e3o havia divers\u00e3o em sua cidade, t\u00e3o cheia de preconceito. Nem telefone, ele reclama. &#8220;Gosto de fazer essa mem\u00f3ria para n\u00e3o perder essas coisas&#8221;, diz. Mas Ign\u00e1cio, nascido em 1936, viu esse mundinho crescer e se tornar global. O homem pisou na lua, Elvis, Beatles e Rolling Stones surgiram, o computador foi criado, todo mundo passou a andar com um telefone no bolso. Viveu a ditadura e a democracia, mas nunca, por\u00e9m, nesses 80 anos que completa no domingo, 31, viu tanto \u00f3dio, incompreens\u00e3o, agress\u00e3o e despaut\u00e9rio como v\u00ea nesses dias t\u00e3o complicados.<\/p>\n<p>E a perplexidade despertada pelo momento atual o levou a fazer algo que n\u00e3o fazia h\u00e1 10 anos: escrever um romance. Era com Desta Terra Nada Vai Sobrar a N\u00e3o Ser o Vento Que Sopra Sobre Ela que ele queria comemorar o anivers\u00e1rio, mas n\u00e3o gostou do rumo que a hist\u00f3ria estava tomando, recome\u00e7ou do zero e n\u00e3o p\u00f4de terminar. O livro novo n\u00e3o faz exatamente uma reflex\u00e3o sobre o Brasil de hoje, mas reflete esse pa\u00eds que vem assombrando o escritor.<\/p>\n<p>\u00c9 a volta do autor dos emblem\u00e1ticos Zero (1975), que vendeu 900 mil exemplares, e N\u00e3o Ver\u00e1s Pa\u00eds Nenhum (1981), mais de um milh\u00e3o de c\u00f3pias comercializadas, ao romance situado num pa\u00eds tentando superar quest\u00f5es urgentes &#8211; a ditadura, no caso do primeiro, o meio ambiente, no do segundo, e de tudo um pouco &#8211; corrup\u00e7\u00e3o, terrorismo, refugiados, etc. &#8211; no romance prometido para 2017.<\/p>\n<p>Antes disso, por\u00e9m, apresenta Se For Pra Chorar Que Seja de Alegria (Global), com uma sele\u00e7\u00e3o de cr\u00f4nicas, quase todas publicadas no Caderno 2. O lan\u00e7amento ser\u00e1 nesta quarta-feira, 27, \u00e0s 18h30, na Livraria Martins Fontes (Av. Paulista, 509). Este \u00e9 s\u00f3 o come\u00e7o dos festejos. No domingo, Ign\u00e1cio e sua filha Rita Gullo fazem o show Solid\u00e3o no Fundo da Agulha, em que ele conta seus causos e ela canta as m\u00fasicas que o remetem \u00e0quelas hist\u00f3rias. O encontro ocorre no mesmo local, a partir das 13 horas, quando ele faz nova sess\u00e3o de aut\u00f3grafos. \u00c0s 16h30 haver\u00e1 um coquetel e o show.<\/p>\n<p>Cronista do jornal O Estado de S. Paulo h\u00e1 23 anos, Loyola Brand\u00e3o acaba de ganhar o Pr\u00eamio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras, no valor de R$ 300 mil, pelo conjunto da obra. \u00c9 o triunfo do escritor que queria ser cineasta &#8211; sonho realizado pelo filho. Mas eram outros tempos e ele, que foi tamb\u00e9m jornalista, descobriu como era gostoso escrever romances e contos.<\/p>\n<p>&#8220;Eu tinha tes\u00e3o de sair correndo do jornal, voava para a pens\u00e3o e batia a m\u00e1quina a noite inteira. Eu n\u00e3o tinha um projeto liter\u00e1rio; s\u00f3 queria escrever a hist\u00f3ria que estava na cabe\u00e7a. E eu tamb\u00e9m gostava de fingir que era escritor. Os amigos chamavam para sair e eu, sem um tost\u00e3o, dizia: \u2018Hoje eu n\u00e3o posso, estou escrevendo\u2019. Eles achavam lindo.&#8221;<\/p>\n<p>Ign\u00e1cio conversou com o Caderno 2, do jornal O Estado de S. Paulo sobre literatura, mem\u00f3ria, tempo, a influ\u00eancia do pai e muito mais. Leia a seguir trechos da conversa.