{"id":124789,"date":"2016-12-29T08:15:02","date_gmt":"2016-12-29T10:15:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=124789"},"modified":"2016-12-29T08:15:02","modified_gmt":"2016-12-29T10:15:02","slug":"jovens-lotam-cinemas-para-ver-invasao-zumbi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/jovens-lotam-cinemas-para-ver-invasao-zumbi\/","title":{"rendered":"Jovens lotam cinemas para ver Invas\u00e3o Zumbi"},"content":{"rendered":"<h6 class=\"Assina\"><strong>Luiz Carlos Merten<\/strong><\/h6>\n<p>Mais do que a Fran\u00e7a, que sempre apoiou seu cinema e virou um enclave de resist\u00eancia a Hollywood, a Coreia do Sul talvez seja o \u00fanico pa\u00eds no mundo em que os filmes nacionais imp\u00f5em pesadas derrotas aos blockbusters estrangeiros &#8211; leia-se, dos EUA. Batman vs. Superman, Avengers, Guardi\u00f5es da Gal\u00e1xia? N\u00e3o s\u00e3o p\u00e1reos para o cinema de g\u00eanero local. De g\u00eaneros, sim, porque essa foi uma coisa que o cinema sul-coreano importou.<\/p>\n<p>Policiais, fantasias cient\u00edficas, terror, mas sempre impregnados dos elementos da cultura nacional. Invas\u00e3o Zumbi tem sido um fen\u00f4meno internacional. Em toda parte, o longa de Yeon Sang-ho tem arrebatado o p\u00fablico &#8211; e a cr\u00edtica. No Brasil, n\u00e3o tem sido diferente.<\/p>\n<p>Embora sua estreia oficial seja nesta quinta, 29 &#8211; a \u00faltima do ano -, o filme esteve em pr\u00e9-estreia ao longo da \u00faltima semana. O p\u00fablico, principalmente jovem, lotou as salas e era interessante, tanto quanto ver o filme, observar as rea\u00e7\u00f5es da plateia. Porque, e essa \u00e9 outra forte caracter\u00edstica do cinema sul-coreano, Invas\u00e3o Zumbi usa o fant\u00e1stico, mais at\u00e9 que o terror, para contar hist\u00f3rias de fam\u00edlia.<\/p>\n<p>O filme \u00e9 violento, intenso, mas, ao contr\u00e1rio das produ\u00e7\u00e3o do g\u00eanero de Hollywood, n\u00e3o se alicer\u00e7a sobre o conceito do susto. De cara, Sang-ho prop\u00f5e um estranhamento. Na abertura, um boneco infl\u00e1vel, imitando gestos humanos, desvia um carro na estrada e, imediatamente h\u00e1 um acidente com um cervo. Morto, o bicho retorna como zumbi e encara a plateia.<\/p>\n<p>Na cena seguinte, a hist\u00f3ria j\u00e1 \u00e9 de fam\u00edlia. O pai que s\u00f3 pensa na carreira e n\u00e3o tem tempo para a filha \u00e9 for\u00e7ado a acompanhar a garota, levando-a ao encontro da m\u00e3e. Coisas estranhas est\u00e3o ocorrendo pelo pa\u00eds &#8211; levantes em toda parte. Pai e filha embarcam no trem. Last Train to Busan, O \u00faltimo trem para Busan. \u00c9 o t\u00edtulo internacional de Invas\u00e3o Zumbi.<\/p>\n<p>Tem um significado ao mesmo tempo real e simb\u00f3lico. No pa\u00eds que sofre o ataque dos zumbis, \u00e9 o \u00faltimo trem para Busan, \u00e1rea militarizada que se transforma no \u00fanico reduto seguro. E \u00e9 a \u00faltima viagem para muita gente, quase todo mundo que embarcou. No fim, poucos, bem poucos chegam ao seu destino.