{"id":1138,"date":"2014-02-11T09:31:52","date_gmt":"2014-02-11T12:31:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=1138"},"modified":"2014-02-11T10:32:38","modified_gmt":"2014-02-11T13:32:38","slug":"transposicao-do-sao-francisco-ganha-impuilso-em-ano-de-eleicoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/transposicao-do-sao-francisco-ganha-impuilso-em-ano-de-eleicoes\/","title":{"rendered":"Transposi\u00e7\u00e3o do S\u00e3o Francisco ganha impuilso em ano eleitoral"},"content":{"rendered":"<p>Em 2006, o ent\u00e3o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, nascido no nordeste, historicamente assolado pela seca, levou adiante uma ideia que os sofridos moradores da regi\u00e3o ouviam falar h\u00e1 mais de um s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Finalmente &#8211; ele prometeu &#8211; o Brasil iria canalizar a \u00e1gua do rio S\u00e3o Francisco, o segundo maior do pa\u00eds, para a regi\u00e3o castigada pela seca. Por volta de 2010, disse Lula, a \u00e1gua seria bombeada atrav\u00e9s dos morros por meio de uma rede de 477 quil\u00f4metros de canais, aquedutos e reservat\u00f3rios para saciar cidades e fazendas sedentas em quatro Estados.<\/p>\n<p>Oito anos depois, e perto do fim do mandato da sucessora escolhida a dedo pelo presidente, Dilma Rousseff, somente metade do projeto foi constru\u00edda. Atrasado pela burocracia e problemas contratuais, o custo do \u00fanico grande empreendimento de infraestrutura do governo quase dobrou, passando a 8,2 bilh\u00f5es de reais.<\/p>\n<p>As plantas crescem atrav\u00e9s de fissuras nas placas de concreto de canais assentados cinco anos atr\u00e1s. Partes da constru\u00e7\u00e3o inicial est\u00e3o em estado t\u00e3o prec\u00e1rio que na \u00e9poca em que a \u00e1gua come\u00e7ar a jorrar ter\u00e3o de ser reconstru\u00eddos.<\/p>\n<p>Quatro anos depois da meta inicial, \u00e9 improv\u00e1vel que o projeto seja terminado at\u00e9 mesmo no fim de um poss\u00edvel segundo mandato de Dilma, apesar de o governo federal estar acelerando as obras num momento em que ela se prepara para disputar a reelei\u00e7\u00e3o em outubro.<\/p>\n<p>A transposi\u00e7\u00e3o da \u00e1gua do S\u00e3o Francisco, como muitos outros projetos de infraestrutura, \u00e9 o tipo de investimento que economistas h\u00e1 muito tempo argumentam serem necess\u00e1rios para modernizar o Brasil.<\/p>\n<p>O pa\u00eds continua prejudicado por gargalos que impedem o fluxo eficiente de mercadorias e servi\u00e7os, sem falar nas necessidades b\u00e1sicas para o desenvolvimento de algumas de suas regi\u00f5es mais pobres.<\/p>\n<p>Afetados pela burocracia, disputas pol\u00edticas, corrup\u00e7\u00e3o e outros obst\u00e1culos, os projetos de infraestrutura no pa\u00eds, em sua maioria, levam muito mais tempo do que o planejado, ou simplesmente nunca chegam a ser realizados.<\/p>\n<p>&#8220;Quando Lula lan\u00e7ou o projeto, ele falou que ia ser a oitava maravilha do mundo, que resolvia todos os problemas de \u00e1gua do nordeste&#8221;, disse Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>&#8220;Hoje voc\u00ea pode ver que a obra \u00e9 um fiasco e, at\u00e9 agora, a maior parte est\u00e1 longe de ser cumprida.&#8221;<\/p>\n<p>O governo diz que est\u00e1 indo t\u00e3o r\u00e1pido quanto poss\u00edvel num projeto de tal dimens\u00e3o e complexidade, que envolve in\u00fameros empreiteiros e um mercado de trabalho com escassez de m\u00e3o de obra especializada.<\/p>\n<p>O ritmo das obras diminuiu em 2011 e 2012, por exemplo, porque os contratos com as construtoras tiveram de ser relicitados.<\/p>\n<p>&#8220;As pessoas diziam que n\u00e3o vai acabar nunca, \u00e9 uma pir\u00e2mide do Egito essa obra&#8221;, diz o ministro da Integra\u00e7\u00e3o Nacional, Jos\u00e9 Francisco Teixeira, encarregado de executar a obra.<\/p>\n<p>At\u00e9 dezembro de 2015, sete anos depois do in\u00edcio dos trabalhos, Teixeira diz que a \u00e1gua estar\u00e1 fluindo para 12 milh\u00f5es de pessoas em pelo menos algumas partes dos quatro Estados que devem ser beneficiados: Cear\u00e1, Para\u00edba, Rio Grande do Norte e Pernambuco.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 uma obra enorme. Sete anos \u00e9 um tempo totalmente adequado para fazer uma obra dessas&#8221;, argumenta Teixeira.<\/p>\n<p>Nesse meio tempo, o governo quer alguma coisa para mostrar neste ano. Dilma, segundo pessoas familiarizadas com o projeto, pediu \u00e0s autoridades encarregadas da obra que entreguem uma primeira parte antes da elei\u00e7\u00e3o de outubro.<\/p>\n<p>O nordeste est\u00e1 sofrendo sua pior seca em meio s\u00e9culo e o projeto atrasado vai se tornar alvo de campanha da oposi\u00e7\u00e3o ao Partido dos Trabalhadores (PT). Por ser a regi\u00e3o onde vive a maior parte dos beneficiados pelos eficazes programas de assist\u00eancia social do governo e tamb\u00e9m lugar de nascen\u00e7a de Lula, ainda popular, o nordeste era um reduto de apoio aos petistas.