{"id":118452,"date":"2016-10-14T07:09:52","date_gmt":"2016-10-14T10:09:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=118452"},"modified":"2016-10-14T07:10:35","modified_gmt":"2016-10-14T10:10:35","slug":"nova-estimativa-aponta-2-trilhoes-de-galaxias-la-em-cima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/nova-estimativa-aponta-2-trilhoes-de-galaxias-la-em-cima\/","title":{"rendered":"Nova estimativa aponta 2 trilh\u00f5es de gal\u00e1xias"},"content":{"rendered":"<p><strong>Salvador Nogueira<\/strong><\/p>\n<p>O ancestral debate acerca de com quantos paus se faz uma jangada permanece sem resposta definitiva. Mas um novo estudo parece abordar com alguma convic\u00e7\u00e3o uma quest\u00e3o ainda mais dif\u00edcil: com quantas gal\u00e1xias se faz o Universo observ\u00e1vel?<\/p>\n<p>A resposta, de acordo com a equipe de Christopher Conselice, da Universidade de Nottingham, no Reino Unido, gira em torno de 2 trilh\u00f5es. O n\u00famero est\u00e1 alinhado com simula\u00e7\u00f5es de computador recentes realizadas por cientistas para estudar a evolu\u00e7\u00e3o do cosmos desde o Big Bang, h\u00e1 13,8 bilh\u00f5es de anos, mas \u00e9 pelo menos dez vezes maior do que aparece nas imagens mais profundas que fazemos do espa\u00e7o.<\/p>\n<p>O resultado ajuda a explicar por que os astr\u00f4nomos est\u00e3o constantemente batendo o recorde da gal\u00e1xia mais distante e d\u00e1 uma pista bastante boa de como esses grandes agregados de estrelas surgiram e evolu\u00edram com o passar do tempo.<\/p>\n<p>O trabalho, aceito para publica\u00e7\u00e3o no \u201cAstrophysical Journal\u201d, lan\u00e7ou m\u00e3o de diversas campanhas de observa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o, dentre elas as hist\u00f3ricas sondagens de campo profundo realizadas pelo Telesc\u00f3pio Espacial Hubble em 1996 e em 2006.<\/p>\n<p>Essa hist\u00f3ria, ali\u00e1s, merece ser relembrada. Nos anos 1990, a comunidade astron\u00f4mica estava em polvorosa com os resultados extraordin\u00e1rios obtidos pelo Hubble. Cada grupo de pesquisa disputava a tapa tempo de observa\u00e7\u00e3o do telesc\u00f3pio, com a escolha criteriosa de alvos que trouxessem o melhor resultado cient\u00edfico. E, em meio a tudo isso, o astr\u00f4nomo Robert Williams lan\u00e7ou uma ideia inusitada: e se apontarmos o Hubble longamente para uma regi\u00e3o do espa\u00e7o onde parece n\u00e3o haver *nada*?<\/p>\n<p>Era uma aposta ousad\u00edssima. Mas Williams tinha uma carta na manga: ele era o diretor do STScI (Instituto de Ci\u00eancia do Telesc\u00f3pio Espacial), \u00f3rg\u00e3o respons\u00e1vel pela administra\u00e7\u00e3o do venerado sat\u00e9lite da Nasa e da ESA, e com isso tinha uma certa liberdade para alocar tempo pessoalmente para projetos que julgasse merit\u00f3rios.<\/p>\n<p>E assim nasceu a primeira imagem de campo profundo do Hubble: naquele pedacinho de espa\u00e7o onde parecia n\u00e3o haver nada, o telesc\u00f3pio espacial encontrou milhares de gal\u00e1xias, a dist\u00e2ncias abissais da Terra. Essa se tornou nossa primeira tentativa s\u00e9ria de chegar ao limite do Universo observ\u00e1vel.<\/p>\n<p>Aproveitando a deixa: Universo observ\u00e1vel. Por que essa palavrinha a\u00ed? Por que n\u00e3o simplesmente \u201cUniverso\u201d? Tem uma diferen\u00e7a entre um e outro e ela \u00e9 bem significativa. Sabemos que o Universo hoje tem 13,8 bilh\u00f5es de anos, e tamb\u00e9m sabemos que a velocidade da luz no v\u00e1cuo \u00e9 de 300 mil km\/s \u2014 alta, mas ainda assim bastante modesta se comparada \u00e0s enormes dist\u00e2ncias c\u00f3smicas.<\/p>\n<p>Juntando essas duas coisas, chegamos \u00e0 inescap\u00e1vel conclus\u00e3o de que n\u00e3o podemos, no presente momento, observar o Universo inteiro. Estamos limitados apenas aos objetos cuja luz teve tempo para chegar at\u00e9 n\u00f3s. O nosso Universo observ\u00e1vel, no momento, tem um di\u00e2metro de cerca de 90 bilh\u00f5es de anos-luz.<\/p>\n<p>\u201cEi, ei, ei, pera\u00ed\u201d, diz o leitor atento. \u201cSe a luz s\u00f3 teve 13,8 bilh\u00f5es de anos para viajar desde o Big Bang at\u00e9 o presente momento, como podemos enxergar algo que esteja a 45 bilh\u00f5es de anos-luz?