{"id":117524,"date":"2016-10-04T06:07:43","date_gmt":"2016-10-04T09:07:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=117524"},"modified":"2016-10-04T09:37:37","modified_gmt":"2016-10-04T12:37:37","slug":"belchior-sabe-se-la-por-onde-anda-ganha-tres-caixas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/belchior-sabe-se-la-por-onde-anda-ganha-tres-caixas\/","title":{"rendered":"Belchior, sabe-se l\u00e1 por onde anda, ganha tr\u00eas caixas"},"content":{"rendered":"<p><strong>Julio Maria<\/strong><\/p>\n<p>Antes de imaginar que se tornaria um refugiado de si mesmo, um fugitivo do passado, Belchior j\u00e1 dizia que as coisas n\u00e3o iam bem. Havia dor no jovem de 29 anos mesmo depois de ser cantado e incensado por Elis Regina em Como Nossos Pais e Velha Roupa Colorida; mesmo depois de assinar contrato com a cultuada gravadora Philips, de Andre Midani; mesmo sabendo que, naquele ano de 1976, entrava em est\u00fadio para fazer Alucina\u00e7\u00e3o como quem coloca uma bala de prata no rev\u00f3lver.<\/p>\n<p>Enquanto permanece em destino desconhecido, distante dos palcos, dos amigos e da fam\u00edlia, Belchior tem tr\u00eas discos relan\u00e7ados em uma caixa pela Universal Music, um projeto com curadoria, textos e pesquisa do jornalista Renato Vieira, rep\u00f3rter do jornal O Estado de S.Paulo. Tr\u00eas Tons de Belchior traz os \u00e1lbuns Alucina\u00e7\u00e3o, de 1976, considerado sua cria\u00e7\u00e3o mais importante e um dos mais relevantes discos da m\u00fasica brasileira; Melodrama, de 1987; e Elogio da Loucura, de 1988 &#8211; estes lan\u00e7ados em CD pela primeira vez.<\/p>\n<p>Mais do que resenhar os \u00e1lbuns, Vieira foi aos arquivos e entrevistou personagens para textos do encarte, tra\u00e7ando entendimentos fora de lugares comuns. &#8220;Eu tenho a impress\u00e3o de que Belchior sabia que Alucina\u00e7\u00e3o seria sua \u00faltima chance de dar certo&#8221;, conclui, depois de contextualizar: &#8220;Ele tinha vencido o Festival da Tupi em 1971 com Na Hora do Almo\u00e7o e gravou um compacto em 1974 que n\u00e3o aconteceu, pelo selo Chantecler.&#8221; Foi ent\u00e3o que Elis Regina gravou Como Nossos Pais e Velha Roupa Colorida e tudo come\u00e7ou a mudar. As m\u00fasicas foram parar no disco Alucina\u00e7\u00e3o, dentre Apenas Um Rapaz Latino Americano, A Palo Seco, Fotografia 3X4, Sujeito de Sorte, Antes do Fim.<\/p>\n<p>O disco significava n\u00e3o s\u00f3 a grande aposta de Belchior, que sabia que aquele bonde n\u00e3o passaria duas vezes, como uma quest\u00e3o de honra ao produtor Marco Mazzola, que remou contra a mar\u00e9 para emplacar o cearense. Quando levou as m\u00fasicas \u00e0 reuni\u00e3o da gravadora em uma fita cassete, quase ningu\u00e9m vibrou. &#8220;Ningu\u00e9m entendeu muito aquele som&#8221;, diz Vieira. Mazzola sugeriu um incomum contrato de apenas um disco. Um \u00fanico tiro. Era acertar ou desistir. Belchior, protegido por um dos melhores agrupamentos que havia nos est\u00fadios da \u00e9poca (os arranjos eram de Jos\u00e9 Roberto Bertrami, do grupo Azymuth), acertou.<\/p>\n<p>Belchior arranca sua poesia usando o estranhamento dos olhos de um estrangeiro. &#8220;Ele fez esses discos como se pintasse quadros. Tudo tinha um conceito&#8221;, diz Vieira. Sua obra, uma grande cr\u00f4nica urbana que narra a saga do brasileiro do interior chegando \u00e0 cidade grande e expondo-se aos traumas do ultraconsumismo, n\u00e3o poderia ser interpretada por mais ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>O pulo hist\u00f3rico que sai de 1976 para 1987 e 1988, anos dos dois \u00e1lbuns seguintes, lan\u00e7ados pela PolyGram, mostra que o homem muda na forma, n\u00e3o o conte\u00fado. Melodrama e Elogio da Loucura est\u00e3o posicionados na segunda metade da d\u00e9cada do deslumbre pela &#8220;est\u00e9tica FM&#8221;, dos teclados e ecos de est\u00fadio. Assim definiu o pr\u00f3prio Belchior em declara\u00e7\u00e3o ao Jornal do Brasil, recuperada pelo curador: &#8220;O trabalho atual (Melodroma) tem rela\u00e7\u00e3o estreita com Alucina\u00e7\u00e3o. \u00c9 a continuidade, a retomada de uma emo\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica. Na d\u00e9cada passada, a gente tendia mais para o \u00eaxtase, agora inclina-se mais para o horror&#8221;.<\/p>\n<p>Belchior segue em seu inconformismo, indignado com o valor que o dinheiro ganha na vida moderna. A m\u00fasica Dandy, de Melodrama, refor\u00e7a essa ideia: &#8220;Mam\u00e3e, quando eu crescer \/ eu quero ser rebelde \/ se conseguir licen\u00e7a \/ do meu broto e do patr\u00e3o \/ Um Gandhi Dandy, um grande \/ milion\u00e1rio socialista \/ de carr\u00e3o chego mais r\u00e1pido \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o&#8221;. O consumismo desenfreado, que j\u00e1 havia sido combust\u00edvel em 1976, vira um alvo cada vez mais almejado. At\u00e9 que, no t\u00e9rmino do \u00e1lbum Elogio da Loucura, Belchior declama, prof\u00e9tico de si mesmo, o texto da can\u00e7\u00e3o Arte Final: &#8220;Ora, senhoras! Ora, senhores! \/ Uma boa noite lustrada de neon pra voc\u00eas \/ E o \u00faltimo a sair apague a luz do aeroporto \/ E ainda que mal me pergunte: \u2018A sa\u00edda ser\u00e1 mesmo o aeroporto?\u2019&#8221;.<\/p>\n<p>BELCHIOR<br \/>\nTR\u00caS TONS DE BELCHIOR<br \/>\nUNIVERSAL MUSIC \/ PRE\u00c7O M\u00c9DIO: R$ 50<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Julio Maria Antes de imaginar que se tornaria um refugiado de si mesmo, um fugitivo do passado, Belchior j\u00e1 dizia que as coisas n\u00e3o iam bem. 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