{"id":116608,"date":"2016-09-25T17:00:25","date_gmt":"2016-09-25T20:00:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=116608"},"modified":"2016-09-25T17:21:15","modified_gmt":"2016-09-25T20:21:15","slug":"que-pais-e-esse-sujeira-pra-todo-lado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/que-pais-e-esse-sujeira-pra-todo-lado\/","title":{"rendered":"Que pa\u00eds \u00e9 esse? Sujeira pra todo lado&#8230;"},"content":{"rendered":"<p><strong>Carolina Paiva e Nair Assad<\/strong><\/p>\n<p>Numa noite de julho dos idos de 1983, circulando num palco min\u00fasculo do projeto Rock Voador, a bordo de uma camiseta de cor branca e cal\u00e7a jeans, ambos pu\u00eddos, um Renato Russo ainda desconhecido mostrava \u00e0 plateia do Rio de Janeiro, sua cidade natal, a que viera.<\/p>\n<p>Ali, cantando num timbre \u00fanico e balan\u00e7ando-se de modo singular enquanto o p\u00fablico ia \u00e0 loucura com suas letras, Renato come\u00e7ou a cravar seu nome na hist\u00f3ria do rock nacional. De l\u00e1 para c\u00e1 nada mudou.\u00a0<em>Nas favelas\/No Senado\/Sujeira pra todo lado\/Ningu\u00e9m respeita a Constitui\u00e7\u00e3o\/Mas todos acreditam no futuro da na\u00e7\u00e3o<\/em>.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, o cen\u00e1rio musical brasileiro ganharia mais que um cantor talentoso, figura politizada, inteligente, sens\u00edvel e um letrista de m\u00e3o cheia, mas sim um poeta. Algumas de suas conjecturas, por exemplo, traduzem os tempos atuais.<\/p>\n<p>&#8220;Olha, a ignor\u00e2ncia \u00e9 vizinha da maldade. Isso \u00e9 batata. Mas o que acontece no Brasil, eu acho que talvez seja o \u00faltimo est\u00e1gio. Isso vem desde o descobrimento. Para c\u00e1 vieram ladr\u00e3o, louco, preso pol\u00edtico, entendeu? Essa corja est\u00e1 a\u00ed at\u00e9 hoje. O povo, mesmo, est\u00e1 todo mundo ciente disso&#8221;.<\/p>\n<p>Quis o tr\u00e1gico destino que Renato, de sobrenome Manfredini na certid\u00e3o, nascido na madrugada de 27 de mar\u00e7o de 1960, em uma cl\u00ednica do Rio de Janeiro, falecesse em outra madrugada, a de 11 de outubro de 1996, no mesmo Rio que j\u00e1 conhecia e admirava o artista que se tornou uma esp\u00e9cie de mito da m\u00fasica nacional. Um mito vencido por complica\u00e7\u00f5es\u00a0desses v\u00edrus que andam espalhados por a\u00ed.<\/p>\n<p>Renato viveu curtos 36 anos. Tempo suficiente para deixar seu trabalho imortal. Um tempo, por\u00e9m, que contrariou o objetivo do pr\u00f3prio cantor.<\/p>\n<p>&#8220;Vou escrever um livro quando chegar aos 50 anos. No fundo, quero ser imortal&#8221;, contava Renato Russo.<\/p>\n<p>Esse seu lado imortal vingou. Tanto, que o trabalho e a vida dele come\u00e7am a ser revitalizados a partir de outubro. Ser\u00e3o muitas homenagens, como uma exposi\u00e7\u00e3o com as suas rel\u00edquias no Museu da Imagem e do Som, em S\u00e3o Paulo; o lan\u00e7amento de uma caixa especial, pela Universal Music, com toda a obra solo do artista; um musical que estreia 11 de outubro no Rio; lan\u00e7amento do filme &#8220;Eduardo e M\u00f4nica&#8221;; e ainda, a nova edi\u00e7\u00e3o da biografia &#8220;Renato Russo, o filho da revolu\u00e7\u00e3o&#8221; de Carlos Marcelo.<\/p>\n<p>Tudo para recordar e comemorar obra e personalidade 20 anos ap\u00f3s a despedida do letrista, cantor, poeta e ex\u00edmio entendedor do esp\u00edrito brasileiro.<\/p>\n<p>&#8220;O que a gente precisa \u00e9 de dec\u00eancia, sabedoria, comida e trabalho para as pessoas. E foda-se o resto. Eu n\u00e3o falo isso demagogicamente. Eu n\u00e3o preciso mentir, eu nunca menti. Quer dizer, eu j\u00e1 menti aqui e ali, mas n\u00e3o \u00e9 aquela coisa: &#8216;Oh, ele \u00e9 falso&#8230; Ele atira em sua pr\u00f3pria gente para provar que n\u00e3o \u00e9 um deles&#8217;. Isso tudo est\u00e1 voltando, a gente est\u00e1 no fim dos tempos&#8221;.<\/p>\n<p>Frases assim e can\u00e7\u00f5es emblem\u00e1ticas do astro permanecem fortes como o mito constru\u00eddo em torno da figura de um homem de temperamento ansioso e dr\u00e1sticas oscila\u00e7\u00f5es de humor. Um homem que se transformou em uma das pessoas mais emblem\u00e1ticas da hist\u00f3ria da redemocratiza\u00e7\u00e3o brasileira, com suas opini\u00f5es apresentadas em can\u00e7\u00f5es que funcionavam como feixes de p\u00f3lvora, ateando fogo em um Brasil que tentava domar o drag\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o e que respirava por vida.<\/p>\n<p>\u201cEu prefiro falar numa linguagem simples, mas dizendo coisas que realmente me s\u00e3o caras, preciosas, tipo: &#8216;Disseste que se tua voz fosse igual \u00e0 imensa dor que sentes, teu grito acordaria n\u00e3o s\u00f3 a tua casa, mas a vizinhan\u00e7a inteira&#8217;. Isso poderia ter sido escrito h\u00e1 dois mil anos, como pode ter sido escrito agora. Daqui a dois mil anos, ainda vai existir vizinhan\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>Com pensamentos assim, n\u00e3o por acaso, Renato continua a atear fogo na cena musical e pol\u00edtica brasileira ao longo dos \u00faltimos 20 anos, mesmo sem a sua presen\u00e7a f\u00edsica.<\/p>\n<p><em>Que Pa\u00eds \u00c9 Esse?<\/em>, composta quando Renato Russo tinha apenas 15 anos, por exemplo, se tornou grito de guerra nas recentes manifesta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas espalhadas pelas ruas de todo o pa\u00eds. Facetas de quem nasceu para nunca ser esquecido.\u00a0<em>[&#8230;] Brasil vai ficar rico\/Vamos faturar um milh\u00e3o\/Quando vendermos todas as almas\/Dos nossos \u00edndios num leil\u00e3o<\/em>.<\/p>\n<p>\u201cNo fundo, quero ser imortal&#8221;, ele dizia.<\/p>\n<p>E voc\u00ea \u00e9, Renato.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carolina Paiva e Nair Assad Numa noite de julho dos idos de 1983, circulando num palco min\u00fasculo do projeto Rock Voador, a bordo de uma camiseta de cor branca e cal\u00e7a jeans, ambos pu\u00eddos, um Renato Russo ainda desconhecido mostrava \u00e0 plateia do Rio de Janeiro, sua cidade natal, a que viera. 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