<\/p>\n<p><b>S\u00e3o 80 anos de vida, 51 desde a publica\u00e7\u00e3o da primeira obra e muita hist\u00f3ria para contar. Devem cobr\u00e1-lo por um livro de mem\u00f3rias, mas n\u00e3o \u00e9 isso o que o senhor vem fazendo nas cr\u00f4nicas?<\/b><\/p>\n<p>Sempre. Mas nunca vou escrever isso, n\u00e3o tenho nada o que dizer. Mesmo porque na biografia n\u00e3o posso inventar e nas cr\u00f4nicas eu invento muito. O que fa\u00e7o \u00e9 um pouco aquela \u2018quase mem\u00f3ria\u2019 do Carlos Heitor Cony. Solid\u00e3o no Fundo da Agulha \u00e9 uma quase mem\u00f3ria.<\/p>\n<p><b>Esse projeto que inclui livro e show est\u00e1 dando muito certo, n\u00e3o?<\/b><\/p>\n<p>Muito. Eu nunca me imaginei indo ao palco para fazer um show. \u00c9 surpreendente. Tem pessoas de todas as idades. Eu me divirto. E talvez essa entrega minha no palco passe para as pessoas. J\u00e1 fizemos mais de 100 apresenta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><b>O passado est\u00e1 sempre presente em seus livros.<\/b><\/p>\n<p>\u00c9 uma mem\u00f3ria, mas sem nostalgia. Eu n\u00e3o sou saudosista. Conto coisas que aconteceram no passado, mas n\u00e3o quero voltar. Meu tempo \u00e9 esse. Era tudo muito chato. Com 20 anos era tudo proibi\u00e7\u00e3o. Vivi numa cidade sem telefone, sem divers\u00e3o, cheia de preconceito. O mundo era muito fechado, pequenininho. Gosto de fazer essa mem\u00f3ria para n\u00e3o perder essas coisas.<\/p>\n<p><b>Nada deixou saudade?<\/b><\/p>\n<p>Nada. Gosto de lembrar daquilo, mas n\u00e3o tenho saudades. Jamais entraria numa m\u00e1quina do tempo. Deus me livre. Cada um nasce na sua \u00e9poca, mas eu gostaria de ter nascido hoje. Se bem que o que eu vi foi bem interessante. Vi todas as mudan\u00e7as, o Elvis Presley, a Brigitte Bardot, os Beatles, Rolling Stones, o homem descer na lua. Vi chegar o celular, o computador. Trabalhei em jornal quando era com linotipo e clich\u00ea de zinco e trabalho em jornal hoje com toda essa inform\u00e1tica.<\/p>\n<p><b>Mas por que, ent\u00e3o, gostaria de ter nascido hoje?<\/b><\/p>\n<p>Sou realista, meu tempo est\u00e1 acabando. N\u00e3o sei quanto mais vou viver. Mas n\u00e3o vou parar por isso. 80 \u00e9 uma idade interessante. \u00c9 gostoso ter vivido o que vivi e ver o que estou vendo.<\/p>\n<p><b>O mundo, hoje, est\u00e1 mais chato?<\/b><\/p>\n<p>Ele est\u00e1 complicado. Nunca vi tanto \u00f3dio, incompreens\u00e3o, agress\u00e3o, despaut\u00e9rio. Nesse Brasil, viramos inimigos um do outro. \u00c9 um pa\u00eds dividido. Se voc\u00ea for defender uma ideia pol\u00edtica, o cara pode te dar um tiro. Eu peguei a Revolu\u00e7\u00e3o Socialista, que ia mudar o mundo. N\u00e3o mudou. Hoje, n\u00e3o sabemos o que pode mudar o mundo. Essa impot\u00eancia \u00e9 que paralisa. As tais utopias\u2026 Cad\u00ea? Quais s\u00e3o? O que \u00e9 pol\u00edtica hoje? Eu imagino, nesse livro novo, o parlamento se dissolvendo como uma geleia.<\/p>\n<p><b>Desta Terra Nada Vai Sobrar a N\u00e3o Ser o Vento Que Sopra Sobre Ela faz uma reflex\u00e3o sobre o Brasil atual?<\/b><\/p>\n<p>N\u00e3o, s\u00f3 conta. Vai ser meio f\u00e1bula, meio fantasia, mas com muita realidade.