{"id":115362,"date":"2016-09-13T08:12:15","date_gmt":"2016-09-13T11:12:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=115362"},"modified":"2016-09-13T08:12:15","modified_gmt":"2016-09-13T11:12:15","slug":"artistas-tentam-domesticar-a-arte-na-bienal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/artistas-tentam-domesticar-a-arte-na-bienal\/","title":{"rendered":"Artistas tentam domesticar a arte na bienal"},"content":{"rendered":"<h6 class=\"Assina\"><strong>Antonio Gon\u00e7alves Filho<\/strong><\/h6>\n<p>Uma bienal chamada Incerteza Viva, como a 32.\u00aa edi\u00e7\u00e3o da mostra, n\u00e3o pode ser avaliada segundo os par\u00e2metros convencionalmente usados para julgar outros eventos do g\u00eanero, at\u00e9 mesmo porque o projeto curatorial, que transformou a bienal numa plataforma do conceito, transferiu aos artistas a tarefa de criar obras experimentais sobre o dilema do homem contempor\u00e2neo diante do colapso ecol\u00f3gico e das ex\u00f3ticas tecnologias associadas ao fim de um ciclo natural. Um dos trabalhos presentes na mostra, ali\u00e1s, trata particularmente do \u00faltimo tema, o da dupla lituana Nomeda &amp; Dediminas Urbonas, que se inspirou nas hist\u00f3rias fant\u00e1sticas de Vermillion Sand (1971), livro de contos do ingl\u00eas J. C Ballard.<\/p>\n<p>Todos esses contos da distopia de Ballard t\u00eam um componente anacr\u00f4nico que se atualiza por meio de bizarras tecnologias: s\u00e3o casas sens\u00edveis \u00e0 presen\u00e7a humana, pinturas que reagem \u00e0 luz, plantas que cantam e esculturas feitas de nuvens. Ballard tinha uma f\u00e9rtil imagina\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, mas \u00e9 dif\u00edcil transpor suas ideias para o campo visual. Prova disso \u00e9 essa instala\u00e7\u00e3o da dupla Nomeda e Dediminas Urbonas. Algumas outras propostas dos 81 artistas e coletivos participantes parecem igualmente interessantes, mas a realiza\u00e7\u00e3o \u00e9 simplesmente prec\u00e1ria. Rudimentar mesmo.<\/p>\n<p>Uma delas, a da paquistanesa Maryam Jafri, que trabalha no territ\u00f3rio da antropologia cultural, re\u00fane produtos industrializados recolhidos do mercado desde 1970, como uma mamadeira para tomar Pepsi-Cola. Obras como essa, que resgatam a arte conceitual do limbo &#8211; Jafri segue os passos de Ed Ruscha &#8211; contestam a l\u00f3gica uniformizadora da ind\u00fastria, a de tratar nossa comida como commodity, mas n\u00e3o acrescentam muito \u00e0 hist\u00f3ria da arte.<\/p>\n<p>A nostalgia de um mundo agr\u00e1rio, ancestral, domina a mostra. Quando tratam do futuro, quase sempre os artistas elegem a distopia como tema, caso da obra Para\u00edso, do ga\u00facho Luiz Roque. Seu v\u00eddeo, ambientado na segunda metade do s\u00e9culo 21, trata de um v\u00edrus transmitido pela saliva de transexuais que amea\u00e7a a humanidade &#8211; o artista, claro, condena a ret\u00f3rica preconceituosa em voga desde o advento da aids nos anos 1980. Em outro trabalho, a instala\u00e7\u00e3o da alem\u00e3 Hito Steyerl, Hell Yeah We Fuck Die (2016), feita de v\u00eddeos sincronizados, rob\u00f4s s\u00e3o agressivamente enxotados da linha de controle de qualidade, for\u00e7ando uma associa\u00e7\u00e3o anal\u00f3gica com o descarte dos humanos na sociedade contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>A articula\u00e7\u00e3o de uma ideia art\u00edstica nunca foi garantia de bons resultados. Ao contr\u00e1rio. Muitas vezes, o aspecto autorreferencial redunda em obras conceituais militantes e datadas, como a do colombiano Carlos Motta ou do norte-americano Lyle Ashton Harris, focadas na quest\u00e3o racial e sexual &#8211; Harris recorre frequentemente \u00e0 fotomontagem e ao travestismo, evocando a ambival\u00eancia sexual na cosmologia africana.<\/p>\n<p>As obras mais interessantes desta bienal escapam dessa pris\u00e3o antropol\u00f3gica. O belga Francis Alys, operando num espa\u00e7o entre a pol\u00edtica e a poesia, mostra pequenas paisagens e desenhos instalados em espelhos que revelam o reverso das obras, integrando o ambiente institucional ao tema da cat\u00e1strofe de sua s\u00e9rie In a Given Situation. Outro destaque da mostra \u00e9 o franc\u00eas Pierre Huyghe e sua s\u00e9rie De-extinction, que apresenta em seu filme imagens gigantescas de insetos presos num fragmento de \u00e2mbar.<\/p>\n<p>Entre os brasileiros, a tend\u00eancia rabelaisiana para o monumental se traduz em v\u00e1rias obras, das torres da mineira Lais Myrrha no v\u00e3o livre do pavilh\u00e3o \u00e0 oca concebida por Ben\u00e9 Fonteles, logo \u00e0 entrada do port\u00e3o principal. Lugar de encontro entre figuras ic\u00f4nicas da arte experimental (Yves Klein, Beuys) e o universo ind\u00edgena, a oca do artista paraense \u00e9 um elegia ao transculturalismo.<\/p>\n<p>O mineiro Jos\u00e9 Bento, ao criar seu Ch\u00e3o com tacos reaproveitados e criar zonas de instabilidade no piso, construiu um playground para crian\u00e7as. N\u00e3o \u00e9 muito. Os tr\u00eas pain\u00e9is de Erika Verzutti s\u00e3o h\u00edbridos entre pintura e escultura com refer\u00eancias \u00e0 arte primitiva, mas filtrados por um olhar contempor\u00e2neo. Enfim, trata-se de uma bienal politicamente correta. T\u00e3o correta que parte do p\u00fablico que circula pelo pavilh\u00e3o julga ser mais uma feira ecol\u00f3gica que uma mostra de arte.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-70065\" src=\"http:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/estadao.png\" alt=\"estadao\" width=\"99\" height=\"16\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antonio Gon\u00e7alves Filho Uma bienal chamada Incerteza Viva, como a 32.\u00aa edi\u00e7\u00e3o da mostra, n\u00e3o pode ser avaliada segundo os par\u00e2metros convencionalmente usados para julgar outros eventos do g\u00eanero, at\u00e9 mesmo porque o projeto curatorial, que transformou a bienal numa plataforma do conceito, transferiu aos artistas a tarefa de criar obras experimentais sobre o dilema [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":115363,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[70],"tags":[],"class_list":["post-115362","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/115362","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=115362"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/115362\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":115364,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/115362\/revisions\/115364"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/115363"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=115362"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=115362"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=115362"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}