\u201d<\/p>\n<p>Pergunta perspicaz. Mas lembre-se de que o Universo est\u00e1 em expans\u00e3o desde o Big Bang, o que significa que a dist\u00e2ncia entre o objeto observado e n\u00f3s aumentou significativamente desde que a luz saiu dele e come\u00e7ou sua viagem em nossa dire\u00e7\u00e3o. Naquela \u00e9poca, a dist\u00e2ncia era menor.<\/p>\n<p>Com efeito, conforme a luz atravessa o espa\u00e7o que est\u00e1 literalmente se esticando, seu comprimento de onda \u00e9 esticado. Por isso, gal\u00e1xias mais distantes s\u00e3o mais bem observadas no infravermelho do que em luz vis\u00edvel \u2014 aqueles f\u00f3tons eram vis\u00edveis quando sa\u00edram de l\u00e1, mas tiveram seu comprimento de onda alterado para infravermelho durante a viagem.<\/p>\n<p>(Esse, por sinal, \u00e9 o principal m\u00e9todo para estimar a dist\u00e2ncia at\u00e9 essas gal\u00e1xias \u2014 medindo o quanto o comprimento de onda da luz se esticou, sabemos por quanto espa\u00e7o em expans\u00e3o ela teve de passar.)<\/p>\n<p>Legal, fizemos um belo desvio, mas voltemos agora \u00e0 pesquisa de Conselice e seus colegas. Eles pegaram essas diversas sondagens do espa\u00e7o profundo, com sua contagem de gal\u00e1xias, e constru\u00edram uma fun\u00e7\u00e3o matem\u00e1tica que descreve a distribui\u00e7\u00e3o de gal\u00e1xias em raz\u00e3o da dist\u00e2ncia que est\u00e3o de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Descobriram ent\u00e3o o Universo profundo tem muito mais gal\u00e1xias do que as nossas redondezas. Em contrapartida, elas s\u00e3o bem menores do que as que temos por aqui. E isso \u00e9 exatamente o que eles esperavam.<\/p>\n<p>Por qu\u00ea? Como a velocidade da luz \u00e9 limitada, quando olhamos para longe, estamos olhando para o passado. E os modelos consagrados de forma\u00e7\u00e3o de gal\u00e1xias espirais de porte respeit\u00e1vel, como a nossa Via L\u00e1ctea, sugerem que elas s\u00e3o feitas a partir da fus\u00e3o de gal\u00e1xias menores, ao longo de bilh\u00f5es de anos.<\/p>\n<p>O fato de que, nas profundezas do Universo observ\u00e1vel, h\u00e1 maior densidade na distribui\u00e7\u00e3o das gal\u00e1xias e elas costumam ser bem menores confirma tudo que sabemos sobre a evolu\u00e7\u00e3o do cosmos nos \u00faltimos 13,8 bilh\u00f5es de anos.<\/p>\n<p>(Por ironia do destino, um mist\u00e9rio ainda a ser totalmente elucidado diz respeito ao fato de que observamos uma quantidade menor de gal\u00e1xias na \u00e9poca atual do que a prevista pelos modelos. Mas, no que diz respeito ao passado remoto, teoria e pr\u00e1tica se encontram lindamente.)<\/p>\n<p>O fato de que h\u00e1 2 trilh\u00f5es de gal\u00e1xias com massa equivalente a pelo menos 1 milh\u00e3o de s\u00f3is no Universo observ\u00e1vel \u00e9 bastante empolgante: revela que muitas descobertas devem advir da pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o de telesc\u00f3pios em solo e no espa\u00e7o, como o GMT (Giant Magellan Telescope), o E-ELT (European Extremely Large Telescope) e o Telesc\u00f3pio Espacial James Webb.<\/p>\n<p>Agora, n\u00e3o saia por a\u00ed dizendo que o Universo hoje tem 2 trilh\u00f5es de gal\u00e1xias \u2014 esse n\u00famero a essa altura deve ser menor. Lembre-se de que s\u00f3 temos o potencial para ver todas essas porque, quando olhamos para longe, estamos enxergando o passado. A essa altura, l\u00e1 nos cafund\u00f3s do espa\u00e7o observ\u00e1vel, todas as pequenas gal\u00e1xias que teremos a chance de ver com os novos telesc\u00f3pios, e cuja luz ter\u00e1 13 bilh\u00f5es de anos de idade, j\u00e1 se fundiram para formar outras de maior porte, mas menos numerosas.<\/p>\n<p>O Universo tem um jeito estranho de se revelar a n\u00f3s: ele permite que enxerguemos todas as \u00e9pocas, funcionando como uma literal m\u00e1quina do tempo para os astr\u00f4nomos. Mas imp\u00f5e com isso tamb\u00e9m uma limita\u00e7\u00e3o: jamais poderemos saber o que aconteceu com essas gal\u00e1xias bilh\u00f5es de anos depois que sua luz iniciou a jornada at\u00e9 aqui.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Salvador Nogueira O ancestral debate acerca de com quantos paus se faz uma jangada permanece sem resposta definitiva. 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