{"id":117902,"date":"2016-10-08T07:57:37","date_gmt":"2016-10-08T10:57:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=117902"},"modified":"2016-10-08T10:44:41","modified_gmt":"2016-10-08T13:44:41","slug":"mia-couto-reinventa-o-passado-em-nova-obra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/mia-couto-reinventa-o-passado-em-nova-obra\/","title":{"rendered":"Mia Couto reinventa o passado em nova obra"},"content":{"rendered":"<p><strong>Ubiratan Brasil<\/strong><\/p>\n<p>Borboletas brilhantes tingiam de luz o rio durante a noite escura. &#8220;S\u00e3o as sombras da \u00e1gua&#8221;, diz um personagem do segundo livro da trilogia As Areias do Imperador, chamado justamente de Sombras da \u00c1gua, em que o escritor mo\u00e7ambicano Mia Couto retoma a hist\u00f3ria de amor entre a jovem africana Imani e o sargento portugu\u00eas Germano de Melo.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria se passa no fim do s\u00e9culo 19, quando Mo\u00e7ambique est\u00e1 em guerra e o sul do pa\u00eds era governado por Ngungunyane, \u00faltimo l\u00edder do Estado de Gaza, o segundo maior imp\u00e9rio da \u00c1frica dirigido por um africano. Sobre a obra, Couto respondeu por e-mail \u00e0s seguintes quest\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Sua escrita sempre \u00e9 marcada pela poesia na prosa. Como funciona o efeito po\u00e9tico em uma obra polif\u00f4nica como essa?<\/strong><\/p>\n<p>A poesia \u00e9 um modo de abrir portas a essa multid\u00e3o que foi sendo silenciada dentro de cada um de n\u00f3s. Fomos perdendo o acesso a essa alteridade, mas a vida insiste em construir em cada um de n\u00f3s uma identidade m\u00faltipla. O que quer dizer que o trabalho do escritor se cruza em duas dire\u00e7\u00f5es aparentemente contradit\u00f3rias: por um lado, \u00e9 imperioso que ele encontre a sua pr\u00f3pria voz (que deve ser \u00fanica e singular). Por outro lado, essa voz deve dar vaz\u00e3o \u00e0 multitude de vozes que moram dentro de n\u00f3s. No meu caso, tenho o privil\u00e9gio de ter nascido e viver em um pa\u00eds que \u00e9 uma na\u00e7\u00e3o onde vivem muitas na\u00e7\u00f5es. Todas elas pedem para ser faladas, lembradas e cantadas. Em qualquer lugar do mundo, a obra de arte \u00e9 sempre polif\u00f4nica. Mas, no caso de Mo\u00e7ambique, essa pluralidade \u00e9 uma marca claramente vincada.<\/p>\n<p><strong>O colonizador portugu\u00eas \u00e9 mostrado de formas diferentes neste segundo volume, com Germano e Ayres de Ornelas. Por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>Pareceu-me que era preciso sublinhar que n\u00e3o existiu uma categoria chamada &#8220;o colonizador&#8221; ou &#8220;os portugueses&#8221;. Neste segundo volume, criei um di\u00e1logo entre dois militares para mostrar que, do lado do colonizador, ocorriam vis\u00f5es d\u00edspares e em conflito. E n\u00e3o apenas distintas vis\u00f5es, mas olhares particulares. Por raz\u00f5es da sua paix\u00e3o por uma mulher negra e africana, o personagem do sargento vai-se afirmando como uma figura singular e em confronto com o seu mandato de militar europeu.<\/p>\n<p><strong>A captura de Ngungunyane significa a fragilidade de um povo?<\/strong><\/p>\n<p>Foi uma vit\u00f3ria colonial e uma derrota para a soberania dos africanos. Mas, uma vez mais, esse imperador africano que tanto perturbava o dom\u00ednio portugu\u00eas era um peso fatal para algumas das etnias que ele subjugava. Existiam diversas fragilidades que aqui se conjugam: a de diferentes \u00c1fricas, mas tamb\u00e9m ironicamente a dos pr\u00f3prios portugueses que derrotaram militarmente esse poderia militar que lhe fazia frente no sul de Mo\u00e7ambique. Mas eram vencedores com vit\u00f3ria hipotecada. Porque era uma vit\u00f3ria apressada, sujeita a uma enorme encena\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica, para que os ingleses vissem que Portugal merecia um fatia desse apetitoso bolo que era o territ\u00f3rio africano.<\/p>\n<p><strong>A trilogia trata de uma figura que foi mitificada tanto pelos portugueses como pelos africanos. Como descrever essa figura sem privilegiar um dos lados?<\/strong><\/p>\n<p>Tive que contrariar a facilidade de ir buscar inspira\u00e7\u00e3o apenas nos documentos escritos, que foram todos eles deixados pelos portugueses. Visitei profusamente os territ\u00f3rios de Inhambane e Gaza, no sul de Mo\u00e7ambique, para recolher depoimentos orais que preservam a lembran\u00e7a desse conturbado per\u00edodo. No ano passado, passei tr\u00eas semanas na ilha dos A\u00e7ores, lugar onde foi exilado e acabou por morrer o imperador e tr\u00eas dignit\u00e1rios da sua corte. Ali, nessas terras lusas, esses quatro africanos penaram, mas tamb\u00e9m amaram e fizeram filhos. Hoje, h\u00e1 descendentes desses africanos em territ\u00f3rio portugu\u00eas, gente mesti\u00e7a, mas de nacionalidade portuguesa.<\/p>\n<p><strong>N\u00f3s somos muito aquilo que j\u00e1 fomos, voc\u00ea disse certa vez. Como saber disso a partir de vers\u00f5es provavelmente distorcidas?<\/strong><\/p>\n<p>As vers\u00f5es do passado n\u00e3o t\u00eam sempre que ser interrogadas do ponto de vista da veracidade. Quase sempre elas s\u00e3o reinventadas Sucede o mesmo quando revisitamos um sonho. O seu relato nunca \u00e9 fiel. Porque o relato de um sonho pedia um idioma inventado. A \u00fanica solu\u00e7\u00e3o \u00e9 aceitarmos que cada um de n\u00f3s somos muitos. E somos assim m\u00faltiplos no presente porque, no passado, fomos sempre v\u00e1rios. O poeta mo\u00e7ambicano dizia: eu n\u00e3o sou dividido; sou repartido.<\/p>\n<p><strong>SOMBRAS DA \u00c1GUA<\/strong><br \/>\nAutor: Mia Couto<br \/>\nEditora: Companhia das Letras<br \/>\n392 p\u00e1gs., R$ 44,90 papel, R$ 30,90 e-book<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ubiratan Brasil Borboletas brilhantes tingiam de luz o rio durante a noite escura. &#8220;S\u00e3o as sombras da \u00e1gua&#8221;, diz um personagem do segundo livro da trilogia As Areias do Imperador, chamado justamente de Sombras da \u00c1gua, em que o escritor mo\u00e7ambicano Mia Couto retoma a hist\u00f3ria de amor entre a jovem africana Imani e o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":117903,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[70],"tags":[],"class_list":["post-117902","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/117902","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=117902"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/117902\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":117947,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/117902\/revisions\/117947"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/117903"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=117902"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=117902"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=117902"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}