{"id":119510,"date":"2016-10-23T12:42:18","date_gmt":"2016-10-23T14:42:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=119510"},"modified":"2016-10-23T12:42:18","modified_gmt":"2016-10-23T14:42:18","slug":"salgado-mostra-fotos-de-um-deserto-em-chamas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/salgado-mostra-fotos-de-um-deserto-em-chamas\/","title":{"rendered":"Salgado mostra fotos de um deserto em chamas"},"content":{"rendered":"<h6 class=\"Assina\"><strong>Ubiratan Brasil<\/strong><\/h6>\n<p>&#8220;Parecia que o fim estava pr\u00f3ximo&#8221;, escreve o fot\u00f3grafo Sebasti\u00e3o Salgado no pref\u00e1cio do livro Kuwait, Um Deserto em Chamas (Taschen), que ser\u00e1 lan\u00e7ando na ter\u00e7a-feira, 25, para convidados, na Galeria Mario Cohen, mesmo local onde abre uma exposi\u00e7\u00e3o de 16 fotos in\u00e9ditas, registradas entre o come\u00e7o de agosto de 1990 e o fim de fevereiro de 1991, durante um dos maiores desastres n\u00e3o naturais do mundo ocorrido no deserto kuwaitiano.<\/p>\n<p>&#8220;Com o sol obliterado pela fuma\u00e7a escura, uma paisagem dantesca se estendia at\u00e9 onde a vista alcan\u00e7ava&#8221;, continua o fot\u00f3grafo. &#8220;O pr\u00f3prio horizonte estava marcado por tochas de fogo onde o petr\u00f3leo ardente jorrava do deserto sem vida. E por toda parte, grossas torres de petr\u00f3leo bruto eram projetadas ao c\u00e9u antes de ca\u00edrem de volta \u00e0 terra e formarem lagos negros de consist\u00eancia melosa que poderiam se transformar em inc\u00eandios gigantescos num piscar de olhos. E ainda havia o barulho, um estrondo ensurdecedor que aumentava \u00e0 medida que eu me aproximava da fonte do cataclismo: centenas de po\u00e7os de petr\u00f3leo sabotados e incendiados pelo ex\u00e9rcito iraquiano pr\u00f3ximo ao fim de sua ocupa\u00e7\u00e3o no Kuwait.&#8221;<\/p>\n<p>Salgado estava na Venezuela fotografando justamente a ind\u00fastria petroleira do pa\u00eds quando soube que os campos do Kuwait estavam em chamas &#8211; com o avan\u00e7o da coaliz\u00e3o militar internacional (comandada pelos Estados Unidos) avan\u00e7ando sobre o territ\u00f3rio kuwaitiano, soldados iraquianos, na fuga, destru\u00edram mais de 600 po\u00e7os, deixados em chamas ou jorrando intermitentemente. &#8220;Percebi que ali estava a grande mat\u00e9ria &#8211; n\u00e3o me interessei em registrar a Guerra do Golfo, como faziam os outros jornalistas&#8221;, conta o fot\u00f3grafo \u00e0 reportagem, em entrevista por telefone desde Paris.<\/p>\n<p>&#8220;Liguei para Kathy Ryan, editora de fotografia da The New York Times Magazine, e propus, entusiasmado, minha ideia de cobertura Ela n\u00e3o ficou muito animada, ent\u00e3o falei com o editor da revista, Warren Hoge, que foi correspondente no Brasil, e ele aceitou.&#8221;<\/p>\n<p>Antes de iniciar o trabalho, o fot\u00f3grafo precisou esperar algumas semanas, per\u00edodo em que o ex\u00e9rcito de Saddam Hussein deixava a regi\u00e3o ao mesmo tempo em que as empresas (americanas e canadenses, em sua maioria) solicitadas para extinguir o inc\u00eandio reuniam suas equipes.<\/p>\n<p>Em abril de 1990, Salgado chegou \u00e0 fronteira entre a Ar\u00e1bia Saudita e o Kuwait e, depois de uma impaciente espera pela permiss\u00e3o para seguir adiante, finalmente conseguiu viajar, em um 4 X 4 alugado rumo \u00e0s densas nuvens de fuma\u00e7a preta. Mesmo com toda sua experi\u00eancia, ele logo descobriu que n\u00e3o estava preparado para a situa\u00e7\u00e3o que iria encontrar. &#8220;Grupos de dez homens com a pele totalmente enegrecida pelo petr\u00f3leo, rapazes da ro\u00e7a, vindos do interior dos Estados Unidos e Canad\u00e1, que entendiam de campos petrol\u00edferos e que sabiam como combater o fogo&#8221;, relembra ele, diante de n\u00e3o mais que 15 equipes lutando contra cerca de 600 po\u00e7os em chamas. &#8220;O barulho era t\u00e3o alto que eles s\u00f3 se comunicavam gritando nos ouvidos uns dos outros.&#8221;<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio era dantesco, pois, mesmo depois que o fogo era controlado, os po\u00e7os continuavam lan\u00e7ando petr\u00f3leo ao ar, chegando a atingir 12 metros de altura e formando pequenos lagos que, com apenas alguma fa\u00edsca, voltavam a arder. &#8220;O petr\u00f3leo daquela regi\u00e3o \u00e9 de alta qualidade, portanto, quase l\u00edquido, diferente da subst\u00e2ncia grossa que estamos acostumados a ver&#8221;, comenta.<\/p>\n<p>Mesmo diante de um ambiente t\u00e3o perigoso, os homens pareciam n\u00e3o detectar a dimens\u00e3o do perigo. Sebasti\u00e3o Salgado conta que muitos ficavam diante das chamas durante muito tempo, sem perceber que sua imunidade se esva\u00eda aos poucos gra\u00e7as \u00e0 ingest\u00e3o da fuma\u00e7a t\u00f3xica. &#8220;De repente, o combatente tinha vertigem e simplesmente ca\u00eda, desmaiado. Imediatamente, era socorrido por algum colega, que o levava para os lagos criados com \u00e1gua bombeada do mar.