{"id":127797,"date":"2017-02-05T08:59:14","date_gmt":"2017-02-05T10:59:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=127797"},"modified":"2017-02-05T08:59:47","modified_gmt":"2017-02-05T10:59:47","slug":"palmas-para-andrea-beltrao-no-papel-de-antigona","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/palmas-para-andrea-beltrao-no-papel-de-antigona\/","title":{"rendered":"Palmas para Andrea Beltr\u00e3o no brilhante papel de Ant\u00edgona"},"content":{"rendered":"<p><strong>Ubiratan Brasil<\/strong><\/p>\n<p>Andrea Beltr\u00e3o j\u00e1 se acostumou &#8211; ao final de cada sess\u00e3o de Ant\u00edgona, mon\u00f3logo que ela apresenta na sala menor do Teatro Poeira, o Poeirinha, no Rio, ela ouve de algum espectador: &#8220;Adorei aquela frase que voc\u00ea acrescentou para deixar o texto mais moderno&#8221;. Ao descobrir qual \u00e9 a tal frase, a atriz invariavelmente responde, para espanto do espectador: &#8220;N\u00e3o inventei nada, est\u00e1 exatamente assim no original grego&#8221;. Nada que incomode Andrea Beltr\u00e3o. &#8220;S\u00f3 me deixa mais feliz por ter feito a escolha certa&#8221;, diverte-se.<\/p>\n<p>Sob a precisa dire\u00e7\u00e3o de Amir Haddad, Andrea se atira de corpo e alma no fascinante mundo criado pelo dramaturgo grego S\u00f3focles h\u00e1 mais de 2 mil anos &#8211; escrita no ano de 441 a.C., Ant\u00edgona mostra como a filha de \u00c9dipo e Jocasta quer enterrar dignamente, e de acordo com a religi\u00e3o, seu irm\u00e3o Polinice. Com isso, por\u00e9m, ela contraria Creonte, rei da cidade de Tebas, que havia determinado que o corpo deveria permanecer insepulto. Ant\u00edgona desafia Creonte, for\u00e7ando o enterro do irm\u00e3o, mas termina presa e obrigada a responder por tal desacato.<\/p>\n<p>&#8220;Tudo o que est\u00e1 no texto original era exatamente o que eu e o Amir quer\u00edamos dizer nesse momento&#8221;, conta Andrea, citando as frases que mais provocam como\u00e7\u00e3o no p\u00fablico, como: &#8220;Em mim, s\u00f3 manda um rei, o que constr\u00f3i pontes e destr\u00f3i muralhas&#8221;, alus\u00e3o direta ao presidente americano Donald Trump. Ou ainda: &#8220;Apenas o governante que respeita as leis de sua gente e a divina justi\u00e7a dos costumes mant\u00e9m a sua for\u00e7a, porque mant\u00e9m a sua medida humana&#8221;. S\u00e3o frases que, t\u00e3o logo pronunciadas, provocam um frisson na pequena plateia de 40 pessoas, mesmo em completo e respeitoso sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Em suas trag\u00e9dias, S\u00f3focles mostra dois tipos de sofrimento: o que decorre do excesso de paix\u00e3o e o que \u00e9 consequ\u00eancia de um acontecimento acidental. E Ant\u00edgona apresenta, entre outros detalhes, o conflito entre as leis dos deuses e as leis dos homens. &#8220;O texto atravessa o tempo e segue com uma atualidade incr\u00edvel&#8221;, constata Andrea que, ao contr\u00e1rio do que possa parecer, n\u00e3o planejou todo esse caminho certeiro.<\/p>\n<p>Na verdade, foi quase como algo intuitivo &#8211; quando terminava de gravar a \u00faltima temporada da s\u00e9rie Tapas &amp; Beijos, ainda em 2015, a atriz buscava um texto para encenar no palco. As experi\u00eancias anteriores foram poderosas &#8211; em 2012, protagonizou Jacinta, sobre a pior atriz do mundo, t\u00e3o ruim que foi capaz da matar a Rainha de Portugal. Dois anos depois, uniu-se a Malu Gali e Mariana Lima, atrizes de igual gabarito, para viver o grupo de amigas que tenta superar o luto pela morte de uma quarta colega e, ao mesmo tempo, busca sentido para as pr\u00f3prias vidas. A pe\u00e7a se chamava N\u00f4mades.<\/p>\n<p>Assim, quando iniciando f\u00e9rias da TV, ela foi incentivada pela colega de s\u00e9rie, Fernanda Torres, que, sempre que poss\u00edvel, apresenta o mon\u00f3logo A Casa dos Budas Ditosos. &#8220;Eu ficava com inveja de ela poder, assim de repente, levar o espet\u00e1culo para algum teatro e apresent\u00e1-lo novamente. O problema \u00e9 que eu n\u00e3o pensava em fazer nenhum mon\u00f3logo&#8221;, conta Andrea que, questionada por Fernanda sobre qual texto sonhava montar, foi empurrada pela amiga a encenar Ant\u00edgona quando mencionou o texto de S\u00f3focles.