{"id":127089,"date":"2017-01-30T03:51:04","date_gmt":"2017-01-30T05:51:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=127089"},"modified":"2017-01-30T03:52:09","modified_gmt":"2017-01-30T05:52:09","slug":"novo-espaco-para-as-obras-de-mircea-eliade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/novo-espaco-para-as-obras-de-mircea-eliade\/","title":{"rendered":"Novo espa\u00e7o na estante para as obras de Mircea"},"content":{"rendered":"<p><strong>Antonio Gon\u00e7alves Filho<\/strong><\/p>\n<p>O escritor romeno Mircea Eliade (1907-1986) \u00e9 reconhecido como um dos grandes especialistas em hist\u00f3ria das religi\u00f5es, autor de cl\u00e1ssicos como O Mito do Eterno Retorno (1949), Mefist\u00f3feles e o Andr\u00f3gino (1957) e O Sagrado e o Profano (1957). Sua obra ficcional \u00e9 menos comentada, mas, pouco a pouco, ganha espa\u00e7o nas estantes das livrarias brasileiras.<\/p>\n<p>Fernando Klabin, tradutor respons\u00e1vel pela difus\u00e3o desse legado, assinou (em 2011) a vers\u00e3o para o portugu\u00eas de Senhorita Cristina (Editora Tordesilhas) e responde agora por uma das mais originais obras de fic\u00e7\u00e3o de Eliade, Uma Outra Juventude (1978), acompanhada no livro de outra pequena mas igualmente perturbadora narrativa, Dayan (1980), as duas do \u00faltimo per\u00edodo de vida do autor.<\/p>\n<p>Uma Outra Juventude ganhou uma adapta\u00e7\u00e3o para o cinema em 2007, dirigida por Francis Ford Coppola. Seu filme Velha Juventude (Youth Without Youth) foi recebido sem entusiasmo pela cr\u00edtica a n\u00e3o chegou a conquistar o p\u00fablico em sua estreia (rendeu algo em torno de US$ 2,6 milh\u00f5es), apesar do requinte formal (o fot\u00f3grafo \u00e9 o romeno Mihai Malaimare Jr.), do \u00f3timo elenco (Tim Roth, Bruno Ganz) e, obviamente, da capacidade intelectual de Coppola, que buscou ser fiel \u00e0s complexas quest\u00f5es filos\u00f3ficas tratadas por Eliade em seu livro, fazendo poucas concess\u00f5es ao espectador m\u00e9dio.<\/p>\n<p>Por vezes, esse mesmo espectador tem a (justa) impress\u00e3o de que o montador Walter Murch (o mesmo de Apocalypse Now) tomou um ou dois martinis a mais ao editar o filme, invertendo o tempo da a\u00e7\u00e3o. Para complicar, o protagonista da hist\u00f3ria descobre que tem um doppelg\u00e4nger, um duplo nada parecido com os de Edgar Allan Poe &#8211; e mais pr\u00f3ximo de um vulto projetado por seu inconsciente. Como mostrar isso no cinema sem que a vis\u00e3o dessa estranha figura evoque um filme de terror barato de Roger Corman?<\/p>\n<p>Coppola bem que tentou, mas o resultado n\u00e3o se compara \u00e0 narrativa liter\u00e1ria de Eliade, que sintetiza num mesmo personagem o drama do envelhecimento, o desconforto da exclus\u00e3o social, a d\u00favida sobre a transcend\u00eancia e a ang\u00fastia do tempo perdido. Na autobiografia de Eliade, ali\u00e1s, fica evidente o terror que a hist\u00f3ria representou em sua vida, o peso de ter testemunhado um genoc\u00eddio, passado fome, ter sido injustamente preso e, ainda assim, encontrar um motivo para viver no ex\u00edlio &#8211; o autor romeno morreu nos EUA e nunca voltou \u00e0 terra natal, embora insistisse em manter esse v\u00ednculo (seus livros foram escritos em romeno).