{"id":129158,"date":"2017-02-18T09:23:54","date_gmt":"2017-02-18T11:23:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=129158"},"modified":"2017-02-18T10:26:23","modified_gmt":"2017-02-18T12:26:23","slug":"uma-historia-do-samba-quando-havia-sambista-bamba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/uma-historia-do-samba-quando-havia-sambista-bamba\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria do samba, quando aqui havia sambista bamba"},"content":{"rendered":"<h6 class=\"Assina\"><strong>Julio Maria<\/strong><\/h6>\n<p>Eles eram muitos Isma\u00e9is, Sinh\u00f4s, Cartolas, Ciatas, Dongas, Pixinguinhas e No\u00e9is. Viviam por dias pestilentos e noites ven\u00e9reas de um Rio de Janeiro em transforma\u00e7\u00e3o, descendentes pr\u00f3ximos de escravos driblando meganhas que os prendiam por vadiagem e porte de viol\u00e3o enquanto tentavam criar para suas exist\u00eancias um papel que nunca esteve no script.<\/p>\n<p>Eram pedreiros, carteiros, pintores, lar\u00e1pios, batedores de carteira e cafet\u00f5es prontos a se esquivarem da navalha de um marido tra\u00eddo ou a sacarem do bolso caneta e papel que, um dia, os salvariam da invisibilidade. Eles eram sambistas.<\/p>\n<p>O samba n\u00e3o tem criador nem nasceu por decreto. N\u00e3o h\u00e1 pedra em resid\u00eancia que o batize nem pai que o reconhe\u00e7a em cart\u00f3rio. Veio por ventos soprados da \u00c1frica em linha reta ou rebatidos dos rec\u00f4ncavos baianos, entrela\u00e7ados sobre o Rio e respirados por uma gente que acabava de atingir tal condi\u00e7\u00e3o. Rio de Janeiro, d\u00e9cada de 1910, Teatro Rio Branco: &#8220;\u00c9 um fedelho!&#8221;, disse um dos donos da casa, Crist\u00f3v\u00e3o Auler, ao ver o menino de cal\u00e7as curtas tremendo de p\u00e2nico, segurando sua flauta \u00e0 espera de um teste de admiss\u00e3o.<\/p>\n<p>O fedelho era Pixinguinha. &#8220;Eu tinha gonorreia, cancro duro, cancro mole, mula, cavalo, o diabo; gemia o dia inteiro naquela cama&#8221;, lembrava Cartola anos depois de vagar pelas ruas sem destino, subindo e descendo morro e dormindo em vag\u00e3o de trem depois de ver a m\u00e3e morrer e ser expulso de casa pelo pai.<\/p>\n<p>Antes mesmo que o samba fosse samba, j\u00e1 era assim. Criado no ambiente p\u00f3s-Aboli\u00e7\u00e3o de 1888 e pr\u00e9-moderniza\u00e7\u00e3o da Capital, fazendo a \u00fanica ponte poss\u00edvel entre a mis\u00e9ria dos barracos que come\u00e7avam a ser empilhados, a classe m\u00e9dia e as elites que ouviam a R\u00e1dio Nacional de Francisco Alves e M\u00e1rio Reis, o samba, paradoxalmente ao cen\u00e1rio indigesto de suas origens, n\u00e3o poderia surgir em momento melhor.<\/p>\n<p>&#8220;Era a m\u00fasica certa no lugar certo&#8221;, diz o jornalista e pesquisador Lira Neto em seu apartamento em Perdizes, S\u00e3o Paulo. A saga que ele conta est\u00e1 nas linhas e nas entrelinhas de Uma Hist\u00f3ria do Samba &#8211; As Origens, o primeiro livro de uma trilogia, lan\u00e7ado agora pela Companhia das Letras, que dimensiona o g\u00eanero ao contar hist\u00f3rias de seus principais personagens e, com elas, provocar a leitura paralela de uma era<\/p>\n<p>Ir atr\u00e1s das verdades do samba pelas recorr\u00eancias hist\u00f3ricas seria t\u00e3o confi\u00e1vel quanto acreditar em um livro de mem\u00f3rias de Carlos Imperial. Elas diriam a Lira Neto que Pelo Telefone foi o primeiro samba gravado e que seu autor inconteste \u00e9 Donga. N\u00e3o iriam muito al\u00e9m do que se sabe sobre os Oito Batutas, grupo de Donga, Pixinguinha, seu irm\u00e3o China e, mais tarde, Jo\u00e3o Pernambuco. E certamente trariam o tom glorificador da genialidade de Sinh\u00f4 sem especificar os sambas que ele surrupiou sem d\u00f3 nem piedade de Heitor dos Prazeres. &#8220;O problema \u00e9 que os jornais da \u00e9poca n\u00e3o cobriam os fatos enquanto eles aconteciam. Era uma hist\u00f3ria invis\u00edvel&#8221;, diz Lira.<\/p>\n<p>&#8220;Eu corria o risco ent\u00e3o de chover no molhado e aceitar a lacuna documental.