{"id":122027,"date":"2016-11-23T07:12:58","date_gmt":"2016-11-23T09:12:58","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=122027"},"modified":"2016-11-23T07:12:58","modified_gmt":"2016-11-23T09:12:58","slug":"gerald-thomas-corre-em-busca-do-tempo-perdido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/gerald-thomas-corre-em-busca-do-tempo-perdido\/","title":{"rendered":"Gerald Thomas corre em busca do tempo perdido"},"content":{"rendered":"<h6 class=\"Assina\"><strong>Ubiratan Brasil<\/strong><\/h6>\n<p>A ang\u00fastia parece rodear eternamente o diretor Gerald Thomas. Encenador de pe\u00e7as seminais no teatro brasileiro, como Eletra com Creta, Carmem com Filtro e The Flash and Crash Days, todas no final do s\u00e9culo passado, al\u00e9m de Um Circo de Rins e F\u00edgados, em 2005, ele gosta tamb\u00e9m de lembrar de seus fracassos e outras situa\u00e7\u00f5es que quase o levaram ao fundo do po\u00e7o, a ponto de ter tentado o suic\u00eddio, no ano passado.<\/p>\n<p>Gerald costuma dizer que sua vida \u00e9 o teatro &#8211; fora do palco, n\u00e3o se reconhece, mesmo quando n\u00e3o est\u00e1, de fato, dentro dele. \u00c9 esse esp\u00edrito que inspira Entre Duas Fileiras (Record), autobiografia que Gerald lan\u00e7a nesta quarta-feira, 23, em S\u00e3o Paulo, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional.<\/p>\n<p>Vivendo entre Nova York e os alpes su\u00ed\u00e7os, ele volta ao Brasil depois de dois anos. E, mesmo com um romance pronto e uma sele\u00e7\u00e3o de pe\u00e7as em vias de ser publicada, Gerald n\u00e3o pensa em voltar ao teatro, tamanha decep\u00e7\u00e3o alimentada pelos \u00faltimos trabalhos. Mas, como boa parte dos artistas, ele age conforme o impulso, o mesmo que o convenceu a se prostituir em Nova York quando l\u00e1 chegou, jovem imberbe &#8211; mais rent\u00e1vel que lavar pratos ou trabalhar como gar\u00e7om. Ou a criar uma rela\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima com Samuel Beckett, tornando-se um de seus principais interlocutores e encenadores contempor\u00e2neos. Finalmente, o aprendizado no experimentalismo do La MaMa, de Nova York, e a passagem pelo Living Theatre, ambos centros fundamentais de forma\u00e7\u00e3o. Antes de chegar ao Brasil, Gerald conversou por telefone com a reportagem<\/p>\n<p><b>Voc\u00ea j\u00e1 vinha falando de escrever essa autobiografia h\u00e1 um tempo. Por que agora?<\/b><\/p>\n<p>Faz onze anos que trabalho nele. N\u00e3o foi assim de repente. E houve v\u00e1rios t\u00edtulos. A escrita come\u00e7ou e terminou na Su\u00ed\u00e7a. No come\u00e7o, eram notas, &#8216;suicide notes&#8217;, que eu n\u00e3o pensava ainda em publicar como autobiografia. Eu estava deprimido e, como a tecnologia n\u00e3o era t\u00e3o avan\u00e7ada ainda, arquivei tudo em disquetes. Eu ia at\u00e9 o correio e imprimia toneladas de papel. Finalmente, em 2011, quando comecei a negociar a publica\u00e7\u00e3o, tinha cerca de 40 mil p\u00e1ginas arquivadas. Se fossem impressas, daria um livro para ser carregado numa mala de rodinhas.<\/p>\n<p><b>A narrativa tem esse pulso de consci\u00eancia t\u00edpico das suas pe\u00e7as, um texto que vai sendo completado \u00e0 medida em que se avan\u00e7a na leitura.<\/b><\/p>\n<p>E eu me coloco como o personagem de uma pe\u00e7a, um mon\u00f3logo em que apresento ao leitor as minhas impress\u00f5es. No come\u00e7o, pensei em fazer de uma maneira tradicional, escrevendo verbetes, datas, aquela coisa besta. E o que mais li na vida \u00e9 biografia. Adoro ler sobre pessoas, talvez mais do que elas escreveram. Mas tenho reservas com autobiografias &#8211; n\u00e3o confio. Acho que a pessoa coloca brilho demais ou treva demais. N\u00e3o considero algo honesto e me peguei fazendo a mesma coisa, ou seja, colocando purpurina, ch\u00e3o de estrelas. E, nesse \u00faltimo ano, depois da tentativa de suic\u00eddio, percebi que n\u00e3o tenho nada mais a perder. O suic\u00eddio do ator Robin Williams me tocou muito. Tenho 62 anos e esse tipo de acontecimento tem me abatido. Os assassinatos na sede do jornal Charlie Hebdo, os atentados terroristas na Fran\u00e7a, eu me senti no meio disso tudo. N\u00e3o \u00e9 guerra, \u00e9 terrorismo.<\/p>\n<p>Eu me peguei levando um susto atr\u00e1s do outro, uma rasteira da nova era. Desde os atentados do 11 de Setembro, eu sofro de algo que ainda n\u00e3o sei explicar. Tenho p\u00e2nico. Em alguns dias, consigo sair de casa, mas, em outros, n\u00e3o consigo. Antigamente, eu trabalhava no La MaMa, pegava um avi\u00e3o para S\u00e3o Paulo, ensaiava, e voltava. N\u00e3o tinha problema nenhum e hoje, para pegar um voo de Zurique para Londres, viagem de apenas uma hora, fico aos prantos no aeroporto, tentando cancelar. Bira, se eu estiver te apavorando, me fale.<\/p>\n<p><b>Apavorando, n\u00e3o. Voc\u00ea est\u00e1 me surpreendendo. Continue.<\/b><\/p>\n<p>Tenho que botar na cabe\u00e7a que n\u00e3o sou mais aquele. Fa\u00e7o gin\u00e1stica, corro, levanto peso, me cuido, passo Androgel na pele, que funciona como testosterona, mas os horm\u00f4nios n\u00e3o s\u00e3o mais os mesmos. \u00c9 algo proustiano, como correr atr\u00e1s do tempo perdido. Por isso, prefiro ficar quieto em casa.<\/p>\n<p><b>Sua forma de trabalho mudou?<\/b><\/p>\n<p>N\u00e3o fa\u00e7o nada desde Entredentes (2014), que foi uma experi\u00eancia muito ruim. Ali\u00e1s, te desafio a mostrar um artista que tenha coragem de se autodenunciar. Que diz que n\u00e3o gostou do \u00faltimo trabalho. Geralmente, ele se autoglorifica. Eu n\u00e3o. Tem uma coisa ali e aqui, mas n\u00e3o gostei do resultado. Nunca gastei dois anos para ficar elaborando uma pe\u00e7a que se revelou uma bobagem. A \u00faltima que fiz e gostei foi Circo de Rins e F\u00edgados, em 2005.<\/p>\n<p><b>Nenhum projeto, ent\u00e3o?<\/b><\/p>\n<p>Talvez eu monte uma pe\u00e7a chamada Articulose, texto que escrevi na \u00e9poca de Electra Com Creta, descoberto agora pelo William Pereira, que organiza minhas pe\u00e7as. Estou lendo com algumas pessoas, talvez saia alguma coisa, talvez n\u00e3o. Mas n\u00e3o \u00e9 uma urg\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ubiratan Brasil A ang\u00fastia parece rodear eternamente o diretor Gerald Thomas. 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