<\/p>\n<p><b>Poderia falar mais sobre a obra?<\/b><\/p>\n<p>O personagem, na casa dos 50, 60 anos, est\u00e1 andando de \u00f4nibus por cidades fict\u00edcias do Brasil para fugir de um relacionamento. Numa hora, o \u00f4nibus quase vazio penetra num t\u00fanel imenso. Algu\u00e9m diz que o t\u00fanel \u00e9 artificial, em uma montanha com todas as palavras in\u00fateis ditas em todos os celulares por todas as pessoas. Depois, o motorista mostra uma obra magn\u00edfica feita pelo governo com milh\u00f5es de d\u00f3lares, com propina, superfaturamento, num local coberto pela Samarco. Continua andando e entra no setor das dela\u00e7\u00f5es premiadas. Passa pelo Morro das Lamenta\u00e7\u00f5es, que comporta todas as acusa\u00e7\u00f5es: \u2018nunca fiz isso\u2019, \u2018nunca roubei\u2019. Todos aqueles chav\u00f5es formam uma cordilheira. Nisso vai tendo o retrato de um pa\u00eds. Quando entro e come\u00e7o a escrever, a coisa vem vindo. Como a Lava Jato: puxa uma pena e sai uma galinha. E tem muita ironia. Estou adorando, mas n\u00e3o sei o que vai virar.<\/p>\n<p><b>Ele dialoga com o N\u00e3o Ver\u00e1s, que foi premonit\u00f3rio?<\/b><\/p>\n<p>N\u00e3o sei. Pode at\u00e9 ser, e tenho que tomar cuidado. Ele se passa num tempo qualquer. Pode ser hoje, e n\u00e3o \u00e9 hoje. As pessoas se agredindo por nada. O personagem vai pedir uma informa\u00e7\u00e3o e a mulher sai correndo gritando que vai ser estuprada. E ele vai atr\u00e1s para tentar acalm\u00e1-la. Correm atr\u00e1s dele. Ele s\u00f3 queria uma informa\u00e7\u00e3o. Mas o medo est\u00e1 presente o tempo inteiro.<\/p>\n<p><b>Diz muito sobre o momento.<\/b><\/p>\n<p>Eu acho. Est\u00e1 tudo paranoico, e eu tamb\u00e9m. O terrorismo n\u00e3o est\u00e1 no livro, mas vai entrar porque o mundo ficou paranoico, doido. \u00c9 um perigo. Os refugiados tamb\u00e9m v\u00e3o aparecer. Tenho medo que esse livro nunca acabe.<\/p>\n<p><b>J\u00e1 se passaram 51 anos desde sua estreia. O que ainda o atrai na literatura?<\/b><\/p>\n<p>Em primeiro lugar, ela \u00e9 uma grande fuga. Em segundo, n\u00e3o sei direito o que \u00e9 vida e gostaria de entender por que estamos aqui Mas fa\u00e7o literatura por uma grande catarse, ela \u00e9 a minha terapia. Essas coisas est\u00e3o dentro de mim e ficam saindo. Fico pensando se um dia tudo vai esvaziar dentro de mim.<\/p>\n<p><b>Gostaria que esvaziasse?<\/b><\/p>\n<p>N\u00e3o! Tenho medo que isso aconte\u00e7a. Por que eu fa\u00e7o? Tem gente que fala coisas bonitas como \u2018porque quero me entender\u2019. N\u00e3o sei se eu quero me entender. Eu quero tirar. Est\u00e1 cheio de coisa aqui ainda.<\/p>\n<p><b>E o que a literatura proporciona, hoje, para o senhor?<\/b><\/p>\n<p>Al\u00edvio. De repente, estou t\u00e3o carregado e quando ponho para fora, eu gosto. \u00c9 t\u00e3o gostoso criar coisas e saber que algu\u00e9m vai ler, que pode gostar e se divertir. Eu me sinto \u00fatil. E quando trago essas mem\u00f3rias, \u00e9 uma forma de recuperar um momento que foi bom.<\/p>\n<p><b>Voltando no tempo, a essas mem\u00f3rias. Seu pai foi um grande leitor. Ele foi sua primeira influ\u00eancia?