&#8221; Sua sa\u00edda foi um golpe de mestre inspirado pelo faro jornal\u00edstico. Sem muitos jornais a recorrer, sem testemunhas vivas e sem imagens da \u00e9poca, Lira percebeu que o mundo do samba tinha como habitantes homens em constante estado de suspeitos, r\u00e9us e condenados por brigas, roubos, desaven\u00e7as e, principalmente, andar pelas ruas em situa\u00e7\u00e3o de desocupados. A mesma pol\u00edcia que os prendeu salvou suas mem\u00f3rias. &#8220;Eu fui buscar as ocorr\u00eancias nos arquivos das pretorias do Rio, que est\u00e3o sob a guarda do Arquivo Nacional. Conseguia l\u00e1 dados pessoais como nomes e filia\u00e7\u00e3o, al\u00e9m do fato que os levaram a ser fichados.&#8221;<\/p>\n<p>\u00c9 ent\u00e3o uma hist\u00f3ria contada tamb\u00e9m pelo vi\u00e9s policial, mas que precisa ser lida com discernimento cr\u00edtico. Os sambistas n\u00e3o eram arruaceiros incorrig\u00edveis, mas frutos da primeira gera\u00e7\u00e3o que sentia na pele e nas persegui\u00e7\u00f5es o limbo no qual a popula\u00e7\u00e3o negra se encontrou nas d\u00e9cadas seguintes \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o oficial dos escravos. A vida n\u00e3o se tornaria imediatamente um sonho assim que as correntes fossem retiradas. Os estratos estavam organizados de forma que n\u00e3o inclu\u00eda a ascens\u00e3o racial. &#8220;A lei da vadiagem \u00e9 contempor\u00e2nea \u00e0 Aboli\u00e7\u00e3o da Escravatura. Como fazer para que a popula\u00e7\u00e3o alforriada tivesse uma ocupa\u00e7\u00e3o e fosse absorvida pelas classes trabalhadoras?&#8221;, diz Lira. O choque jogava alguns em situa\u00e7\u00e3o de criminalidade, outros em situa\u00e7\u00e3o de sambistas e, muitos, nas duas situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O racismo tamb\u00e9m \u00e9 irrefre\u00e1vel nas p\u00e1ginas dos jornais. O que escrevem alguns cr\u00edticos sobre os shows que Os Oito Batutas fazem pela Argentina em 1922 \u00e9 estarrecedor. O jornal \u00daltima Hora disse o seguinte diante do grupo do pequeno Pixinguinha: &#8220;O novo n\u00famero contratado pelo empres\u00e1rio Cairo \u00e9 um n\u00famero de luto Seus componentes s\u00e3o negros. E os que n\u00e3o o s\u00e3o, s\u00e3o morenos carregados&#8221;. Ele compara os instrumentos musicais a &#8220;buzina de autom\u00f3vel e ralador de queijo&#8221;, e termina assim: &#8220;Aos que gostam de coisas estranhas, recomendamos ir ao Empire. N\u00f3s, francamente, ter\u00edamos preferido que houvesse menos negros, menos ru\u00eddos, mais bailado e mais saias. Porque a vida j\u00e1 tem negruras demais&#8221;.<\/p>\n<p>A passagem dos batutas pela Argentina seria ingl\u00f3ria por outras raz\u00f5es. Quebra de contrato com o empres\u00e1rio e mais gastos do que o previs\u00edvel levaram o grupo \u00e0 beira do desespero, fazendo com que um de seus integrantes, o violonista Josu\u00e9 de Barros, fosse para o tudo ou nada na pequena R\u00edo Cuarto em busca de verba para voltar ao Brasil. N\u00e3o se sabe que inspira\u00e7\u00e3o o levou a anunciar que seria enterrado vivo no cemit\u00e9rio da regi\u00e3o, cobrando uma taxa de quem quisesse v\u00ea-lo como defunto, alojado sob muitos palmos abaixo da terra sem comer e sem beber por 15 dias. Muito antes do prazo, a plateia perdeu o interesse e, antes que o cad\u00e1ver de mentira se tornasse real, Josu\u00e9 ressuscitou.<\/p>\n<p>Sinh\u00f4 n\u00e3o teve a mesma sorte. Ao morrer, aos 41 anos, estava degenerado pela tuberculose e miser\u00e1vel pela injusti\u00e7a. O homem chamado de &#8220;o rei do samba&#8221; foi tamb\u00e9m, para o bi\u00f3grafo, o primeiro a fazer marketing com a pr\u00f3pria imagem, massificando sua produ\u00e7\u00e3o e controlando suas obras para evitar as apropria\u00e7\u00f5es indevidas que ele mesmo cometia com a obra alheia. J\u00e1 o samba, ao contr\u00e1rio do que muitos pensaram \u00e0 beira de seu caix\u00e3o, hoje em vala desconhecida, s\u00f3 estava dando seus primeiros passos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Julio Maria Eles eram muitos Isma\u00e9is, Sinh\u00f4s, Cartolas, Ciatas, Dongas, Pixinguinhas e No\u00e9is. 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