{"id":126593,"date":"2017-01-24T09:03:14","date_gmt":"2017-01-24T11:03:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=126593"},"modified":"2017-01-25T15:25:42","modified_gmt":"2017-01-25T17:25:42","slug":"roque-santeiro-sobe-aos-palcos-como-musical","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/roque-santeiro-sobe-aos-palcos-como-musical\/","title":{"rendered":"Roque Santeiro sobe aos palcos como musical premiado"},"content":{"rendered":"<h6 class=\"Assina\"><strong>Ubiratan Brasil<\/strong><\/h6>\n<p>Roque Santeiro vai cravar outro marco em sua hist\u00f3ria a partir de sexta-feira, 27, quando a vers\u00e3o musical estrear no Teatro Faap. Nascida como pe\u00e7a teatral na d\u00e9cada de 1960, depois transformada em novela de TV nos anos 1970 (quando foi censurada pelo governo militar) e 80 (atingindo picos de audi\u00eancia), chega ao palco recheada de can\u00e7\u00f5es compostas originalmente pelo mesmo Dias Gomes (1922-1999) que assina os di\u00e1logos e tamb\u00e9m por Zeca Baleiro. Mais importante: apesar dos personagens ic\u00f4nicos, a montagem atinge o objetivo principal, que \u00e9 se descolar da telenovela e al\u00e7ar voo pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>O texto nasceu primeiro como uma pe\u00e7a de teatro, O Ber\u00e7o do Her\u00f3i, que estrearia em 1965, mas foi proibida pela censura do governo militar &#8211; a cr\u00edtica explicitamente humanista \u00e0 forma como se constroem mitos heroicos baseados em fatos reais incomodou os militares. A trama basicamente apresenta a idolatria que toma conta de uma pequena cidade baiana, dedicada ao cabo Jorge, habitante aclamado por ter morrido com bravura na 2\u00aa Guerra. Na verdade, o que se descobre depois \u00e9 que ele fugiu do front depois de atacado por uma crise nervosa.<\/p>\n<p>Passados dez anos, em 1975, j\u00e1 consagrado como autor de telenovelas, Dias Gomes disfar\u00e7adamente adaptou a pr\u00f3pria pe\u00e7a e a transformou em Roque Santeiro, cujo primeiro cap\u00edtulo nem sequer foi exibido: no dia 27 de agosto daquele ano, a Globo recebeu um of\u00edcio do Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social (Dops), censurando a novela &#8211; o governo descobriu que a pe\u00e7a era a origem do folhetim.<\/p>\n<p>Exatos 36 cap\u00edtulos j\u00e1 tinham sido gravados com Lima Duarte no papel do deputado Sinhozinho Malta, que comanda politicamente a cidade e \u00e9 amante de Porcina (Betty Faria), vi\u00fava forjada do milagreiro Roque (Francisco Cuoco). Ele volta a Asa Branca 17 anos depois de ser canonizado como um her\u00f3i morto e provoca um rebuli\u00e7o, pois p\u00f5e em risco toda uma estrutura econ\u00f4mica fincada em sua santidade &#8211; tramoia da qual at\u00e9 a Igreja participa.<\/p>\n<p>Finalmente, em 1985, j\u00e1 na fase de abertura pol\u00edtica, a novela foi exibida, agora com Regina Duarte como Porcina e Jos\u00e9 Wilker no papel de Roque Santeiro. Um sucesso retumbante, cravando em m\u00e9dia 75% da audi\u00eancia da TV. E, terminado esse trabalho, Dias Gomes deixou, segundo o produtor Edinho Rodrigues, uma vers\u00e3o em musical nunca encenada, no formato de uma opereta popular.<\/p>\n<p>Foi esse material que chegou \u00e0s m\u00e3os da diretora D\u00e9bora Dubois, que assumiu a miss\u00e3o de n\u00e3o apresentar no palco um remake da telenovela.<\/p>\n<p>E a tarefa foi muito bem cumprida &#8211; D\u00e9bora apoderou-se dos elementos essenciais dos personagens, mas retrabalhou tudo, acrescentando novas qualidades e oferecendo um produto final marcado pela originalidade.<\/p>\n<p>No palco, Roque Santeiro deve seu sucesso ao tom p\u00edcaro, tomado da farsa medieval, e reciclado no Nordeste do Pa\u00eds pelo talento imenso de Dias Gomes. Texto enxuto, engra\u00e7ado, mordaz, no qual Gomes atinge aquele ponto ideal (rarissimamente alcan\u00e7ado) que agrada tanto ao gosto popular quanto ao refinado. D\u00e9bora conta que eliminou apenas algumas partes do in\u00edcio do original, j\u00e1 defasadas.<\/p>\n<p>Assim, com tais elementos, dirigiu um grupo de atores que, al\u00e9m da fin\u00edssima capacidade de cantar, comprova uma vez mais seu talento interpretativo. A come\u00e7ar por Jarbas Homem de Mello, que teve a dif\u00edcil miss\u00e3o de viver Chico Malta, o Sinhozinho eternizado por Lima Duarte. Em cena, Jarbas equilibra com rara felicidade o pol\u00edtico astuto, que n\u00e3o suporta ser passado para tr\u00e1s. Isso porque destrinchou o texto e descobriu todas as ricas possibilidades para criar um grande personagem.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m desafiada, Livia Camargo criou uma not\u00e1vel vi\u00fava Porcina com um histrionismo pr\u00f3prio, matreiro e at\u00e9 mais malicioso que o guardado na lembran\u00e7a televisiva, trabalho libertador de Regina Duarte.<\/p>\n<p>O humor \u00e9 essencial nesse tipo de mensagem, da\u00ed a presen\u00e7a marcante de N\u00e1bia Villela, que vive Dona Pombinha, a mulher do prefeito Florindo Abelha, hilariante cria\u00e7\u00e3o de Dagoberto Feliz. Se ela traz o tom tr\u00e1gico \u00e0 farsa, marcando presen\u00e7a, ele evoca aquele tipo weberiano do safado simp\u00e1tico, que contorna as situa\u00e7\u00f5es sem chegar ao conflito, intermedeia os contr\u00e1rios, sempre levando alguma vantagem pessoal. Memor\u00e1vel encena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o podem ser esquecidas tamb\u00e9m as interpreta\u00e7\u00f5es de Luciana Carnielli (Matilde, a dona do bordel) e Mel Lisboa, no papel de Pombinha, que evitam com gra\u00e7a a caricatura. Tamb\u00e9m Fl\u00e1vio Tolezani que, como Roque, \u00e9 o \u00fanico que n\u00e3o pode abusar do humor, pois seu personagem \u00e9 o \u00fanico realista.<\/p>\n<p>A trilha criada por Zeca Baleiro revela-se exemplar e respeitosa \u00e0s brejeiras can\u00e7\u00f5es originais de Dias Gomes. Detalhe que s\u00f3 engrandece o musical.<\/p>\n<p><strong>ROQUE SANTEIRO<\/strong><br \/>\nTeatro Faap. Rua Alagoas, 903. Tel.: 3662-7233. 6\u00aa e s\u00e1b., 21h. Dom., 18h.<br \/>\nR$ 80 \/ R$ 90 (R$ 30 dias 27\/1 e 3\/2). At\u00e9 7\/5<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ubiratan Brasil Roque Santeiro vai cravar outro marco em sua hist\u00f3ria a partir de sexta-feira, 27, quando a vers\u00e3o musical estrear no Teatro Faap. 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