{"id":117893,"date":"2016-10-08T07:29:14","date_gmt":"2016-10-08T10:29:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=117893"},"modified":"2016-10-08T07:29:14","modified_gmt":"2016-10-08T10:29:14","slug":"o-congresso-manda-e-bethlem-prestou-continencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/o-congresso-manda-e-bethlem-prestou-continencia\/","title":{"rendered":"O Congresso manda. E Bethlem prestou contin\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jos\u00e9 Escarlate<\/strong><\/p>\n<p>E n\u00f3s, mais uma vez, isolados e s\u00f3 t\u00ednhamos como armas de defesa telefones, caneta e uma m\u00e1quina de escrever. \u00c9ramos um monte de rep\u00f3rteres tensos. Temendo o desfecho da coisa. Segundo soubemos no nosso isolamento, Sylvio Frota voltou para o Forte Apache e, l\u00e1, em conversa com generais amigos seus, recebeu sugest\u00f5es para resistir, mas sentiu que j\u00e1 era tarde.<\/p>\n<p>A maior parte dos generais quatro estrelas que compunham o Alto Comando j\u00e1 estava com Geisel, hipotecando-lhe solidariedade. Por outro lado, sab\u00edamos que o general Fran\u00e7a Domingues, casado com uma sobrinha de Geisel, filha do general Orlando Geisel, havia assumido na marra o Comando Militar do Planalto, enquanto que o titular permanecia dando apoio a Frota, no Forte Apache.<\/p>\n<p>Para n\u00f3s, as not\u00edcias vinham em conta gotas pelos telefones que t\u00ednhamos. Um deles, o da Ag\u00eancia Nacional, um magneto ponto a ponto, ainda com manivela. Por ele falava direto com Bras\u00edlia e o Rio, sede da Ag\u00eancia. No QG do Ex\u00e9rcito, estava o Palmeira, que cobria \u00e1rea militar para a Ag\u00eancia e que conhecia meio Ex\u00e9rcito. No outro telefone, o excelente rep\u00f3rter Roberto Contreiras, do Globo, que conhecia a outra metade. Nosso trabalho no pal\u00e1cio era de paci\u00eancia, fazendo a triagem do que chegava. Procur\u00e1vamos manter a trincheira, de olho vivo a uma poss\u00edvel invas\u00e3o do pal\u00e1cio por tanques e soldados.<\/p>\n<p>Anos mais tarde, em seu livro de mem\u00f3rias \u201cTudo a declarar\u201d, o ex-ministro Armando Falc\u00e3o comentou que o Pal\u00e1cio do Planalto n\u00e3o tem seguran\u00e7a alguma. N\u00e3o passa de uma descomunal gaiola de vidro. Uma cristaleira. E assinalava: \u201cMeia d\u00fazia de granadas certeiras arrasam essa imensa vitrina em menos de cinco minutos\u201d. E, amargo como sempre, detonava: \u201cEsse edif\u00edcio s\u00f3 serve mesmo para propaganda em cart\u00e3o postal\u201d.<\/p>\n<p>Passava das duas da tarde quando chegou informa\u00e7\u00e3o de que o presidente Ernesto Geisel havia se definido pelo nome do general Fernando Belfort Bethlem, comandante do Terceiro Ex\u00e9rcito, sediado no sul do pa\u00eds, depois de ouvidos os membros do Alto Comando, fi\u00e9is a ele.<\/p>\n<p>O general Bethlem, por conta do feriado, n\u00e3o sabia de nada. Estava flanando pelas praias do Rio, \u00e0 paisana, onde morava sua filha, a atriz global Maria Zilda. Convocado pelo presidente, Bethlen embarcou assim mesmo para Bras\u00edlia, mandando buscar sua farda em Porto Alegre.<\/p>\n<p>A coisa s\u00f3 acalmou quando, no in\u00edcio da noite, Frota passou o cargo ao general Bethlem, j\u00e1 devidamente fardado. Eram 18h30 quando ocorreu a mais r\u00e1pida transmiss\u00e3o de cargo de um ministro de Estado, na hist\u00f3ria do Ex\u00e9rcito Brasileiro. A cerim\u00f4nia foi simples, curta, grossa e bastante tensa.<\/p>\n<p>\u201cEntrego o cargo de ministro do Ex\u00e9rcito ao Excelent\u00edssimo Senhor General Fernando Belfort Bethlem \u2013 disse Frota.<\/p>\n<p>\u201cAssumo o cargo de ministro do Ex\u00e9rcito\u201d \u2013 respondeu Bethlem.<\/p>\n<p>A cerim\u00f4nia, que pela tradi\u00e7\u00e3o era festiva, estava encerrada. N\u00e3o houve palmas, nem choro e nem velas.<\/p>\n<p>S\u00edlvio Frota foi para sua casa, na Pen\u00ednsula dos Ministros, onde havia um caminh\u00e3o da Fink retirando a mudan\u00e7a. No in\u00edcio da noite ele seguia com a esposa para sua casa do Graja\u00fa, no Rio.Tempos depois, falando sobre a queda de S\u00edlvio Frota, Humberto Barreto foi mais incisivo: \u201cA linha-dura do Ex\u00e9rcito entendia que o presidente era um preposto dela. Na demiss\u00e3o do Frota, se as coisa n\u00e3o tivessem sido feitas com intelig\u00eancia, o presidente teria sido deposto\u201d-, afirmou.<\/p>\n<p>Na posse do general Bethlem como ministro do Ex\u00e9rcito, no Pal\u00e1cio do Planalto, ocorreu fato inusitado. A cerim\u00f4nia foi sem pompas. R\u00e1pida e discreta. Poucos convidados, entre eles os presidentes da C\u00e2mara Federal, Marco Ant\u00f4nio Maciel, e do Senado, Petr\u00f4nio Portela. Ap\u00f3s a assinatura do termo de posse, o Cerimonial organizou a fila de cumprimentos.<\/p>\n<p>Petr\u00f4nio e Maciel \u00e0 direita de Geisel. Ao final dos cumprimentos, os dois parlamentares fizeram men\u00e7\u00e3o de entrar na fila. Com um gesto discreto, o presidente disse a ambos: \u201cFiquem a\u00ed\u201d. Geisel ent\u00e3o, dirigindo-se ao novo ministro, lhe diz: \u201cAgora, apresente contin\u00eancia a Poder Legislativo\u201d. Bethlen, cruzou \u00e0 frente de Geisel e prestou contin\u00eancia aos dois parlamentares, proferindo as palavras usuais no caso.<\/p>\n<p>Pouca gente entendeu, mas o presidente estava, naquele momento, fazendo o Ex\u00e9rcito prestar obedi\u00eancia ao Congresso Nacional. Nesse momento, Ernesto Geisel isolava o grupo de militares contr\u00e1rio ao processo de abertura pol\u00edtica.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-83053\" src=\"http:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/PV.png\" alt=\"PV\" width=\"122\" height=\"26\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Escarlate E n\u00f3s, mais uma vez, isolados e s\u00f3 t\u00ednhamos como armas de defesa telefones, caneta e uma m\u00e1quina de escrever. \u00c9ramos um monte de rep\u00f3rteres tensos. Temendo o desfecho da coisa. 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