{"id":112651,"date":"2016-08-19T04:00:36","date_gmt":"2016-08-19T07:00:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=112651"},"modified":"2016-08-19T07:47:47","modified_gmt":"2016-08-19T10:47:47","slug":"descoberta-do-fogo-trouxe-evolucao-e-vantagens-mas-deixou-algo-queimando","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/descoberta-do-fogo-trouxe-evolucao-e-vantagens-mas-deixou-algo-queimando\/","title":{"rendered":"Descoberta do fogo trouxe evolu\u00e7\u00e3o e vantagens, mas deixou algo queimando"},"content":{"rendered":"<p>Quando os primeiros humanos descobriram como fazer fogo, a vida se tornou muito mais f\u00e1cil em v\u00e1rios aspectos. Eles se reuniam em torno das fogueiras para se aquecer, conseguir luz e prote\u00e7\u00e3o. Usavam o fogo para cozinhar, o que lhes deu mais calorias do que comer alimentos crus dif\u00edceis de mastigar e digerir. Podiam socializar noite adentro, o que possivelmente deu origem ao h\u00e1bito de contar hist\u00f3rias e outras tradi\u00e7\u00f5es culturais.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m houve desvantagens. Algumas vezes, a fuma\u00e7a queimava seus olhos e seus pulm\u00f5es. A comida era provavelmente um pouco carbonizada, o que pode ter aumentado o risco de terem desenvolvido alguns c\u00e2nceres. Com todos reunidos em um s\u00f3 lugar, as doen\u00e7as tamb\u00e9m podem ter sido transmitidas com mais facilidade.<\/p>\n<p>Grande parte das pesquisas foca em como o fogo ofereceu uma vantagem evolutiva para os primeiros humanos. Os subprodutos negativos que vieram com a descoberta e as maneiras como os humanos se adaptaram ou n\u00e3o a eles n\u00e3o foram t\u00e3o investigados.<\/p>\n<p>Em outras palavras, como os efeitos prejudiciais do fogo moldaram nossa evolu\u00e7\u00e3o? \u00c9 uma quest\u00e3o que est\u00e1 come\u00e7ando a atrair mais aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Reprodu\u00e7\u00e3o<\/strong> &#8211; &#8220;Eu diria que ainda \u00e9 uma conversa informal neste momento&#8221;, afirma Richard Wrangham, professor de Antropologia Biol\u00f3gica da Universidade Harvard e autor de &#8220;Catching Fire: How Cooking Made Us Human&#8221; (Pegando Fogo: como cozinhar nos tornou humanos). Seu trabalho sugere que cozinhar levou a mudan\u00e7as vantajosas na biologia humana, como c\u00e9rebros maiores.<\/p>\n<p>Agora, dois estudos novos prop\u00f5em teorias sobre como as consequ\u00eancias negativas do fogo podem ter moldado a evolu\u00e7\u00e3o e o desenvolvimento humanos.<\/p>\n<p>No primeiro, publicado em setembro, cientistas identificaram uma muta\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica nos humanos modernos que permite que algumas toxinas, incluindo aquelas encontradas na fuma\u00e7a, sejam metabolizadas em um n\u00edvel seguro. A mesma sequ\u00eancia gen\u00e9tica n\u00e3o foi encontrada em outros primatas, incluindo homin\u00eddeos antigos como os Neandertais e os de Denisova.<\/p>\n<p>Os pesquisadores acreditam que as muta\u00e7\u00f5es surgiram como resposta \u00e0 aspira\u00e7\u00e3o de toxinas da fuma\u00e7a que podem aumentar os riscos de infec\u00e7\u00f5es respirat\u00f3rias, debilitar o sistema imunol\u00f3gico e perturbar o sistema reprodutivo.<\/p>\n<p><strong>Seria uma vantagem evolutiva?