{"id":123802,"date":"2016-12-15T09:22:36","date_gmt":"2016-12-15T11:22:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=123802"},"modified":"2016-12-15T09:40:54","modified_gmt":"2016-12-15T11:40:54","slug":"neruda-de-pablo-larrain-seria-exercicio-de-imaginacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/neruda-de-pablo-larrain-seria-exercicio-de-imaginacao\/","title":{"rendered":"Neruda, de Larra\u00edn, seria exerc\u00edcio de imagina\u00e7\u00e3o?"},"content":{"rendered":"<h6 class=\"Assina\"><strong>Luiz Zanin Oricchio<\/strong><\/h6>\n<p>O problema de mexer com um \u00eddolo nacional como Pablo Neruda \u00e9 que, fa\u00e7a-se o que se fizer, sempre haver\u00e1 descontentes. Se demasiado literal, arrisca-se ao adjetivo de &#8220;reverente&#8221; ou &#8220;chapa-branca&#8221;. Quando toma liberdades biogr\u00e1ficas, corre-se o risco de despertar a f\u00faria por estar distorcendo o personagem, os fatos hist\u00f3ricos ou ambos. Neruda, de Pablo Larra\u00edn, n\u00e3o escapa a esse destino. Tem sido admirado mundo afora (est\u00e1 entre os finalistas ao Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro), mas ganhou reprimendas em casa.<\/p>\n<p>Admiradores do poeta dizem que o Neruda interpretado por Luis Gnecco flerta, e \u00e0s vezes namora abertamente, com a caricatura. &#8220;Adota lugares-comuns do antinerudismo&#8221;, aponta Ra\u00fal Bulnes, presidente da Funda\u00e7\u00e3o Pablo Neruda. &#8220;Tais como o do &#8216;comunista burgu\u00eas&#8217;, fr\u00edvolo, bon vivant, uma esp\u00e9cie atualizada de pol\u00edtico light&#8221;, fulmina. Tudo em detrimento do defensor dos pobres, do poeta engajado e batalhador, do artista profundo de Canto General, obra que terminou por lhe valer o Pr\u00eamio Nobel de Literatura.<\/p>\n<p>Bem, de fato, Larra\u00edn toma liberdades ficcionais a respeito do seu personagem, como ali\u00e1s costumam fazer ficcionistas, na literatura ou no cinema. Mas n\u00e3o parece ser sua inten\u00e7\u00e3o proceder \u00e0 desconstru\u00e7\u00e3o de um \u00eddolo. Apenas demonstra o desejo de recoloc\u00e1-lo em dimens\u00e3o humana, tirando-lhe a tonalidade \u00e9pica. Ou seja, retrata um Neruda sujeito a fraquezas e desejos, como todo ser humano; poderoso em certos momentos, fr\u00e1gil em outros, carente de reconhecimento como todos. Tudo isso n\u00e3o lhe tira grandeza, muito pelo contr\u00e1rio. Incomoda apenas a quem aspira a super-her\u00f3is inating\u00edveis, ou seja, crian\u00e7as mentais.<\/p>\n<p>O filme aborda um epis\u00f3dio espec\u00edfico da vida de Pablo Neruda (1904-1973). Trata-se da sua fuga, perseguido pelo presidente Gabriel Gonz\u00e1lez Videla, que colocou o Partido Comunista na ilegalidade e mandou prender seus militantes. Entre eles Neruda, que se elegera senador pelo PC em 1946. O ano da hist\u00f3ria contada \u00e9 1948 e o que vemos \u00e9 o poeta empreendendo sua retirada pelo interior do pa\u00eds para escapar aos sic\u00e1rios de Videla. Tenta primeiro sair por mar, seguindo um plano tra\u00e7ado pelo Partido Comunista. N\u00e3o d\u00e1 certo e ent\u00e3o Neruda v\u00ea-se obrigado a atravessar a Cordilheira dos Andes, ganhar a Argentina e, de l\u00e1, exilar-se na Europa. O mesmo epis\u00f3dio foi objeto do filme recente de Miguel Basoalto, que tenta se ater mais aos fatos, por\u00e9m se torna muito seco e quadrado.