{"id":125856,"date":"2017-01-13T08:39:15","date_gmt":"2017-01-13T10:39:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=125856"},"modified":"2017-01-13T08:39:15","modified_gmt":"2017-01-13T10:39:15","slug":"damas-do-teatro-sobem-aos-palcos-sozinhas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/damas-do-teatro-sobem-aos-palcos-sozinhas\/","title":{"rendered":"Damas do teatro sobem aos palcos sozinhas"},"content":{"rendered":"<h6 class=\"Assina\"><strong>Leandro Nunes e Ubiratan Brasil<\/strong><\/h6>\n<p>Tr\u00eas atrizes que assumem solit\u00e1rias o palco &#8211; em Uma Shirley Qualquer, Susana Vieira estreia em mon\u00f3logo no papel da mulher que sofre com o pior tipo de solid\u00e3o: aquela em que a pessoa se sente s\u00f3 mesmo estando acompanhada. J\u00e1 em Afina\u00e7\u00e3o I, Georgette Fadel interpreta a pensadora e professora francesa Simone Weil, que ministra uma aula confer\u00eancia sobre a rela\u00e7\u00e3o entre a opress\u00e3o e o sofrimento no mundo e o boicote ao pensamento racional. Finalmente, a atriz, dramaturga e diretora Grace Pass\u00f4 trata da constru\u00e7\u00e3o da identidade e do poder da palavra em Vaga Carne.<\/p>\n<p>Ao buscar a aproxima\u00e7\u00e3o dos aspectos mais humanos das personagens, elas transformaram o mon\u00f3logo, conseguindo que o espectador se aproxime do tema tratado. Assim, \u00e9 pelo humor agridoce que Susana Vieira se vale de sua experi\u00eancia de mais de 55 anos de carreira para tra\u00e7ar o perfil da mulher que conversa mais com as paredes do que com a pr\u00f3pria fam\u00edlia, uma reflex\u00e3o em que busca entender aonde foram parar seus sonhos e o que aconteceu com sua vida.<\/p>\n<p>O espet\u00e1culo, que vai ocupar o palco do Teatro Renaissance, \u00e9 uma nova vers\u00e3o (agora assinada por Miguel Falabella) da pe\u00e7a Shirley Valentine, escrita em 1986 pelo ingl\u00eas Willy Russell. Antes, j\u00e1 foi encenada por Renata Sorrah em 1991 e Betty Faria, em 2008. \u00c9 preciso tamb\u00e9m lembrar da preciosa interpreta\u00e7\u00e3o, no final dos anos 1980, da inglesa Pauline Collins, que ganhou um Tony (o principal pr\u00eamio da Broadway) e foi indicada para o Oscar pelas encarna\u00e7\u00f5es da dona de casa no teatro e no cinema.<\/p>\n<p>Em todas as montagens, o destaque \u00e9 o mesmo: o que as paredes ouvem da dona de casa \u00e9 um testemunho de solid\u00e3o &#8211; os filhos emancipados e o marido que s\u00f3 a v\u00ea como cozinheira fazem com que ela fale ao l\u00e9u para evitar a mudez total. E esse di\u00e1logo franco com a plateia que, afinal, representa a quarta parede imagin\u00e1ria de um teatro, funciona porque \u00e9 baseado em grandes verdades. Shirley se apropria do sil\u00eancio que a rodeia para refletir sobre suas pr\u00f3prias decis\u00f5es, como a de viajar para a Gr\u00e9cia, realizando um grande sonho.<\/p>\n<p>Morto nesta semana, o soci\u00f3logo polon\u00eas Zygmunt Bauman dizia que hoje se vive em um tempo que escorre pelas m\u00e3os, um tempo l\u00edquido em que nada \u00e9 para persistir. &#8220;O amor \u00e9 mais falado que vivido&#8221;, dizia Bauman. &#8220;Vivemos um tempo de secreta ang\u00fastia.&#8221; E, segundo a filosofia, a ang\u00fastia \u00e9 o sentimento que representa o nada &#8211; quando ela se instala, o corpo se inquieta e a alma sufoca.<\/p>\n<p>Para que o espet\u00e1culo n\u00e3o des\u00e1gue em depress\u00e3o, o tradutor e diretor Miguel Falabella cuidou de salpicar o texto com tiradas bem-humoradas, que apontam para a import\u00e2ncia do recome\u00e7o, ou seja, que nunca \u00e9 tarde para se tomar um bom vinho branco a fim de encarar os fatos com leveza, at\u00e9 mesmo quando tudo parece s\u00f3 dar errado.<\/p>\n<p>Mais pragm\u00e1tico \u00e9 o texto de Afina\u00e7\u00e3o I, formado por trechos escritos por Brecht, Hegel, Marx e pela pr\u00f3pria Simone Weil. Em cena, na pele da pensadora, Georgette Fadel fala sobre a rela\u00e7\u00e3o entre a opress\u00e3o e o sofrimento no mundo e o incr\u00edvel boicote ao pensamento racional. Enfim, sobre a liberdade.<\/p>\n<p>E, se em Uma Shirley Qualquer o p\u00fablico assume o papel de confidente, em Afina\u00e7\u00e3o I as pessoas se acomodam o mais pr\u00f3ximo poss\u00edvel da atriz, como um grupo de estudantes que, caneta \u00e0 m\u00e3o, tomam anota\u00e7\u00f5es. \u00c9 o que aconteceu na temporada no Rio de Janeiro e nas primeiras sess\u00f5es desta semana no Sesc Ipiranga. O clima que Georgette busca instaurar \u00e9 o mesmo das boas aulas e dos grandes e inesquec\u00edveis professores. Tudo isso para que a plateia possa participar livremente, levantando quest\u00f5es e d\u00favidas.<\/p>\n<p>A atriz acredita que o formato concebido para o espet\u00e1culo serve para reavivar a mem\u00f3ria dos tempos de escola e d\u00e1 a chance de pensar a realidade do presente. Nessa sala de aula, a professora Simone apresenta quest\u00f5es um tanto complexas naturais das obras de fil\u00f3sofos que pararam para refletir sobre um grande mist\u00e9rio constru\u00eddo na rotina da vida: as rela\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>\u00c9 por uma via semelhante que o solo de Grace Pass\u00f4 vai trilhar, empreendendo uma aventura pelos prim\u00f3rdios do pensamento. O foco de Vaga Carne re\u00fane elementos que se concretizam em um estranho encontro. Na pe\u00e7a que estreia nesta sexta, 13, no Sesc Pompeia, o corpo da atriz mineira recebe a vista de uma voz. N\u00e3o se sabe sua origem e seus des\u00edgnios. Ao perscrutar esse cen\u00e1rio humano, cria-se um di\u00e1logo detonado por palavra e movimento.<\/p>\n<p>A coexist\u00eancia da voz com o corpo \u00e9 o terreno de investiga\u00e7\u00e3o da diretora, dramaturga e atriz que foi uma das fundadoras do Grupo Espanca! e que mant\u00e9m parceria com os paranaenses da companhia brasileira. Nas m\u00e3os de Grace, o solo que estreou no Festival de Curitiba no ano passado nasce com destino particular: trazer na pele as quest\u00f5es que atravessam a vida de uma mulher, artista e negra no Brasil.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leandro Nunes e Ubiratan Brasil Tr\u00eas atrizes que assumem solit\u00e1rias o palco &#8211; em Uma Shirley Qualquer, Susana Vieira estreia em mon\u00f3logo no papel da mulher que sofre com o pior tipo de solid\u00e3o: aquela em que a pessoa se sente s\u00f3 mesmo estando acompanhada. 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