{"id":111520,"date":"2016-08-10T16:52:58","date_gmt":"2016-08-10T19:52:58","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=111520"},"modified":"2016-08-10T16:52:58","modified_gmt":"2016-08-10T19:52:58","slug":"linguagem-aberta-e-franca-de-amara-moira-em-seu-intraduzivel-e-se-eu-fosse-puta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/linguagem-aberta-e-franca-de-amara-moira-em-seu-intraduzivel-e-se-eu-fosse-puta\/","title":{"rendered":"Linguagem aberta e franca de Amara Moira em seu intraduz\u00edvel E Se Eu Fosse Puta"},"content":{"rendered":"<p><strong>Guilherme Sobota<\/strong><\/p>\n<p>Antes de assumir a pr\u00f3pria identidade, Amara Moira, 31, pensava a literatura como um laborat\u00f3rio de experimenta\u00e7\u00e3o de linguagem &#8211; ela estuda o &#8220;intraduz\u00edvel&#8221; em James Joyce, em um doutorado no Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp. Mas desde que pediu para uma pessoa cham\u00e1-la pelo seu nome pela primeira vez, h\u00e1 dois anos, ela acredita que a mesma literatura deve ser um instrumento de transforma\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>\u00c9 o que ela procura com E Se Eu Fosse Puta, livro de mem\u00f3rias e espa\u00e7o de reflex\u00e3o publicado agora pela Hoo Editora. O livro traz textos retrabalhados de um blog seu de mesmo nome, criado com o objetivo de tentar entender o processo pelo qual estava passando &#8211; assumir a identidade de travesti, e, depois, se tornar prostituta e escritora.<\/p>\n<p>&#8220;Demorei para me assumir, em parte por conta do medo de ter que me prostituir da forma mais violenta poss\u00edvel, com condi\u00e7\u00f5es de trabalho complicadas&#8221;, explica, simp\u00e1tica, ao Estado, no apartamento onde vive na zona sul de S\u00e3o Paulo. &#8220;Quando comecei minha transi\u00e7\u00e3o, come\u00e7aram a me tratar como prostituta, \u00e9 s\u00f3 dessa forma que as pessoas conseguem imaginar uma travesti.&#8221; Ela come\u00e7ou ent\u00e3o a frequentar e se aproximar da comunidade das travestis e a entender que a prostitui\u00e7\u00e3o poderia, tamb\u00e9m, ser uma escolha. &#8220;Escrever sobre isso foi tentar entender esse processo.&#8221; Agora, ela quer que seu relato seja um instrumento que ajude as pessoas a pensar sobre o que \u00e9 a prostitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No livro &#8211; que tem tirinhas da cartunista Laerte e textos de colegas -, ela alterna relatos dos programas, especula\u00e7\u00f5es sobre as motiva\u00e7\u00f5es e atitudes dos clientes, reflex\u00f5es sobre sua milit\u00e2ncia no movimento LGBT e como essas atividades consolidam mudan\u00e7as no seu pr\u00f3prio jeito de encarar a vida.<\/p>\n<p>&#8220;Fico pensando que esse livro poderia ter alguma fun\u00e7\u00e3o positiva, fazer com que a sociedade veja a travesti e a prostituta por olhos que a humanizem&#8221;, diz, esperan\u00e7osa. &#8220;Isso j\u00e1 seria um ganho estupendo.&#8221;<\/p>\n<p>Uma das conclus\u00f5es mais agudas a que ela chega \u00e9 a de que &#8220;a nudez final, nudez nudez, essa est\u00e1 reservada s\u00f3 para profissional de fato, s\u00f3 para quem saiba despir&#8221;. Porque, como ela explica, a sociedade cria os homens com muitas limita\u00e7\u00f5es e m\u00e1scaras &#8211; em rela\u00e7\u00e3o ao g\u00eanero e ao sexo &#8211; e aqueles que a procuram, na rua, podem por alguns segundos, ao menos, botar essa m\u00e1scara fora. &#8220;A quest\u00e3o \u00e9 que, passado o momento do gozo, eles voltam. J\u00e1 n\u00e3o lidam bem nem com o fato de ter tirado essa m\u00e1scara por um tempo.