{"id":127192,"date":"2017-01-31T07:54:14","date_gmt":"2017-01-31T09:54:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=127192"},"modified":"2017-01-31T10:35:18","modified_gmt":"2017-01-31T12:35:18","slug":"mae-de-alcacuz-fala-da-dor-de-enterrar-filho-sem-cabeca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/mae-de-alcacuz-fala-da-dor-de-enterrar-filho-sem-cabeca\/","title":{"rendered":"M\u00e3e exp\u00f5e sua dor de enterrar o filho sem a cabe\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p><strong>Sumaia Villela<\/strong><\/p>\n<p>O massacre ocorrido na penitenci\u00e1ria de Alca\u00e7uz no dia 14 de janeiro, que deixou pelo menos 26 mortos, exp\u00f4s falhas no sistema penitenci\u00e1rio, a dor da perda e questionamentos das fam\u00edlias das v\u00edtimas. A Ag\u00eancia Brasil ouviu hist\u00f3rias de quem perdeu filhos, maridos, primos e amigos. Um dos dramas que os parentes enfrentam \u00e9 enterrar os corpos degolados.<\/p>\n<p>Cansada e desgastada, a dona de casa Eliene Pereira, 45 anos, de Santa Cruz, munic\u00edpio a cerca de 120 km de Natal, enterrou o corpo do filho no dia 20 de janeiro. Ela precisou ir \u00e0 capital potiguar por tr\u00eas dias seguidos para reconhecer Diego Felipe Pereira da Silva, 25 anos, e liberar o corpo no Instituto T\u00e9cnico-Cient\u00edfico de Per\u00edcia (Itep). O jovem foi degolado durante a rebeli\u00e3o e recomendaram que a m\u00e3e aguardasse as buscas pela cabe\u00e7a. Na sexta-feira, ela recebeu uma liga\u00e7\u00e3o comunicando a mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cEu fui, quando cheguei l\u00e1 reconheci o corpo mesmo, porque tinha visto s\u00f3 por imagem. Levei na funer\u00e1ria, abriram o saco, a\u00ed conheci que era ele mesmo, meu menino. Sem a cabe\u00e7a. Ela [a funcion\u00e1ria do ITEP] mandou trazer eu &#8216;truxe&#8217; sem a cabe\u00e7a. Fazer o qu\u00ea?\u201d, conta. \u201cEra horr\u00edvel o corpo do meu filho, fiquei muito comovida. Mas enquanto eu n\u00e3o visse eu n\u00e3o acreditava. Queria ver ele, ver as pernas, os bra\u00e7os. Mesmo que n\u00e3o tivesse a cabe\u00e7a, mas eu queria ver a realidade\u201d.<\/p>\n<p>Por causa do estado avan\u00e7ado de decomposi\u00e7\u00e3o, a funer\u00e1ria recomendou a Eliene que n\u00e3o realizasse o vel\u00f3rio e enterrasse o corpo o quanto antes, sem despedida, \u00e0 noite, sem a fam\u00edlia e os amigos. Mesmo assim, a m\u00e3e levou o filho \u00e0 sua casa pela \u00falitma vez. \u201cMeu filho passou um ano fora. Est\u00e1 fazendo justamente hoje, um ano e um m\u00eas. Ia sair em mar\u00e7o\u201d, disse ela h\u00e1 uma semana. \u201cEles me deram o caix\u00e3o vedado todinho e colocaram um produto. At\u00e9 falaram &#8216;n\u00e3o sei como a senhora vai aguentar passar a noite com ele dentro de casa&#8217;. Eu disse &#8216;pode deixar, se ele tiver podre como for eu quero que ele passe a noite em casa&#8217;\u201d.<\/p>\n<p>No dia seguinte, nas primeiras horas da manh\u00e3, Eliene levou o corpo de Diego ao cemit\u00e9rio. Rodeada de curiosos, Eliene pediu para ver o filho pela \u00faltima vez antes de enterrar o corpo. N\u00e3o havia mortalha, roupa, nada. O saco do necrot\u00e9rio encobria o corpo. \u201c[O caix\u00e3o] passou uns 5 minutos aberto. Comecei a endoidecer, puxando ele de dentro do saco. A\u00ed pronto, fecharam e enterraram. \u00c9 muito dif\u00edcil enterrar um filho sem a cabe\u00e7a.