<\/b><\/p>\n<p>Sim. Ele foi um grande leitor e comprava livros com um sacrif\u00edcio enorme. Ele assinava o Estado, via que sa\u00eda algum livro, dava o dinheiro que economizava para o chefe do trem ou para o maquinista, que comprava em S\u00e3o Paulo e levava para Araraquara. E ele lia, lia, lia. Ele voltava do trabalho na Estrada de Ferro Araraquara (come\u00e7ou como escritur\u00e1rio) \u00e0s 17h30, picava a lenha para o fog\u00e3o e, enquanto minha m\u00e3e cozinhava, ele ficava lendo na sala. Eu o via lendo e perguntava: \u2018\u00c9 bom, pai?\u2019. A\u00ed ele me contava. Ou \u00e0s vezes ele ficava meio assim e eu falava: \u2018\u00c9 triste, pai?\u2019. Eu era um moleque chato. Quando comecei a ler, ele pediu livros para uma prima. Foi ele que me deu O Patinho Feio, percebendo que eu me achava feio, e com ele descobri, inconscientemente, que eu podia ser outra coisa. Depois, me fascinei pelo Livro dos Porqu\u00eas. Eu era um menino que perguntava tudo.<\/p>\n<p><b>O senhor acaba de ganhar o Pr\u00eamio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras. J\u00e1 quis ser imortal?<\/b><\/p>\n<p>Nunca me passou pela cabe\u00e7a, mas esta tem sido a pergunta mais frequente nos \u00faltimos dias. Confesso que foi um momento m\u00e1gico ganhar o Machado de Assis, receb\u00ea-lo com pompa. Me fez pensar. \u00c9 decis\u00e3o dif\u00edcil, tentadora. Mais da metade dos acad\u00eamicos \u00e9 de amigos meus. Mas ser\u00e1 a hora? N\u00e3o seria necess\u00e1rio antes um &#8220;namoro&#8221;, como me disse uma amiga acad\u00eamica? Frequent\u00e1-la mais, conhecer os mecanismos, participar. Amadurecer, primeiro.<\/p>\n<p><b>Que balan\u00e7o o senhor faz desses primeiros 80 anos?<\/b><\/p>\n<p>Foram bem vividos. Fiz tudo o que eu queria fazer. E tudo o que eu queria fazer era escrever. Vivi disso &#8211; como jornalista e depois como escritor. Encontrei uma mulher sensacional, a Marcia Tive filhos. J\u00e1 fui muito ansioso e hoje sou menos. A experi\u00eancia do aneurisma foi fundamental e minha vida \u00e9 outra depois dele. N\u00e3o tenho mais pressa.<\/p>\n<p><b>E tem medo de alguma coisa?<\/b><\/p>\n<p>Da morte eu n\u00e3o tenho mais. Sei que ela vai chegar uma hora. N\u00e3o tenho medo do que vou encontrar l\u00e1. Quem sabe h\u00e1 um universo paralelo, outra vida, vida nenhuma? Tenho medo de ter uma longa doen\u00e7a e ir me decompondo. E tenho outro medo, que faz minha mulher e minha filha rirem muito, que \u00e9 de virar morador de rua e ficar andando com o cobertorzinho para l\u00e1 e para c\u00e1.<\/p>\n<p><b>O que sobrou daquele menino perguntador?<\/b><\/p>\n<p>Ainda sou aquele menino. Eu escrevo esses livros porque eu sou ele. Continuo a ser o menino que vende palavras, que faz perguntas, brinca na enxurrada, sobe em \u00e1rvore. Eu nunca quis perder a fantasia e a imagina\u00e7\u00e3o infantil e acho que consegui n\u00e3o perder muito dela n\u00e3o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-70065\" src=\"http:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/estadao.png\" alt=\"estadao\" width=\"99\" height=\"16\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Fernanda Rodrigues Ign\u00e1cio de Loyola Brand\u00e3o n\u00e3o gosta da ideia de que suas lembran\u00e7as e as hist\u00f3rias que viveu caiam no esquecimento &#8211; dele, inclusive. 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