<\/strong> &#8211; \u00c9 poss\u00edvel que o fato de possuir essa muta\u00e7\u00e3o tenha dado aos homens modernos uma vantagem evolutiva sobre os Neandertais, embora por enquanto ainda seja especula\u00e7\u00e3o, diz Gary Perdew, professor de toxicologia da Universidade Estadual da Pensilv\u00e2nia e autor do estudo. Mas se a especula\u00e7\u00e3o estiver correta, a muta\u00e7\u00e3o pode ter sido o motivo de os humanos modernos estarem habituados aos efeitos adversos do fogo o que n\u00e3o ocorre com outras esp\u00e9cies.<\/p>\n<p>Thomas Henle, professor de Qu\u00edmica da Universidade de Tecnologia de Dresden, na Alemanha, que n\u00e3o participou do estudo, questiona se os humanos tamb\u00e9m desenvolveram muta\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas \u00fanicas para lidar melhor, ou at\u00e9 tirar vantagens, dos subprodutos do fogo na comida.<\/p>\n<p>Em 2011, seu grupo de pesquisa mostrou que as mol\u00e9culas marrons que surgem com a torrefa\u00e7\u00e3o do caf\u00e9 t\u00eam o poder de inibir enzimas produzidas por c\u00e9lulas tumorais, o que \u00e9 capaz de explicar por que as pessoas que tomam caf\u00e9 podem ter menos riscos de sofrer de certos c\u00e2nceres.<\/p>\n<p>Outra pesquisa sugere que esses subprodutos da queima podem estimular o crescimento de micr\u00f3bios \u00fateis no intestino.<\/p>\n<p>A muta\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica capaz de ajudar os humanos a tolerar as toxinas da fuma\u00e7a talvez seja apenas uma de v\u00e1rias adapta\u00e7\u00f5es, diz Henle. &#8220;Tenho certeza de que h\u00e1 outros mecanismos espec\u00edficos dos humanos, ou muta\u00e7\u00f5es, que ocorreram por causa da adapta\u00e7\u00e3o evolutiva para comer alimentos tratados com fogo.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Em volta do fogo<\/strong> &#8211; Entender como os humanos podem ter se adaptado de maneira \u00fanica aos riscos da exposi\u00e7\u00e3o ao fogo talvez tenha implica\u00e7\u00f5es em como os cientistas pensam sobre pesquisa m\u00e9dica, explica Wrangham. Outros animais n\u00e3o se desenvolveram em volta do fogo, por exemplo, e talvez n\u00e3o sejam os melhores modelos para estudar como processamos alimentos ou nos desintoxicamos de subst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>Um exemplo, segundo ele, \u00e9 o estudo da acrilamida, um composto que se forma nos alimentos durante a fritura, o cozimento no forno e outros em alta temperatura. Quando dada a animais de laborat\u00f3rio em altas doses, demonstrou-se que a acrilamida causa c\u00e2ncer. Mas at\u00e9 agora a maioria dos estudos em humanos falharam na hora de provar uma liga\u00e7\u00e3o alimentar entre a acrilamida e a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8220;As pessoas ficam &#8216;querendo&#8217; encontrar um problema para os humanos&#8221;, diz Wrangham, mas &#8220;n\u00e3o h\u00e1 nada t\u00e3o \u00f3bvio&#8221;.<\/p>\n<p>Os humanos, no entanto, talvez n\u00e3o tenham conseguido se ajustar a todos os perigos do fogo. O segundo estudo, publicado na semana passada no Proceedings of the National Academy of Sciences, indica que com os efeitos vantajosos do fogo para as sociedades humanas tamb\u00e9m ocorreram novos danos profundos. A pesquisa especula que o uso precoce do fogo pode ter ajudado a espalhar a tuberculose por trazer as pessoas mais pr\u00f3ximas, prejudicar seus pulm\u00f5es e fazer com que tossissem.<\/p>\n<p>Com modelos matem\u00e1ticos, Rebeca Chisholm e Mark Tanaka, bi\u00f3logos da Universidade de Nova Gales do Sul, na Austr\u00e1lia, simularam como bact\u00e9rias antigas do solo podem ter evolu\u00eddo para se tornar agentes infecciosas de tuberculose. Sem o fogo, a probabilidade era pequena. Mas quando os pesquisadores adicionaram o fogo ao modelo, a possibilidade do surgimento da tuberculose aumentou muito.