<\/p>\n<p>De certo modo, o professor de Uma Outra Juventude, Dominic Matei, guarda tra\u00e7os de Eliade, ainda que o personagem, ao contr\u00e1rio do autor, nunca tenha publicado uma linha &#8211; e ele planejou um livro durante toda a vida, sobre a origem da linguagem. Matei \u00e9 um septuagen\u00e1rio que, na P\u00e1scoa da Ressurrei\u00e7\u00e3o, em 1938, \u00e9 atingido por um raio ao atravessar a rua. O simbolismo da data deve ser creditado \u00e0 pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o religiosa de Eliade, crist\u00e3o profundamente marcado pela leitura do psiquiatra Carl G. Jung, que, ali\u00e1s, conheceu e entrevistou nos anos 1950.<\/p>\n<p>Decidido a se matar, o acad\u00eamico Matei desembarca em Bucareste e, quase fulminado, \u00e9 levado a um hospital, onde, por milagre, n\u00e3o apenas se recupera como rejuvenesce, voltando aos 30 anos, ap\u00f3s receber no corpo a descarga de energia do raio. Mais: desenvolve superpoderes que deixam at\u00f4nitos n\u00e3o s\u00f3 seu m\u00e9dico e os enfermeiros como agentes secretos de Hitler, que planejam sequestrar o super-homem para estudar seu caso em territ\u00f3rio alem\u00e3o.<\/p>\n<p>O prof\u00e9tico Mircea Eliade costumava dizer que o raio \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o xam\u00e2nica da natureza. Ao sair ileso do acidente e escapar do processo convencional de envelhecimento, Matei conquista a capacidade de entrar no tempo m\u00edtico pela intermedia\u00e7\u00e3o de seu duplo. Vira, enfim, a demonstra\u00e7\u00e3o ficcional did\u00e1tica das teorias do escritor romeno, expressas em O Mito do Eterno Retorno e O Sagrado e o Profano.<\/p>\n<p>No primeiro ensaio, que trata da experi\u00eancia existencial do ser diante do tempo e da hist\u00f3ria, Eliade conclui que o homem contempor\u00e2neo tem extrema dificuldade de estabelecer sintonia com os ciclos naturais, ao contr\u00e1rio de nossos antepassados. No segundo, o pensador reflete sobre o valor especial que um lugar sagrado tem para o homem religioso, abordando em particular o papel do xamanismo como forma arcaica de \u00eaxtase &#8211; e a rela\u00e7\u00e3o de Matei com sua persona, cuja prova de exist\u00eancia s\u00e3o duas rosas surgidas do nada, \u00e9, de fato, uma experi\u00eancia xam\u00e2nica, assim como o dom de falar outras l\u00ednguas (inclusive as mortas) que tem o acad\u00eamico Matei (outro paralelo com a vida real do poliglota Eliade).<\/p>\n<p>Houve quem identificasse nessa associa\u00e7\u00e3o certa par\u00e1bola gn\u00f3stica disfar\u00e7ada do autor, empenhado em alertar a sociedade contempor\u00e2nea sobre as consequ\u00eancias da dessacraliza\u00e7\u00e3o no mundo moderno. Seu personagem Matei salta do desencanto para o deslumbramento ao ganhar a chance de uma segunda vida &#8211; paradoxalmente, vinda do c\u00e9u por meio de um raio. J\u00e1 em Dayan, a narrativa mais curta, essa mudan\u00e7a se d\u00e1 por meio da figura do m\u00edtico personagem do judeu errante, que ajuda um jovem matem\u00e1tico a decifrar o complexo teorema de G\u00f6del. Sem a interfer\u00eancia do sobrenatural, parece dizer Eliade, estamos condenados ao nosso estado natural: a mais profunda e tr\u00e1gica ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p>&#8216;UMA OUTRA JUVENTUDE&#8217;<br \/>\nAutor: Mircea Eliade<br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o: Fernando Klabin<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antonio Gon\u00e7alves Filho O escritor romeno Mircea Eliade (1907-1986) \u00e9 reconhecido como um dos grandes especialistas em hist\u00f3ria das religi\u00f5es, autor de cl\u00e1ssicos como O Mito do Eterno Retorno (1949), Mefist\u00f3feles e o Andr\u00f3gino (1957) e O Sagrado e o Profano (1957). 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