&#8221;<\/p>\n<p>Outras fam\u00edlias ainda tinham esperan\u00e7a de que a cabe\u00e7a fosse encontrada, e adiaram o enterro. A esposa do detento M.P.S.N., morto aos 22 anos, que preferiu manter o anonimato dela e do marido, tamb\u00e9m n\u00e3o viu o corpo, s\u00f3 imagens. \u201c\u00c9 uma decis\u00e3o que tem de ser tomada por toda a fam\u00edlia. Ele tem uma fam\u00edlia que o amava muito, assim como eu tamb\u00e9m o amo muito. Eu n\u00e3o queria que fosse dessa maneira, mas acho que o sofrimento ser\u00e1 maior se n\u00e3o sepultar\u201d, disse a universit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Com a voz fraca, pausada, a estudante prefere falar do futuro com que o casal sonhou. Namorados desde a adolesc\u00eancia, ela tentava mostrar a M.P. que ele deveria deixar a delinqu\u00eancia. \u201cQuando eu o conheci, voltei a estudar para incentivar. Comecei minha faculdade. Isso deixava ele muito feliz, era uma for\u00e7a que eu dava para ele, estudando e trabalhando, mostrando para ele que tem como voc\u00ea viver dignamente sem querer o que n\u00e3o \u00e9 seu\u201d.<\/p>\n<p>O marido dela estava preso por dois crimes: o roubo de uma moto, com pena no semiaberto. Depois, ele foi preso novamente por subtrair um celular e migrou para o regime fechado. H\u00e1 tr\u00eas anos estava preso em Alca\u00e7uz, dos quais dois anos e cinco meses no Pavilh\u00e3o 4 \u2013 onde ocorreu o massacre. Sairia no fim do ano, segundo a esposa. \u201cJ\u00e1 estava tudo planejado pela gente, a fam\u00edlia, para quando ele sa\u00edsse. Perto da faculdade que eu fa\u00e7o tem uma escola de Ensino de Jovens e Adultos. A gente j\u00e1 tinha combinado que ele voltaria a estudar l\u00e1. J\u00e1 tinha falado com amigos para conseguir um emprego para ele\u201d, lembra.<\/p>\n<p>Agora, a vi\u00fava diz que o pr\u00f3prio futuro est\u00e1 incerto. \u201cTudo o que eu planejava era para viver com ele. O concurso que eu pensava em passar fora do Rio Grande do Norte era para ir com ele. N\u00e3o h\u00e1 mais para qu\u00ea seguir esses planos. Minha cabe\u00e7a est\u00e1 muito confusa\u201d.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-127194\" src=\"http:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/brasil-rn-rebeliao-alcacuz-sexto-dia-20170119-10-copy.jpg\" alt=\"brasil-rn-rebeliao-alcacuz-sexto-dia-20170119-10-copy\" width=\"920\" height=\"613\" srcset=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/brasil-rn-rebeliao-alcacuz-sexto-dia-20170119-10-copy.jpg 920w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/brasil-rn-rebeliao-alcacuz-sexto-dia-20170119-10-copy-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/brasil-rn-rebeliao-alcacuz-sexto-dia-20170119-10-copy-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/brasil-rn-rebeliao-alcacuz-sexto-dia-20170119-10-copy-696x464.jpg 696w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/brasil-rn-rebeliao-alcacuz-sexto-dia-20170119-10-copy-630x420.jpg 630w\" sizes=\"auto, (max-width: 920px) 100vw, 920px\" \/><\/p>\n<p><strong>\u201cTenho<\/strong> <strong>que<\/strong> <strong>ter<\/strong> <strong>direitos<\/strong>\u201d &#8211; Al\u00e9m da dor da perda, todos reclamam do que chamam de omiss\u00e3o do Estado, de uma poss\u00edvel facilita\u00e7\u00e3o do ataque e do julgamento da sociedade. Muitas fam\u00edlias relatam que entre os mortos no pres\u00eddio nem todos tinham liga\u00e7\u00e3o com a fac\u00e7\u00e3o Sindicato do Crime do RN, que controla o Pavilh\u00e3o 4 e \u00e9 rival do Primeiro Comando da Capital (PCC).<\/p>\n<p>\u201cNem todos que morreram eram integrantes dessa fac\u00e7\u00e3o criminosa. Muitos s\u00f3 estavam ali cumprindo sua pena para sair e lutar contra todo esse sistema e tentar se recuperar. Porque a m\u00eddia [&#8230;]eu tinha escolhido n\u00e3o falar sobre isso, porque eles n\u00e3o divulgam o que a gente diz, s\u00f3 o que a sociedade quer ver. Porque, para todo mundo, quem morreu ali foram marginais, bandidos. Bandido bom \u00e9 bandido morto. Mas desde que esse bandido n\u00e3o seja seu irm\u00e3o, seu marido, seu primo\u201d, disse a esposa de M.P.