<\/p>\n<p>Estima-se que a tuberculose j\u00e1 matou mais de um bilh\u00e3o de pessoas, sendo possivelmente respons\u00e1vel por mais mortes do que as guerras e as fomes combinadas. Hoje, permanece uma das doen\u00e7as infecciosas mais mortais, ceifando um n\u00famero estimado de 1,5 milh\u00f5es de vidas por ano.<\/p>\n<p>Muitos especialistas acreditam que a tuberculose surgiu pelo menos 70 mil anos atr\u00e1s. Na \u00e9poca, os humanos muito provavelmente j\u00e1 controlavam o fogo. (As estimativas de quando os humanos come\u00e7aram a usar o fogo regularmente variam muito, mas o consenso \u00e9 que foi h\u00e1 pelo menos 400 mil anos.)<\/p>\n<p>&#8220;Percebemos que a descoberta de como controlar o fogo pode ter causado uma mudan\u00e7a significativa em como os humanos interagiam entre eles e com o ambiente&#8221;, e esses s\u00e3o fatores conhecidos por causar o surgimento de doen\u00e7as infecciosas, explica Rebecca Chisholm.<\/p>\n<p>Ela e Tanaka acreditam que o fogo pode ter ajudado a espalhar outras doen\u00e7as transmitidas pelo ar, n\u00e3o apenas a tuberculose. &#8220;O fogo, como uma vantagem tecnol\u00f3gica, foi uma faca de dois gumes&#8221;, diz Tanaka.<\/p>\n<p>Consequ\u00eancias culturais negativas tamb\u00e9m surgiram com o fogo \u2013 e continuam a deixar uma marca. Os antrop\u00f3logos especulam que respirar fuma\u00e7a levou \u00e0 descoberta do h\u00e1bito de fumar. H\u00e1 tempos os humanos usam o fogo para modificar o ambiente e queimar carbono, pr\u00e1tica que agora nos coloca frente a frente com as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Ele \u00e9 inclusive conectado com a ascens\u00e3o do patriarcado \u2013 por permitir que os homens fossem ca\u00e7ar enquanto as mulheres ficavam em casa para cozinhar, o que gerou as normas que existem at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Investigar como os efeitos prejudiciais do fogo moldaram a hist\u00f3ria e a evolu\u00e7\u00e3o humana pode proporcionar uma vis\u00e3o mais rica do relacionamento entre a cultura e a biologia. Os humanos se desenvolveram biologicamente para se proteger dos riscos \u00e0 sa\u00fade de respirar a fuma\u00e7a? Isso nos ajudou a iniciar a pr\u00e1tica de fumar? Existem v\u00e1rias outras possibilidades.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 um ciclo de retroalimenta\u00e7\u00e3o fascinante&#8221;, afirma Caitlin Pepperell, professora da Universidade de Wisconsin-Madison que estuda a evolu\u00e7\u00e3o das doen\u00e7as humanas. &#8220;Espero que esses estudos nos estimulem a pensar mais sobre o fogo e nos levem a explorar diferentes dire\u00e7\u00f5es.&#8221;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-100372\" src=\"http:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/tnyt.gif\" alt=\"tnyt\" width=\"104\" height=\"19\" srcset=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/tnyt.gif 104w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/tnyt-100x19.gif 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 104px) 100vw, 104px\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando os primeiros humanos descobriram como fazer fogo, a vida se tornou muito mais f\u00e1cil em v\u00e1rios aspectos. 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