{"id":126216,"date":"2017-01-18T07:46:15","date_gmt":"2017-01-18T09:46:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=126216"},"modified":"2017-01-18T07:46:15","modified_gmt":"2017-01-18T09:46:15","slug":"dez-anos-depois-o-rei-fica-nu-em-todos-os-detalhes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/dez-anos-depois-o-rei-fica-nu-em-todos-os-detalhes\/","title":{"rendered":"Dez anos depois o &#8216;rei&#8217; fica nu, em todos os detalhes"},"content":{"rendered":"<h6 class=\"Assina\"><strong>Julio Maria<\/strong><\/h6>\n<p>O pior pesadelo de Paulo Cesar de Ara\u00fajo come\u00e7ou na manh\u00e3 de 17 de janeiro de 2007. H\u00e1 exatos dez anos e um dia, Roberto Carlos entrava na Justi\u00e7a com uma queixa crime e um pedido de busca e apreens\u00e3o contra a biografia Roberto Carlos em Detalhes, de sua autoria.<\/p>\n<p>Milhares de c\u00f3pias j\u00e1 estavam nas lojas quando, cinco dias depois, uma determina\u00e7\u00e3o ordenou a retirada dos exemplares e estipulou uma multa de R$ 50 mil ao lojista que mantivesse a vida de Roberto exposta na vitrine. Dez anos e um dia. Nesse tempo, o tiro disparado por Roberto perfurou a alma de Ara\u00fajo, abateu o mercado editorial, tirou lascas de um grupo de artistas decididos a apoiar o cantor em sua cruzada pelas biografias n\u00e3o autorizadas e ricocheteou no teto. Agora, dirige-se ao pr\u00f3prio atirador.<\/p>\n<p>Uma nova biografia de Roberto ser\u00e1 lan\u00e7ada at\u00e9 o segundo semestre de 2017. Escrita pelo mesmo autor proibido, Paulo Cesar de Ara\u00fajo, que j\u00e1 havia revisitado a hist\u00f3ria em 2014 com o autobiogr\u00e1fico O R\u00e9u e o Rei, a publica\u00e7\u00e3o centra agora na obra para explicar o mito. O mesmo tom respeitoso e a apura\u00e7\u00e3o de f\u00f4lego de Ara\u00fajo n\u00e3o devem poupar Roberto de epis\u00f3dios desconfort\u00e1veis, como a traum\u00e1tica perda de parte da perna direita em um acidente na inf\u00e2ncia, nem ceder \u00e0 sanha do cantor pelos tribunais. Eis o ponto. Dez anos, um dia e uma decis\u00e3o do Supremo Tribunal Federal depois, o mundo n\u00e3o \u00e9 mais o mesmo.<\/p>\n<p>&#8220;Os processos s\u00e3o do jogo e nenhuma editora luta para publicar o que quer. Mas o biografado que decidir processar um bi\u00f3grafo vai ter de pensar mais. Afinal, vale a pena comprar a briga?&#8221;, diz Carlos Andreazza, editor executivo da Record, respons\u00e1vel pelo lan\u00e7amento da nova biografia.<\/p>\n<p>Paulo Cesar diz que escreve sem as amarras do medo. &#8220;Os casos estar\u00e3o todos l\u00e1, at\u00e9 porque Roberto nunca disse que algo do livro fosse mentira. Seu cavalo de batalha n\u00e3o foi esse&#8221;. E o que teria mudado na vida de um bi\u00f3grafo nesses dez anos? &#8220;Quando pedia uma entrevista para o livro, eu vivia ouvindo a frase \u2018mas voc\u00ea tem autoriza\u00e7\u00e3o para escrever?\u2019. Havia uma naturaliza\u00e7\u00e3o desta ideia. O cen\u00e1rio hoje \u00e9 diferente.&#8221;<\/p>\n<p>A editora de Ara\u00fajo deve fazer uma opera\u00e7\u00e3o para inundar as lojas com a nova biografia. A tiragem inicial, de ambiciosas 50 mil c\u00f3pias (um livro com bom potencial de vendas sai, em geral, com dez mil), ser\u00e1 usada em pilhas armadas em vitrines e em locais privilegiados das lojas. &#8220;As pessoas v\u00e3o saber do dia do lan\u00e7amento, mas vamos guardar v\u00e1rias informa\u00e7\u00f5es, como o t\u00edtulo e a capa, para que elas s\u00f3 conhe\u00e7am o produto nas lojas&#8221;, diz Andreazza.<\/p>\n<p>Marco Antonio Campos, advogado da tropa de choque de Roberto sobretudo nos poss\u00edveis casos caluniosos, de inj\u00faria, difama\u00e7\u00e3o ou de uso indevido de sua imagem, diz que estar\u00e1 atento no dia do lan\u00e7amento do livro. &#8220;Eu n\u00e3o tenho nenhuma expectativa nem alguma pr\u00e9 orienta\u00e7\u00e3o. Assim que sair o livro, vamos examinar se ele comete algum crime, algum delito que o outro j\u00e1 cometia. Ainda n\u00e3o tem como fazer um ju\u00edzo antecipado.