<\/p>\n<p>Mas o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, que comanda um Estado com um crescimento econ\u00f4mico entre os mais r\u00e1pidos do pa\u00eds, est\u00e1 desafiando esse dom\u00ednio. Antes aliado de Dilma, Campos se prepara agora para disputar a Presid\u00eancia.<\/p>\n<p>Em Cabrob\u00f3, cidade pernambucana \u00e0s margens do S\u00e3o Francisco, o local da primeira esta\u00e7\u00e3o de bombeamento est\u00e1 lotado de novos trabalhadores. Foram 600 novas contrata\u00e7\u00f5es em janeiro para todo o projeto, o que expandiu a for\u00e7a de trabalho para 8.700 pessoas.<\/p>\n<p>A meta \u00e9 ter \u00e1gua fluindo at\u00e9 junho de Cabrob\u00f3 a Tucutu, o primeiro reservat\u00f3rio, a apenas 9 quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>O rio de 2.900 quil\u00f4metros de extens\u00e3o segue de Minas Gerais para o nordeste e vira abruptamente na dire\u00e7\u00e3o do mar quando alcan\u00e7a o Estado de Pernambuco, deixando seca a \u00e1rea mais para cima no nordeste.<\/p>\n<p>A ideia da transposi\u00e7\u00e3o da \u00e1gua do rio surgiu como proposta pela primeira vez em 1847 e desde ent\u00e3o vem sendo discutida. Governos nos anos 1990 decidiram levar adiante a transfer\u00eancia, mas n\u00e3o puderam conquistar o apoio pol\u00edtico necess\u00e1rio, especialmente das elites de \u00e1reas mais ao sul, que iriam ter de ceder \u00e1gua.<\/p>\n<p>Foi Lula, um negociador legend\u00e1rio, que os convenceu a dividir um &#8220;tiquinho&#8221; da \u00e1gua do rio.<\/p>\n<p>Oponentes viram o projeto como pol\u00edtica clientelista, o retorno dado por Lula para o financiamento de campanha por parte de grandes construtoras e firmas de engenharia. Cr\u00edticos diziam que ele iria secar o S\u00e3o Francisco, cujo fluxo j\u00e1 foi reduzido com a constru\u00e7\u00e3o de tr\u00eas barragens de hidrel\u00e9tricas.<\/p>\n<p>No entanto, os canais s\u00e3o projetados para desviar um m\u00e1ximo de 1,4 por cento do volume m\u00e9dio da \u00e1gua do rio, reduzindo a absor\u00e7\u00e3o quando o n\u00edvel do rio cai.<\/p>\n<p>Engenheiros e especialistas internacionais em recursos h\u00eddricos dizem que o projeto \u00e9 bem planejado e urgentemente necess\u00e1rio para o crescimento de uma regi\u00e3o que est\u00e1 finalmente emergindo de uma longa hist\u00f3ria de estagna\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Para os moradores, a \u00e1gua pode n\u00e3o chegar a tempo.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 um cano conectado \u00e0 minha casa, mas nunca tem \u00e1gua&#8221;, disse Ant\u00f4nio da Rocha, que dirige uma carro\u00e7a puxada por bois para pegar \u00e1gua tr\u00eas vezes por semana de um a\u00e7ude. A carro\u00e7a segue lentamente ao longo do novo canal, ainda n\u00e3o utilizado.<\/p>\n<p>Vacas mortas s\u00e3o uma vis\u00e3o comum nestes dias nas margens das estradas da regi\u00e3o, agora no terceiro ano consecutivo de seca. Centenas de milhares de cabe\u00e7as de gado morreram de fome ou sede por falta de \u00e1gua e forragem.<\/p>\n<p>Ulisses Ferraz, que tem 15 vacas ainda de p\u00e9, depois que a seca levou 50 cabe\u00e7as de gado no ano passado, duvida que algum dia ver\u00e1 a \u00e1gua do projeto. Uma adutora que alimenta a cidade vizinha de Serra Talhada passa por suas terras, mas ele n\u00e3o pode se servir dela para seu uso.<\/p>\n<p>Em um protesto horripilante, o agricultor de 85 anos espetou cabe\u00e7as de vacas mortas em postes na cerca que delimita sua propriedade.<\/p>\n<p>Meteorologistas dizem que a seca na regi\u00e3o provavelmente vai se intensificar com as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, o que tornar\u00e1 a \u00e1gua ainda mais escassa.<\/p>\n<p>A \u00e1gua j\u00e1 \u00e9 racionada para uso agr\u00edcola em alguns Estados. Se ainda estiver seco no ano que vem, o Cear\u00e1 poder\u00e1 precisar interromper a irriga\u00e7\u00e3o para economizar \u00e1gua para Fortaleza, cidade de 3 milh\u00f5es de habitantes.<\/p>\n<p>Na Para\u00edba, ainda n\u00e3o come\u00e7aram as obras da se\u00e7\u00e3o final do canal, incluindo um t\u00fanel atrav\u00e9s de uma montanha de granito em Monteiro.<\/p>\n<p>&#8220;Ser\u00e1 que algum dia chegar\u00e1 aqui?&#8221;, pergunta Genildo da Silva, atendente de um posto de gasolina. &#8220;Tenho 49 anos e escutei a vida toda essa hist\u00f3ria da \u00e1gua do S\u00e3o Francisco.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2006, o ent\u00e3o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, nascido no nordeste, historicamente assolado pela seca, levou adiante uma ideia que os sofridos moradores da regi\u00e3o ouviam falar h\u00e1 mais de um s\u00e9culo. 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