<\/p>\n<p>A inova\u00e7\u00e3o de Larra\u00edn, em termos de constru\u00e7\u00e3o da arquitetura dram\u00e1tica, \u00e9 a aten\u00e7\u00e3o concedida ao policial encarregado da persegui\u00e7\u00e3o a Neruda, Oscar Peluchonneau, vivido pelo mexicano Gael Garc\u00eda Bernal (o Guevara de Di\u00e1rios de Motocicleta, de Walter Salles). Ambos, poeta e policial, dividem o protagonismo da hist\u00f3ria. Quase se poderia dizer que Oscar \u00e9 mais importante que Neruda na trama. \u00c9 dele a narra\u00e7\u00e3o e, em certo sentido, o personagem \u00e9 constru\u00eddo com mais poder de fasc\u00ednio e ambival\u00eancia. Bastaria isso para acabar com o filme para a idolatria nerudista.<\/p>\n<p>Mas talvez um \u00e2ngulo mais justo de observa\u00e7\u00e3o seja ver como se comporta na hist\u00f3ria o par perseguidor-perseguido. \u00c9 nessa rela\u00e7\u00e3o a dist\u00e2ncia que o filme ganha seu interesse, tens\u00e3o e grandeza. N\u00e3o existe desequil\u00edbrio entre um e outro. Se Neruda \u00e9 um personagem p\u00fablico, poucos tra\u00e7os bastam para defini-lo. J\u00e1 um personagem an\u00f4nimo, como o policial Peluchonneau, precisa ser constru\u00eddo com mais detalhes.<\/p>\n<p>Precisamos entender, em especial, a dedica\u00e7\u00e3o com que se entrega \u00e0 tarefa, um empenho muito maior do que o simples cumprimento de um dever. Oscar \u00e9 um obcecado. Procura Neruda com o mesmo fanatismo inextingu\u00edvel com que Javert perseguia Jean Valjean no romance Os Miser\u00e1veis, de Victor Hugo. H\u00e1, nessa tarefa, algo que extrapola a esfera racional e em consequ\u00eancia o filme torna-se alucinat\u00f3rio quando tenta compreender as motiva\u00e7\u00f5es de Oscar Peluchonneau.<\/p>\n<p>De resto, Neruda expressa a qualidade cinematogr\u00e1fica que Larra\u00edn coloca em seu trabalho, desde Tony Manero, passando por Post Morten, No, O Clube e, agora, Neruda. Larra\u00edn j\u00e1 tem novo longa pronto, Jackie, sobre Jacqueline Kennedy. Ou Onassis, se preferirem. Deve vir mais pol\u00eamica por a\u00ed. O cinema de Larra\u00edn \u00e9 caprichado e nada \u00f3bvio. N\u00e3o se veem enquadramentos simplistas nem imagens \u00f3bvias. Como diretor busca o inusitado, mas n\u00e3o o ex\u00f3tico. E seus temas n\u00e3o s\u00e3o nada f\u00e1ceis de serem trabalhados. Em Tony Manero, Larra\u00edn falava do poder encantat\u00f3rio da cultura pop, em Post Morten, dos crimes da ditadura chilena, em No sobre o plebiscito para apear Pinochet do poder e, em O Clube, da pedofilia na Igreja. Em Neruda, toca num \u00edcone da cultura chilena e da esquerda mundial. E o faz como quem n\u00e3o acredita nem em totens nem em tabus.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiz Zanin Oricchio O problema de mexer com um \u00eddolo nacional como Pablo Neruda \u00e9 que, fa\u00e7a-se o que se fizer, sempre haver\u00e1 descontentes. Se demasiado literal, arrisca-se ao adjetivo de &#8220;reverente&#8221; ou &#8220;chapa-branca&#8221;. Quando toma liberdades biogr\u00e1ficas, corre-se o risco de despertar a f\u00faria por estar distorcendo o personagem, os fatos hist\u00f3ricos ou ambos. 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