{"id":123572,"date":"2016-12-12T08:09:50","date_gmt":"2016-12-12T10:09:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=123572"},"modified":"2016-12-12T08:09:50","modified_gmt":"2016-12-12T10:09:50","slug":"dois-prometeus-melancolicos-escreve-silviano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/dois-prometeus-melancolicos-escreve-silviano\/","title":{"rendered":"Dois Prometeus melanc\u00f3licos, escreve Silviano"},"content":{"rendered":"<h6 class=\"Assina\"><strong>Antonio Gon\u00e7alves Filho<\/strong><\/h6>\n<p>Muito mais que um exerc\u00edcio de imagina\u00e7\u00e3o, colocar-se no lugar do outro \u00e9 um pouco sentir a vertigem do semelhante &#8211; e, no caso de Machado de Assis, essa &#8220;vertigem&#8221; se traduz nas &#8220;crises nervosas&#8221; que se tornaram frequentes ap\u00f3s a morte de sua mulher Carolina, com quem foi casado durante 35 anos. Rec\u00e9m-vi\u00favo e sem filhos, Machado de Assis encontra na figura de M\u00e1rio de Alencar mais que um interlocutor. Encontra um filho, cuja candidatura \u00e0 Academia Brasileira de Letras patrocina.<\/p>\n<p>M\u00e1rio de Alencar veio a ocupar, em 1905, a vaga aberta pela morte de Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio. Os jornais, especialmente O Pa\u00eds, desaprovaram a escolha. O Malho publicou uma caricatura do escritor vestido como um escolar e uma cartilha sob o bra\u00e7o esquerdo. Machado, reflete Silviano Santiago, talvez tenha incentivado o filho espiritual a se candidatar \u00e0 vaga da Academia para que &#8220;M\u00e1rio se redimisse da culpa que sofria por ser autor med\u00edocre e n\u00e3o estar \u00e0 altura do pai, Jos\u00e9 de Alencar&#8221;<\/p>\n<p>M\u00e1rio, embora visitasse regularmente o mentor &#8211; quase todos os dias, conforme deixou registrado -, invejava Machado, ainda segundo o romance de Santiago. A doen\u00e7a que mantinha pai e filho espiritual unidos n\u00e3o oferecia, segundo o autor, a possibilidade da &#8220;simetria encontrada na bela amizade&#8221; entre o escritor mais velho e o mais mo\u00e7o. Machado era introvertido, M\u00e1rio, extrovertido. Eram tipos antag\u00f4nicos unidos na doen\u00e7a &#8211; eles se tornam semelhantes por causa dela, defende Santiago, definindo-os como &#8220;dois Prometeus melanc\u00f3licos&#8221;.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise dessa rela\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica e da compreens\u00e3o do significado real da doen\u00e7a de ambos passa, no ep\u00edlogo do romance, pela leitura dos Evangelhos. Santiago retrata Machado a consultar a vers\u00e3o de Marcos da hist\u00f3ria do epil\u00e9tico endemoninhado. Tenta imaginar o choque que o bruxo de Cosme Velho teve com o estilo brutal do evangelista. Machado nem ousaria descrever da mesma forma a cena de um esp\u00edrito se apoderando de um pobre garoto epil\u00e9tico, espumando e rangendo os dentes diante de Jesus. Mas Santiago, que j\u00e1 se colocou no lugar de Graciliano Ramos no di\u00e1rio ficcional Em Liberdade, \u00e9 capaz de se apresentar como alter ego de Machado e escrever um romance em que d\u00e1 prioridade \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por vezes ensa\u00edstico, Machado \u00e9 um romance transgressor. O autor de Memorial de Aires \u00e9 apresentado como um naturalista que se aproveita dos cl\u00e1ssicos para antecipar a linguagem dos surrealistas, em busca da &#8220;beleza convulsiva&#8221; numa cidade que se moderniza e empurra o &#8220;bruxo de Cosme Velho&#8221; para o abismo, \u2018um self made man\u2019 vindo do morro do Livramento que superou a pobreza, mas n\u00e3o os preconceitos de uma capital que copiava Paris.<\/p>\n<p><strong>MACHADO<\/strong><br \/>\nAutor: Silviano Santiago<br \/>\nEditora: Companhia das Letras (496 p\u00e1gs., R$ 69,90)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antonio Gon\u00e7alves Filho Muito mais que um exerc\u00edcio de imagina\u00e7\u00e3o, colocar-se no lugar do outro \u00e9 um pouco sentir a vertigem do semelhante &#8211; e, no caso de Machado de Assis, essa &#8220;vertigem&#8221; se traduz nas &#8220;crises nervosas&#8221; que se tornaram frequentes ap\u00f3s a morte de sua mulher Carolina, com quem foi casado durante 35 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":123573,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[70],"tags":[],"class_list":["post-123572","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/123572","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=123572"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/123572\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":123574,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/123572\/revisions\/123574"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/123573"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=123572"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=123572"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=123572"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}