<\/p>\n<p>Vem de longe, na hist\u00f3ria do cinema, o fasc\u00ednio pelos mortos-vivos. Vampiros, com seu sangue gelado, n\u00e3o deixam de ser uma categoria espec\u00edfica, mas, no come\u00e7o dos anos 1940, o lend\u00e1rio produtor Val Lewton, em seu ciclo de terror, j\u00e1 contava hist\u00f3rias de zumbis. A Morta-Viva, o cl\u00e1ssico de Jacques Tourneur. Pelos anos e d\u00e9cadas seguintes, mortos-vivos assombraram o imagin\u00e1rio do p\u00fablico at\u00e9 que, no m\u00edtico 1968, George A.<\/p>\n<p>Romero fez A Noite dos Mortos-Vivos. Depois disso, e a cada cinco ou dez anos, Romero voltou ao tema dos ressuscitados para contar uma hist\u00f3ria dos EUA. Conflitos raciais, viol\u00eancia contra as mulheres, os imigrantes, tudo ele abordou. Tratado com realismo, quase um neorrealismo, o terror virou pol\u00edtico e chegou em 2004 a Dawn of the Dead (Madrugada dos Mortos), de Zack Snyder, o \u00faltimo grande filme hollywoodiano do g\u00eanero, com seus zumbis que sitiam um grupo num shopping &#8211; o consumismo em quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Os mortos-vivos migraram para a TV (Walking Dead), voltaram ao cinema (Guerra Mundial Z, de David Ayer). Sabemos de onde vem esse fasc\u00ednio pelos ressuscitados. Um pouco mais dif\u00edcil \u00e9 entender o que ele representa. Mortos sedentos de sangue, que se alimentam de c\u00e9rebros no par\u00f3dico &#8211; A Volta dos Mortos-Vivos, de Dan O\u2019Bannon. Medo de qu\u00ea? Da aliena\u00e7\u00e3o? O trem de Sang-ho abarca toda a sociedade da Coreia do Sul. Os personagens viram representa\u00e7\u00f5es sociais. Existem diferentes tipos de pais, de representa\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas da classe dominante. E existe uma imensa massa de manobra, que reage de maneira ego\u00edsta e, por isso, est\u00e1 condenada.<\/p>\n<p>O estranhamento \u00faltimo de Invas\u00e3o Zumbi consiste em fazer o que nenhuma produ\u00e7\u00e3o de Hollywood ousaria. No limite, o que Sang-ho conta s\u00e3o hist\u00f3rias de fam\u00edlia. H\u00e1 um personagem que concentra os defeitos de um comportamento t\u00edpico da economia neoliberal. Dane-se a solidariedade, o grupo, \u00e9 cada um por si. Bem no fim, h\u00e1 uma revela\u00e7\u00e3o que humaniza essa figura. O terror vira melodrama, de volta ao bin\u00f4mio pai\/filha.<\/p>\n<p>A chave est\u00e1 na can\u00e7\u00e3o que a garota, finalmente, vai cantar. \u00c9 t\u00e3o inesperado (disparatado?) que a plateia ri. Rid\u00edculo ou nervosismo? Talvez Invas\u00e3o Zumbi n\u00e3o seja t\u00e3o grande quanto o Zack Snyder, ou os melhores filmes de Romero, mas \u00e9 muito bom? Uma (r)evolu\u00e7\u00e3o do g\u00eanero? Boa parte do relato contrap\u00f5e g\u00eaneros humanos &#8211; a garota, a gr\u00e1vida, as idosas. Os jovens estudantes, o vagabundo, dois tipos de pais. A raridade \u00e9 isso &#8211; um filme de terror, de zumbis, para refletir.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiz Carlos Merten Mais do que a Fran\u00e7a, que sempre apoiou seu cinema e virou um enclave de resist\u00eancia a Hollywood, a Coreia do Sul talvez seja o \u00fanico pa\u00eds no mundo em que os filmes nacionais imp\u00f5em pesadas derrotas aos blockbusters estrangeiros &#8211; leia-se, dos EUA. 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