{"id":127273,"date":"2017-02-01T00:26:59","date_gmt":"2017-02-01T02:26:59","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=127273"},"modified":"2017-02-01T08:31:01","modified_gmt":"2017-02-01T10:31:01","slug":"jacy-uma-historia-que-se-embaraca-com-realidade-atual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/jacy-uma-historia-que-se-embaraca-com-realidade-atual\/","title":{"rendered":"Jacy, uma hist\u00f3ria que se embara\u00e7a com a realidade"},"content":{"rendered":"<div id=\"Corpo\">\n<h6 class=\"Assina\"><strong>Maria Eug\u00eania de Menezes<\/strong><\/h6>\n<p>Hist\u00f3ria \u00e9 uma palavra simples. Mas s\u00e3o muitos os seus significados. Pode-se usar o termo para falar de fatos grandiosos: de uma \u00e9poca, do passado de um povo e de um pa\u00eds. Serve tamb\u00e9m para dar conta de miudezas: a trajet\u00f3ria de um \u00fanico indiv\u00edduo, uma aventura particular, a narrativa de fatos fict\u00edcios ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Todas essas acep\u00e7\u00f5es de hist\u00f3ria entram em jogo em Jacy, espet\u00e1culo do Grupo Carmin, de Natal, Rio Grande do Norte. Na montagem, a vida de uma mulher se embaralha ao panorama do Brasil no s\u00e9culo 20, sua biografia abre espa\u00e7o para contar as transforma\u00e7\u00f5es de uma cidade, que saltou de prov\u00edncia esquecida a metr\u00f3pole ca\u00f3tica.<\/p>\n<p>A realidade alimenta essa obra. Para cri\u00e1-la, a companhia partiu de objetos abandonados. Dentro de uma pequena maleta, deixada no lixo de uma avenida de Natal, os atores encontraram um cart\u00e3o com o telefone de um motorista de t\u00e1xi, recibos dos Correios, pr\u00f3teses dent\u00e1rias, a radiografia de uma clav\u00edcula quebrada. Vest\u00edgios de uma desconhecida que foram sendo recompostos em uma teia que combina relatos, cartas, depoimentos gravados e, o mais importante, suposi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>S\u00e3o antigas e bem conhecidas as pr\u00e1ticas documentais utilizadas nos palcos. Remontam pelo menos ao s\u00e9culo 19 e encontraram consist\u00eancia no trabalho do encenador alem\u00e3o Erwin Piscator, o primeiro a escrever sobre um teatro documental. O que Jacy faz \u00e9 valer-se de todo esse conhecimento acumulado sobre o uso de arquivos e fontes ver\u00eddicas em cena, mas sem abrir m\u00e3o da possibilidade de imaginar.<\/p>\n<p>Conhecemos os nomes dos pais, av\u00f3s e irm\u00e3os de Jacy Lisboa Lucena. Sabemos que nasceu em Cear\u00e1 Mirim, em 1920, que viveu em Natal durante a 2.\u00aa Guerra, que se apaixonou por um capit\u00e3o do ex\u00e9rcito americano. Depois, foi para o Rio, assistiu \u00e0 ascens\u00e3o do regime militar, reencontrou o namorado da juventude &#8211; passados 20 anos &#8211; e com ele se casou. Aposentada, voltou a Natal, encontrou tudo mudado, e morreu ap\u00f3s uma queda, aos 90 anos.<\/p>\n<p>Mas o que essa menina criada em um engenho de a\u00e7\u00facar pensava do amor, da morte, da pol\u00edtica? Sabemos isso? Os fil\u00f3sofos Pablo Capistrano e Iracema Macedo escreveram textos que alimentam a dramaturgia, assinada em conjunto com o tamb\u00e9m ator e diretor Henrique Fontes. Ali, a fic\u00e7\u00e3o vem cimentar as fendas deixadas pelo real. O que n\u00e3o se explica pode ser imaginado. Mas o territ\u00f3rio da imprecis\u00e3o \u00e9 maior. O que se conhece sobre essa personagem tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 neutro. Invariavelmente, h\u00e1 um mediador que se interp\u00f5e em cada carta e depoimento. Qual \u00e9 a historiografia poss\u00edvel? H\u00e1 muitas camadas a recobrir o real.<\/p>\n<p>T\u00e3o importante quanto o que se criou foi o caminho para faz\u00ea-lo. Ao manter os rastros da sua escritura, o projeto do Carmin descola-se de formatos conhecidos, embaralha g\u00eaneros e entrega ao espectador a fun\u00e7\u00e3o de arque\u00f3logo desse invent\u00e1rio de fragmentos. O que se construiu \u00e9 uma pe\u00e7a sobre uma mulher, mas tamb\u00e9m sobre uma cidade, sobre envelhecer, sobre o teatro. Uma fant\u00e1stica pequena hist\u00f3ria que cont\u00e9m todas as outras.<\/p>\n<p>Com suas hesita\u00e7\u00f5es calculadas, os int\u00e9rpretes parecem nos dizer que aceitaram aquilo que n\u00e3o entenderam. Poder\u00edamos ter ido por aqui, mas fomos por ali. Ningu\u00e9m sabe, de fato. A atriz Quit\u00e9ria Kelly at\u00e9 se arrisca a representar Jacy, imitar como seriam seus gestos, sua voz, mas n\u00e3o se demora muito na personagem. Narra\u00e7\u00e3o, representa\u00e7\u00e3o e coment\u00e1rio se intercalam constantemente.<\/p>\n<p>Nesse contexto, tudo aquilo que se diz ocupa papel central. Estamos diante de uma encena\u00e7\u00e3o calcada nas palavras e nos mundos que apenas as palavras podem revelar. Mas as imagens n\u00e3o foram, por isso, esvaziadas. A cenografia \u00e9 erigida diante do p\u00fablico. Elege objetos prosaicos projetados em tela grande, flagra o efeito surpreendente das coisas mais modestas. Como se desse corpo e materialidade ao mist\u00e9rio que atravessa o texto.<\/p>\n<p>JACY<\/p>\n<p>Sesc Pinheiros. Audit\u00f3rio. Rua Paes Leme, 195, tel. 3095-7400. 5\u00aa a s\u00e1b., \u00e0s 20h30. Ingressos: de R$ 7,50 a R$ 25. At\u00e9 18\/2.<\/p>\n<p>As informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o do jornal <b>O Estado de S. Paulo.<\/b><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Eug\u00eania de Menezes Hist\u00f3ria \u00e9 uma palavra simples. Mas s\u00e3o muitos os seus significados. 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