<\/p>\n<p>A estudante tamb\u00e9m questiona as circunst\u00e2ncias do ataque, porque desde novembro o marido havia contado que tinha medo. Para ela, as mortes poderiam ter sido evitadas. \u201cQuando aconteceu o massacre em Manaus foi quando eu fiquei com mais medo e pedi para ele sair mesmo. Ele dizia &#8216;mas amor, eu n\u00e3o sou de nada disso&#8217;. &#8216;Mas quando eles vierem n\u00e3o v\u00e3o perguntar quem \u00e9 e quem n\u00e3o \u00e9&#8217;, disse para ele. &#8220;A\u00ed ele falou que ia pensar. Quando pediu [a transfer\u00eancia] n\u00e3o era mais autorizado ningu\u00e9m sair\u201d. A vi\u00fava disse que a conversa foi no dia 8 de mar\u00e7o.<\/p>\n<p>A dona de casa Eliene tamb\u00e9m questiona por que o filho foi transferido para Alca\u00e7uz. Diego foi preso pelo furto de uma bolsa. Cumpriu um ano na cadeia de Santa Cruz at\u00e9 ganhar o direito do semiaberto. Ele passou tr\u00eas noites dormindo no centro de deten\u00e7\u00e3o; na quarta, anunciou que ficaria em casa para, segundo a m\u00e3e, ficar perto da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>\u201cEu insistia, mas ele \u00e9 meio teimoso. Quando foi um m\u00eas vieram pegar ele. A\u00ed colocaram ele logo num canto daquele, perigoso, Alca\u00e7uz. Porque eu acho assim, meu filho nunca vendeu droga, nunca matou gente, era um menino do semiaberto. S\u00f3 porque n\u00e3o foi dormir botaram junto de uma fac\u00e7\u00e3o daquela. Meu filho n\u00e3o tinha nenhuma fac\u00e7\u00e3o. Meu filho era usu\u00e1rio [de droga], somente. Eu achei muito errado, muito\u201d.<\/p>\n<p>Diego tamb\u00e9m avisava para a m\u00e3e h\u00e1 meses que a situa\u00e7\u00e3o estava tensa e havia amea\u00e7a de invas\u00e3o do pr\u00e9dio por membros do PCC. \u201cEle estava dizendo que estava muito perigoso: &#8216;pe\u00e7a para mim voltar pro [pavilh\u00e3o] 2&#8217;. Ele estava l\u00e1 e botaram pro 4. Eu disse: &#8216;termina a\u00ed tua cadeia nesse pavilh\u00e3o&#8217;. Ele disse: &#8216;m\u00e3e, t\u00e1 a maior bagun\u00e7a aqui, o PCC quer invadir e matar a gente. Chore por eu (sic), porque eu posso n\u00e3o chegar em casa vivo&#8217;\u201d, narra Eliene.<\/p>\n<p><strong>Investiga\u00e7\u00e3o<\/strong> &#8211; A Pol\u00edcia Civil do Rio Grande do Norte investiga como come\u00e7ou o massacre, e como os presos do Pavilh\u00e3o 5 &#8211; pres\u00eddio Rog\u00e9rio Coutinho Madruga, &#8211; conseguiram chegar at\u00e9 o Pavilh\u00e3o 4. Para as fam\u00edlias, o Estado j\u00e1 sabia do conflito iminente e n\u00e3o o impediu.<\/p>\n<p>\u201cCom certeza o governo \u00e9 respons\u00e1vel. L\u00e1 era para ter seguran\u00e7a. Meu filho n\u00e3o foi vivo para l\u00e1? Era para ter voltado vivo. E o governo era para ter garantido. Ele n\u00e3o tinha nada a ver com as brigas l\u00e1. Ele n\u00e3o tava preso? Eles tavam tudo solto l\u00e1, igual que fosse no meio da rua. As celas de l\u00e1 n\u00e3o tinham port\u00e3o, nada. N\u00e3o era para ser tudo dentro das grades, fechadinho? E o total de presos era muito grande l\u00e1\u201d, argumenta a dona de casa de Santa Cruz.<\/p>\n<p>&#8220;Que \u00f3rg\u00e3o eu procuro, a senhora sabe?&#8221; &#8211; perguntou a dona de casa \u00e0 rep\u00f3rter. Sem saber quais s\u00e3o seus direitos, mas decidida a lutar por eles, Eliene tentar\u00e1 ser indenizada. \u201cFoi um filho que eu perdi. Meu filho. \u00c9 um peda\u00e7o de mim meu filho. Tenho que ter direitos\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sumaia Villela O massacre ocorrido na penitenci\u00e1ria de Alca\u00e7uz no dia 14 de janeiro, que deixou pelo menos 26 mortos, exp\u00f4s falhas no sistema penitenci\u00e1rio, a dor da perda e questionamentos das fam\u00edlias das v\u00edtimas. A Ag\u00eancia Brasil ouviu hist\u00f3rias de quem perdeu filhos, maridos, primos e amigos. 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