&#8221;<\/p>\n<p>Para enfrentar as mesmas adversidades, o fot\u00f3grafo brasileiro contou com sua tradicional ast\u00facia banhada por uma boa dose de sorte &#8211; pr\u00f3ximo dos campos, ele descobriu suprimentos deixados pelo ex\u00e9rcito iraquiano em sua fuga desenfreada. &#8220;Eles constru\u00edram muitas trincheiras e t\u00faneis, nos quais encontrei tanto caixotes de rifles Kalashnikov e muni\u00e7\u00e3o, quanto itens mais \u00fateis para mim, como botas robustas e trajes de prote\u00e7\u00e3o para usar no caso de uma guerra qu\u00edmica&#8221;, relata Salgado que, como se interpretasse Indiana Jones na vida real, tinha de evitar barbantes e fios estrategicamente colocados nas trincheiras &#8211; eram armadilhas que, se rompidas, detonavam granadas. &#8220;Mesmo naquela \u00e9poca, essas guerras duravam apenas tr\u00eas ou quatro dias, por isso, fiz quest\u00e3o de manter um bom estoque dentro dos destro\u00e7os de um \u00f4nibus abandonado do qual me apropriei temporariamente.&#8221;<\/p>\n<p>Os lagos de petr\u00f3leo representavam um perigo \u00e0 parte, pois n\u00e3o se sabia ao certo a sua profundidade. E, quando a visibilidade era comprometida pela densa fuma\u00e7a, os carros corriam o risco de deslizar para dentro do lago. &#8220;Certa tarde, um jornalista e um fot\u00f3grafo do Financial Times, David Thomas e Alan Harper, morreram quando seu sed\u00e3 compacto foi engolido pelas chamas ao ser levado para dentro de uma rasa lagoa de petr\u00f3leo ardente, aparentemente desorientados pela fuma\u00e7a&#8221;, escreve o fot\u00f3grafo, no pref\u00e1cio do livro. &#8220;Minutos mais tarde, um caminh\u00e3o-pipa e um caminh\u00e3o-tanque foram atingidos pela mesma explos\u00e3o e os tr\u00eas homens que estavam nos ve\u00edculos tamb\u00e9m morreram. Eu havia passado pelo mesmo caminho que essas v\u00edtimas desafortunadas um pouco antes.&#8221;<\/p>\n<p>Entre tantas imagens captadas naquelas semanas no Kuwait, Salgado conta que justamente a mais impactante ficou de fora do material agora selecionado para o livro e a exposi\u00e7\u00e3o. Trata-se da foto de um soldado iraquiano morto, cujo corpo jazia ao lado de um tanque russo T54, ainda agarrado \u00e0 sua metralhadora.<\/p>\n<p>&#8220;A imagem \u00e9 terrivelmente bela, pois mostra aquele corpo completamente encharcado de petr\u00f3leo e po\u00e7os queimando ao fundo, provocando uma nuvem incr\u00edvel&#8221;, conta ele, que decidiu enterrar o soldado movido por sentimentos religiosos. &#8220;Sua alma n\u00e3o vagaria em paz, se n\u00e3o fizesse isso. E n\u00e3o coloquei a foto no livro porque aquela n\u00e3o era a minha hist\u00f3ria e sim a dos homens que combatiam o fogo.&#8221;<\/p>\n<p>E Salgado s\u00f3 voltou a esse material depois de 25 anos por um motivo especial: depois de sofrer um acidente em 2012, temeu que aquelas fotos, que nem foram ampliadas, terminassem esquecidas. &#8220;Nem L\u00e9lia, minha mulher, sabia desse material. Eu n\u00e3o podia morrer sem torn\u00e1-las p\u00fablicas.&#8221;<\/p>\n<p>Sebasti\u00e3o Salgado chega a S\u00e3o Paulo nesta segunda-feira, 24. Vai desembarcar com dificuldade de locomo\u00e7\u00e3o. &#8220;Fui dar um salto arriscado para um homem de 72 anos quando estava no Amazonas, h\u00e1 alguns meses, e senti dores no joelho&#8221;, conta. &#8220;Fui operado, mas a regi\u00e3o continuou com dores e incha\u00e7o. Fiz outra interven\u00e7\u00e3o, mas terei ainda de fazer uma pr\u00f3tese e tirar o que restou do menisco.&#8221;<\/p>\n<p>Mesmo assim, Salgado participa, na ter\u00e7a-feira, 25, da abertura para convidados da exposi\u00e7\u00e3o de suas fotos, na Galeria Mario Cohen, que fica na Rua Joaquim Antunes, 177, conjunto 12.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ubiratan Brasil &#8220;Parecia que o fim estava pr\u00f3ximo&#8221;, escreve o fot\u00f3grafo Sebasti\u00e3o Salgado no pref\u00e1cio do livro Kuwait, Um Deserto em Chamas (Taschen), que ser\u00e1 lan\u00e7ando na ter\u00e7a-feira, 25, para convidados, na Galeria Mario Cohen, mesmo local onde abre uma exposi\u00e7\u00e3o de 16 fotos in\u00e9ditas, registradas entre o come\u00e7o de agosto de 1990 e o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":119511,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[70],"tags":[],"class_list":["post-119510","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/119510","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=119510"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/119510\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":119512,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/119510\/revisions\/119512"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/119511"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=119510"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=119510"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=119510"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}