{"id":127848,"date":"2017-02-05T22:14:59","date_gmt":"2017-02-06T00:14:59","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=127848"},"modified":"2017-02-07T08:25:23","modified_gmt":"2017-02-07T10:25:23","slug":"blocos-amadores-deixam-de-lado-as-marchinhas-incomodas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/blocos-amadores-deixam-de-lado-as-marchinhas-incomodas\/","title":{"rendered":"Blocos amadores deixam de lado as marchas inc\u00f4modas"},"content":{"rendered":"<p><strong>Isabela Vieira<\/strong><\/p>\n<p>Blocos do carnaval n\u00e3o oficial do Rio de Janeiro, formados por m\u00fasicos amadores, que se re\u00fanem sem hor\u00e1rio e trajeto pr\u00e9-definidos, pretendem deixar de fora da folia, este ano, marchinhas inc\u00f4modas. Influenciados pela crescente mobiliza\u00e7\u00e3o de mulheres, que tocam ou desfilam nesses blocos, principalmente de mulheres negras, o repert\u00f3rio passou a ser questionado, com a inten\u00e7\u00e3o de evitar can\u00e7\u00f5es que possam sugerir alguma forma de preconceito ou viol\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8220;Se a gente prestar aten\u00e7\u00e3o, [no trecho de] O Teu Cabelo N\u00e3o Nega: &#8216;Porque \u00e9s mulata na cor\/ Como a cor n\u00e3o pega, mulata\/ Mulata, eu quero o teu amor&#8217;, est\u00e1 claro o racismo. Cor n\u00e3o \u00e9 doen\u00e7a, n\u00e3o \u00e9 contagiosa&#8221;, criticou a artista visual e percussionista que acompanha o tema, Amora*. Ela toca h\u00e1 mais de dois anos em blocos e fanfarras do circuito marginal e tem participado de protestos de m\u00fasicos, parando de tocar, quando algu\u00e9m amea\u00e7a puxar as can\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o vem desde o ano passado, quando musicistas alertaram para letras que poderiam ser consideras racistas, mis\u00f3ginas e transf\u00f3bicas (que discriminam pessoas trans), reflexo da mobiliza\u00e7\u00e3o de defensores de direitos humanos e de movimentos sociais. Entre elas, o funk Baile de Favela, do MC Jo\u00e3o, e tradicionais marchinhas de carnaval, como O Teu Cabelo N\u00e3o Nega, de Lamartine Babo, citada por Amora, ou Cabeleira do Zez\u00e9, de Jo\u00e3o Roberto Kelly.<\/p>\n<p>Este ano, na abertura do carnaval n\u00e3o oficial, em janeiro, musicistas se recusaram a tocar Mulata Bossa Nova, de Kelly, alegando que a palavra mulata \u00e9 pejorativa, por se referir \u00e0 mula, etimologicamente. Na ocasi\u00e3o, elas foram at\u00e9 expulsas da \u00e1rea dos m\u00fasicos.<\/p>\n<p>&#8220;O que est\u00e1 em quest\u00e3o, mais do que a etimologia das palavras, \u00e9 o papel da mulher no carnaval&#8221;, disse Ju Storino, percussionista e integrante do Coletivo Feminista Todas por Todas. &#8220;Onde est\u00e1 a voz da mulher no carnaval? Quando pedimos para que nos ou\u00e7am, para que n\u00e3o toquem, muitos fazem ouvido de mercador ou reproduzem mais viol\u00eancia contra quem questiona. Como vamos fazer carnaval sem parceria, sem parceria com o puxador?&#8221;, perguntou. Ela lembrou que, por serem preconceituosas, de tempos em tempos, o carnaval retoma a pol\u00eamica, que passa ainda por composi\u00e7\u00f5es sendo levadas por movimentos sociais \u00e0 Justi\u00e7a. &#8220;A discuss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 nova. Quem n\u00e3o v\u00ea problema \u00e9 quem nunca foi v\u00edtima&#8221;.<\/p>\n<p>Um dos blocos que exclu\u00edram can\u00e7\u00f5es depois da pol\u00eamica foi o Vem c\u00e1, minha Flor. &#8220;Percebemos que algumas s\u00e3o racistas, machistas, preconceituosos, acabavam constrangendo ou agredindo pessoas, ent\u00e3o, pelo sim e pelo n\u00e3o, a gente preferiu banir&#8221;, explicou um dos fundadores do bloco, que re\u00fane entre 60 e 80 ritmistas, Edu Machado. Segundo ele, foram decis\u00f5es dif\u00edceis e nem sempre un\u00e2nimes.