&#8221;<\/p>\n<p>\u00c9 muito prov\u00e1vel que o pr\u00f3prio Roberto n\u00e3o leia sua nova biografia. Muitos acreditam que ele n\u00e3o tenha lido nem a primeira, que mandou retirar das livrarias. O tra\u00e7o controlador da pr\u00f3pria imagem, no entanto, n\u00e3o vem de agora. Uma mat\u00e9ria da jornalista Sonia Abr\u00e3o para uma edi\u00e7\u00e3o da Revista Contigo de 1980 relata a censura pessoal de Roberto a v\u00e1rias partes do programa Quem Tem Medo da Verdade, da TV Record. Para permitir a reexibi\u00e7\u00e3o da edi\u00e7\u00e3o gravada dez anos antes, Roberto fez suas exig\u00eancias. Sentou-se na ilha de edi\u00e7\u00e3o da emissora com express\u00e3o de delegado, e empunhou a tesoura com assustadora destreza.<\/p>\n<p>&#8220;Logo de cara, ele exigiu que fosse retirada sua opini\u00e3o sobre os hippies. Em seguida, cortou o que falou sobre seu casamento com Nice e a parte em que os jurados atacaram seu maior rival naquele ano de 1970, Paulo S\u00e9rgio&#8221;, descreve Sonia. No momento em que reviu um entrevistador perguntar sobre o acidente com sua perna, Roberto, descreve a reportagem, deu um pulo da cadeira. &#8220;Corta, bicho! Corta isso j\u00e1!&#8221;. E mandou mudar tamb\u00e9m a parte em que falava de seu envolvimento sentimental com Wanderl\u00e9a. &#8220;Esse papo n\u00e3o \u00e9 conveniente&#8221;. Antes de concluir sua &#8220;edi\u00e7\u00e3o&#8221;, Roberto mandou retirar as falas do jornalista Arley Pereira, o \u00fanico que o condenava ao final do programa.<\/p>\n<p>A nova biografia deve ser a prova de fogo ao julgamento do caso no STF, em junho de 2015, quando a vota\u00e7\u00e3o se tornou uma pe\u00e7a hist\u00f3rica contrapondo a liberdade de express\u00e3o e de informa\u00e7\u00e3o aos tamb\u00e9m leg\u00edtimos pedidos de direito \u00e0 privacidade. At\u00e9 aqui, nenhuma publica\u00e7\u00e3o assinada por um bi\u00f3grafo trouxe conte\u00fado explosivo a ponto de colocar em teste tal determina\u00e7\u00e3o. A \u00fanica exce\u00e7\u00e3o pode ser considerada disparo de fogo amigo. A autobiografia de Rita Lee (leia mat\u00e9ria abaixo) provocou mais estragos do que qualquer bi\u00f3grafo em 2016. E &#8211; resultado ou n\u00e3o de um amadurecimento diante de biografados e adjacentes &#8211; nenhum processo foi movido. Ou, ao menos, ainda.<\/p>\n<p><b>Liberdade &#8211;\u00a0<\/b>A era p\u00f3s-STF promete p\u00e1ginas quentes. A mesma Record tem na programa\u00e7\u00e3o uma biografia da apresentadora Hebe Camargo, escrita pelo jornalista Artur Xex\u00e9o, e do pol\u00edtico e empres\u00e1rio Teot\u00f4nio Vilela, de Carlos Marchi. A Companhia das Letras tem na agenda, para sair entre 2017 e 2018, as bios do empres\u00e1rio Roberto Marinho (de Leon\u00eancio Nossa, jornalista do Estado), do apresentador Silvio Santos (do tamb\u00e9m jornalista Ricardo Valladares), do pol\u00edtico Carlos Lacerda (de Mario Magalh\u00e3es) e do personagem hist\u00f3rico Tiradentes (de Lucas Figueiredo).<\/p>\n<p>A Globo Livros segue \u00e0 frente do fil\u00e3o religioso que praticamente criou com o blockbuster Padre Marcelo. O jornalista Rodrigo Alvarez, que j\u00e1 vendeu 80 mil c\u00f3pias com a hist\u00f3ria de Padre F\u00e1bio, deve repetir a dose. Assim como a roqueira Rita Lee, que parece ter gostado da brincadeira de escritora e que far\u00e1, agora, um livro ficcional.<\/p>\n<p>O meio parece respirar mais aliviado. &#8220;Muitos editores deveriam estar aguardando esse momento para lan\u00e7ar livros&#8221;, diz Mauro Palermo, diretor da Globo Livros. &#8220;2016 fechou melhor do que esper\u00e1vamos&#8221;, fala Ot\u00e1vio Marques da Costa, da Companhia das Letras. Roberto Feith, editor que acompanhou as audi\u00eancias no STF, diz o seguinte: &#8220;Retomamos o caminho da sanidade e da liberdade respons\u00e1vel de pesquisa e express\u00e3o&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Julio Maria O pior pesadelo de Paulo Cesar de Ara\u00fajo come\u00e7ou na manh\u00e3 de 17 de janeiro de 2007. H\u00e1 exatos dez anos e um dia, Roberto Carlos entrava na Justi\u00e7a com uma queixa crime e um pedido de busca e apreens\u00e3o contra a biografia Roberto Carlos em Detalhes, de sua autoria. 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