&#8221; Ao dizer que quer trazer os clientes para a discuss\u00e3o, ela reivindica um lugar com propriedade: &#8220;Se a gente quer saber quem s\u00e3o os homens, as prostitutas devem ser as primeiras a ser questionadas&#8221;.<\/p>\n<p>Alguns de seus relatos d\u00e3o conta de epis\u00f3dios de viol\u00eancia por parte dos clientes &#8211; como o homem que a for\u00e7ou a fazer sexo oral nele sem preservativo &#8211; e as intermin\u00e1veis e inc\u00f4modas negocia\u00e7\u00f5es do pre\u00e7o dos programas, que ficam entre R$ 10 e R$ 50, com algumas exce\u00e7\u00f5es. &#8220;O \u2018n\u00e3o \u00e9 n\u00e3o\u2019 das feministas precisa urgentemente ganhar a zona, empoderar prostitutas. Aqui, ainda n\u00e3o ouviram nada a respeito disso&#8221;, garante.<\/p>\n<p>&#8220;Travestis s\u00e3o mortas enquanto est\u00e3o trabalhando. Tornar esses espa\u00e7os mais seguros \u00e9 tamb\u00e9m garantir vidas&#8221;, explica. Ela cita dados da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de L\u00e9sbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT) de que aproximadamente 90% das travestis trabalham com prostitui\u00e7\u00e3o. &#8220;Buscamos condi\u00e7\u00f5es mais seguras e, ao mesmo tempo, que nos vejam para al\u00e9m de um corpo que est\u00e1 vendendo sexo&#8221;, diz ainda.<\/p>\n<p>Sua transi\u00e7\u00e3o &#8211; o fato de assumir a identidade de mulher em um corpo que nasceu com a condi\u00e7\u00e3o f\u00edsica masculina &#8211; ocorreu durante o seu doutorado, momento em que atingiu independ\u00eancia financeira. &#8220;Brinco que meu projeto era in\u00fatil e a universidade adora disso&#8221;, compara. &#8220;A universidade n\u00e3o gosta de coisas comprometidas com seu tempo, com transforma\u00e7\u00e3o social. Isso me incomoda horrores. Como eu vou fazer com que as travestis apanhem menos da pol\u00edcia e sejam menos exclu\u00eddas da sociedade estudando a v\u00edrgula da p\u00e1gina 58, da obra xyz? N\u00e3o estou falando que Letras \u00e9 in\u00fatil, mas, \u00e0s vezes, o estudo se presta apenas \u00e0 bolha criada ali dentro&#8221;, lamenta.<\/p>\n<p>Ela vai, contudo, tocar o projeto de doutorado at\u00e9 o fim, motivada por uma provoca\u00e7\u00e3o de outra professora: &#8220;Quero trazer Joyce de volta para a zona de legibilidade&#8221;. Ela tamb\u00e9m ressalta a import\u00e2ncia de possuir o t\u00edtulo para, por exemplo, poder aceitar o convite de um professor da Faculdade de Direito da USP para compor uma banca de avalia\u00e7\u00e3o. A qualifica\u00e7\u00e3o deve ocorrer em outubro e a defesa est\u00e1 marcada para fevereiro. &#8220;Quero cair no vestibular, um dia&#8221;, brinca &#8211; mas nem tanto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Guilherme Sobota Antes de assumir a pr\u00f3pria identidade, Amara Moira, 31, pensava a literatura como um laborat\u00f3rio de experimenta\u00e7\u00e3o de linguagem &#8211; ela estuda o &#8220;intraduz\u00edvel&#8221; em James Joyce, em um doutorado no Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp. 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