<\/p>\n<p>&#8220;Cortamos Baile de Favela, que era a m\u00fasica do momento, em 2016, mas que tem uma quest\u00e3o agressiva. Mas outras que eu continuaria tocando, como Cabeleira do Zez\u00e9, que muitos gays n\u00e3o veem problema, tamb\u00e9m saem&#8221;. O trecho controverso \u00e9 o verso imperativo &#8220;corta o cabelo dele&#8221;, que pode ser interpretado como viol\u00eancia a travestis.<\/p>\n<p>Para o professor universit\u00e1rio e percussionista Andr\u00e9 Videira de Figueiredo, que toca em pelo menos cinco blocos, como o Carimbloco, de m\u00fasica paraense, e a Fanfarra Tupiniquim Amostrado, a horizontalidade do carnaval n\u00e3o oficial, al\u00e9m dos protestos das musicistas, vem estimulando reflex\u00f5es. Para resolver, ele sugere que os blocos escutem os grupos incomodados com as letras. &#8220;N\u00e3o vou discutir se [a m\u00fasica] Mulata Bossa Nova \u00e9 uma homenagem ou discrimina\u00e7\u00e3o. A ofensa \u00e9 um sentimento, s\u00f3 pode dizer que algo \u00e9 ofensivo quem se sentiu ofendido, n\u00e3o \u00e9 o ofensor que tem que ser convencido, ele apenas tem que ser informado&#8221;, afirmou o antrop\u00f3logo.<\/p>\n<p>Autor de marchinhas controversas, o compositor Jo\u00e3o Roberto Kelly defende suas composi\u00e7\u00f5es. Ele diz que nunca teve a inten\u00e7\u00e3o de ofender nenhum grupo e que suas can\u00e7\u00f5es foram feitas para incentivar a brincadeira. &#8220;Estamos falando de m\u00fasicas que s\u00e3o sucesso h\u00e1 40, 50 anos. O povo gosta de cantar, de dan\u00e7ar, de ouvir&#8221;. Ele lembra can\u00e7\u00f5es como Maria Sapat\u00e3o que, quando lan\u00e7adas, desmistificavam preconceitos. E cantou: &#8220;O sapat\u00e3o est\u00e1 na moda\/O mundo apladiu\/ \u00c9 um barato, \u00e9 um sucesso\/ Dentro e fora do Brasil. Isso \u00e9 um elogio&#8221;, disse.<\/p>\n<p><strong>Circuito<\/strong> <strong>oficial<\/strong> &#8211; Entre os blocos do circuito oficial, a pol\u00eamica n\u00e3o teve espa\u00e7o. Com patroc\u00ednio de marcas de cerveja, m\u00fasicos contratados e carros de som arrastando milhares de foli\u00f5es, a Sebastiana, associa\u00e7\u00e3o que re\u00fane 11 blocos e a Folia Carioca, que responde por mais de 20 blocos, declararam \u00e0 imprensa que consideram antigas marchinhas parte da tradi\u00e7\u00e3o do carnaval.<\/p>\n<p>&#8220;Carnaval \u00e9 momento maior da alegria e essas m\u00fasicas foram feitas l\u00e1 atr\u00e1s, em uma \u00e9poca que n\u00e3o tinha o politicamente correto&#8221;, declarou Pedro Ernesto, presidente de um dos mais tradicionais blocos oficiais, o Bola Preta, que est\u00e1 \u00e0s v\u00e9speras de fazer o 99\u00ba desfile. Ele disse que nunca soube de algu\u00e9m que tenha ficado ofendido com uma marchinha de carnaval. &#8220;Se voc\u00ea tirar O teu cabelo n\u00e3o nega e a Cabeleira do Zez\u00e9, voc\u00ea est\u00e1 matando a festa&#8221;, afirmou.<\/p>\n<p>A percussionista de blocos n\u00e3o oficiais, Amora*, discorda de Pedro Ernesto. Ela acredita que o momento \u00e9 de mudan\u00e7a. &#8220;Muita gente nunca prestou aten\u00e7\u00e3o em letras, nem nos clich\u00eas de fantasias, como a &#8220;nega maluca&#8221;. Por\u00e9m, quando alertadas, h\u00e1 empatia. &#8220;Se \u00e9 ofensivo, a gente n\u00e3o toca mais. E assim, o m\u00fasico do lado, o outro e o outro&#8221;, acrescentou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Isabela Vieira Blocos do carnaval n\u00e3o oficial do Rio de Janeiro, formados por m\u00fasicos amadores, que se re\u00fanem sem hor\u00e1rio e trajeto pr\u00e9-definidos, pretendem deixar de fora da folia, este ano, marchinhas inc\u00f4modas. 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