{"id":111625,"date":"2016-08-11T17:21:44","date_gmt":"2016-08-11T20:21:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=111625"},"modified":"2016-08-11T10:24:37","modified_gmt":"2016-08-11T13:24:37","slug":"suspense-de-provocar-calafrios-esta-garantido-na-telona-com-conexao-francesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/suspense-de-provocar-calafrios-esta-garantido-na-telona-com-conexao-francesa\/","title":{"rendered":"Suspense de provocar calafrios est\u00e1 garantido na telona com Conex\u00e3o Francesa"},"content":{"rendered":"<h6 class=\"Assina\"><strong>Luiz Zanin Oricchio<\/strong><\/h6>\n<p>Um grande cartel de drogas, um juiz incorrupt\u00edvel, obcecado e corajoso contra um vil\u00e3o carism\u00e1tico. A\u00ed est\u00e3o ingredientes para um bom filme policial. E, digamos de entrada, Conex\u00e3o Francesa, de C\u00e9dric Jimenez, n\u00e3o nega fogo. Toma a tal receita, maneja bem os ingredientes e entrega um produto interessante ao p\u00fablico. Adiciona ainda um tempero em geral eficiente, a vincula\u00e7\u00e3o dos fatos de fic\u00e7\u00e3o com os da realidade.<\/p>\n<p>Pois \u00e9 bem verdade que, na virada dos anos 1970 para os 80, tempo ficcional do longa, a cidade de Marselha, no sul da Fran\u00e7a, tornara-se um dos principais entrepostos de drogas do mundo. Produzia para consumo interno, distribu\u00eda a droga para a Fran\u00e7a e para o resto da Europa, e ainda cruzava o oceano rumo ao grande mercado dos Estados Unidos. Os fatos j\u00e1 haviam sido tratados num cl\u00e1ssico do cinema de a\u00e7\u00e3o, Opera\u00e7\u00e3o Fran\u00e7a (1971), de William Friedkin, no qual Conex\u00e3o Francesa se inspira, mas com o cuidado de n\u00e3o imitar.<\/p>\n<p>\u00c9 em Marselha que age Pierre Michel (Jean Dujardin), desafiando o poderoso chef\u00e3o local, o italiano Ga\u00ebtan &#8220;Tanny&#8221; Zampa (Gilles Lellouche). Dujardin \u00e9 conhecido por sua atua\u00e7\u00e3o em O Artista, o filme mudo que ganhou o Oscar e tamb\u00e9m deu a ele a estatueta de Hollywood como melhor ator. Em papel dram\u00e1tico vai bem. Comp\u00f5e um juiz n\u00e3o apenas determinado, mas pr\u00f3ximo do fanatismo no cumprimento de suas fun\u00e7\u00f5es e daquilo que acredita ser sua miss\u00e3o na Terra. N\u00e3o \u00e9 raro encontrarmos nos profissionais da justi\u00e7a essa devo\u00e7\u00e3o que os aproxima do fanatismo religioso. O interessante, no caso de Michel, \u00e9 ele ter alguma coisa em seu passado que talvez explique o excesso de determina\u00e7\u00e3o como rea\u00e7\u00e3o compensat\u00f3ria. A liga\u00e7\u00e3o entre pecado e reden\u00e7\u00e3o d\u00e1-lhe t\u00f4nus dram\u00e1tico.<\/p>\n<p>Da mesma forma, Jimenez preocupa-se em engrossar o caldo psicol\u00f3gico do antagonista, o cruel Zampa. Bem interpretado por Lellouche, tenta evitar o lugar-comum, mas acaba por cair no clich\u00ea do bom mafioso introduzido por Coppola em O Poderoso Chef\u00e3o: o bandido cruel, por vezes verdadeiro psicopata, revela-se, na intimidade, pai de fam\u00edlia exemplar, cuidadoso com a esposa e carinhoso com os filhos. Do anticlich\u00ea, retorna-se ao clich\u00ea.<\/p>\n<p>O refor\u00e7o &#8220;inspirado em fatos reais&#8221; expressa-se em cenas documentais. O ent\u00e3o presidente Nixon elegendo o combate ao tr\u00e1fico como prioridade do seu governo. Na Fran\u00e7a, Mitterrand elege-se para seu primeiro septenato. O antigo prefeito de Marselha, que fazia vistas grossas ao tr\u00e1fico, \u00e9 conduzido ao Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a e passa a colaborar com o juiz Michel. O quadro muda. Talvez nem tanto, porque deita ra\u00edzes profundas nas esferas de poder e, mesmo quando peixes grandes caem na rede, n\u00e3o se pode garantir que o crime tenha sido debelado, apenas que mudou de m\u00e3os. Talvez nem isso.<\/p>\n<p>Jimenez procura dar um tom de &#8220;cinema verdade&#8221; \u00e0 sua fic\u00e7\u00e3o. As cenas de a\u00e7\u00e3o s\u00e3o bem filmadas. O conjunto \u00e9 banhado em ritmo r\u00e1pido, quase fren\u00e9tico, em que os tempos mais lentos s\u00e3o raros. Estes s\u00e3o consagrados \u00e0 &#8220;intimidade&#8221; dos personagens. Em especial aos problemas de fam\u00edlia do juiz, com sua mulher amea\u00e7ando abandon\u00e1-lo porque tem medo da repres\u00e1lia dos bandidos<\/p>\n<p>Em Conex\u00e3o Francesa, a luta da justi\u00e7a contra as gangues \u00e9 entremeada a esses conflitos familiares. Joga com a intimidade e o aspecto, digamos assim, p\u00fablico da atividade criminosa. Nesse sentido, dialoga com o cinema noir ao mostrar que a criminalidade se instala nas disfun\u00e7\u00f5es do sistema social e dele n\u00e3o pode ser separada, como desejam os simpl\u00f3rios e os demagogos<\/p>\n<p>Vai al\u00e9m e mostra como muitas vezes o crime se entrela\u00e7a justamente com aqueles setores do poder que deveriam combat\u00ea-lo. A vida \u00e9 complexa e n\u00e3o funciona no esquema simples do Bem contra o Mal dos blockbusters americanos. Nesse sentido, Conex\u00e3o Francesa \u00e9 cinema adulto, para quem deseja encontrar na tela uma reflex\u00e3o sobre as contradi\u00e7\u00f5es da vida e n\u00e3o apaziguamento bovino. O excesso de clich\u00eas de g\u00eanero, no entanto, enfraquece um pouco a estrutura deste bom filme.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiz Zanin Oricchio Um grande cartel de drogas, um juiz incorrupt\u00edvel, obcecado e corajoso contra um vil\u00e3o carism\u00e1tico. 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