<\/p>\n<p>Vencido o primeiro entrave, surgiu o segundo. Ainda que tenha escolhido a tradu\u00e7\u00e3o de Mill\u00f4r Fernandes &#8211; um exemplo de vers\u00e3o, aquela que adapta o pensamento e n\u00e3o a literariedade das palavras -, Andrea deparou-se com uma profus\u00e3o de personagens, nomes que soariam esquisitos para o espectador brasileiro, deixando-o mais confuso que bem informado. &#8220;S\u00e3o deuses e semideuses que, para os gregos, s\u00e3o familiares, dispensando explica\u00e7\u00e3o sobre origem e inten\u00e7\u00f5es. S\u00f3 que isso n\u00e3o aconteceria aqui&#8221;, conta. &#8220;Cheguei at\u00e9 a pensar em copiar o Bob Dylan que, no clipe de Subterranean Homesick Blues, vai contando a hist\u00f3ria por meio de cartolinas escritas.&#8221;<\/p>\n<p>Presa nessa sinuca de bico, Andrea aproveitou para realizar outro sonho, o de trabalhar com o encenador Amir Haddad. S\u00e1bia escolha &#8211; n\u00e3o satisfeito por ter participado de movimentos decisivos na hist\u00f3ria teatral brasileira, como o do grupo Oficina, Haddad, consagrado, mas ainda insatisfeito, revolucionou ao recusar o teatro entre quatro paredes e organizou o T\u00e1 na Rua, grupo especializado em apresentar espet\u00e1culos gratuitos em pra\u00e7as e ruas. &#8220;Eu rejuvenes\u00e7o ao ar livre&#8221;, garante ele. &#8220;Depois de um tempo, percebi que aprendia mais observando um camel\u00f4 que o Paulo Autran.&#8221;<\/p>\n<p>Movido, portanto, a desafios, Haddad aceitou o convite ao ouvir da atriz a confiss\u00e3o de que n\u00e3o sabia qual caminho seguir diante de tantas possibilidades. &#8220;N\u00e3o h\u00e1 nada melhor que o caos, pois dali se faz a luz&#8221;, filosofa o diretor que, ao perceber a envergadura da pesquisa de Andrea, sugeriu que o espet\u00e1culo contasse a hist\u00f3ria da fam\u00edlia de Ant\u00edgona e n\u00e3o apenas se limitasse ao problema dela. Isso expandiria o trabalho e Haddad gostou da ideia das cartolinas escritas, inspiradas no clipe de Dylan. &#8220;O teatro \u00e9 filho da Hist\u00f3ria e da Filosofia. Por isso, t\u00ednhamos de voltar ao mito&#8221;, diz o diretor.<\/p>\n<p>Assim, no espa\u00e7o do Poeirinha, Andrea transita \u00e0 frente de uma parede onde est\u00e3o afixados os nomes de todos os descendentes de Ant\u00edgona, uma \u00e1rvore geneal\u00f3gica que chega at\u00e9 Zeus, o deus supremo. Trajando um figurino escuro, que tanto remete ao passado como faz lembrar o black style atual, Andrea tanto assume o papel de Ant\u00edgona como a de uma narradora, situando plateia em uma intrincada teia pol\u00edtica, em que o poder oscila entre v\u00e1rias m\u00e3os. &#8220;Adoro quando cito o nome de algum personagem e observo toda a plateia movendo a cabe\u00e7a, localizando aquela figura nos cartazes atr\u00e1s de mim, e, em seguida, voltando o olhar para mim. Parece o movimento do p\u00fablico de uma partida de t\u00eanis&#8221;, diverte-se.<\/p>\n<p>Tamanha intimidade com o espectador faz parte do trabalho conjunto com Haddad. Afinal, mesmo n\u00e3o estando na rua, Andrea age como se estivesse ao ar livre, recebendo todos os espectadores na entrada, avisando que a sa\u00edda est\u00e1 liberada para os descontentes e mantendo a porta de seu camarim aberta. A atriz chega at\u00e9 a acudir aqueles que sofrem um inc\u00f4modo acesso de tosse, oferecendo uma garrafa d\u2019\u00e1gua estrategicamente guardada. &#8220;Minha felicidade \u00e9 suprema&#8221;, reage.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ubiratan Brasil Andrea Beltr\u00e3o j\u00e1 se acostumou &#8211; ao final de cada sess\u00e3o de Ant\u00edgona, mon\u00f3logo que ela apresenta na sala menor do Teatro Poeira, o Poeirinha, no Rio, ela ouve de algum espectador: &#8220;Adorei aquela frase que voc\u00ea acrescentou para deixar o texto mais moderno&#8221;. 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