{"id":129166,"date":"2017-02-18T11:44:41","date_gmt":"2017-02-18T13:44:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=129166"},"modified":"2017-02-18T12:27:27","modified_gmt":"2017-02-18T14:27:27","slug":"minas-nao-ha-mais-ate-o-paredao-deixou-de-ser","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/minas-nao-ha-mais-ate-o-paredao-deixou-de-ser\/","title":{"rendered":"Minas n\u00e3o h\u00e1 mais. E at\u00e9 o Pared\u00e3o, creia, deixou de ser"},"content":{"rendered":"<h6 class=\"Assina\"><strong>Leonencio Nossa<\/strong><\/h6>\n<p>&#8220;Assim, feito no Pared\u00e3o. Mas a \u00e1gua s\u00f3 \u00e9 limpa \u00e9 nas cabeceiras. O mal ou o bem, est\u00e3o \u00e9 em quem faz; n\u00e3o \u00e9 no efeito que d\u00e3o. O senhor ouvindo o seguinte, me entende. O Pared\u00e3o existe l\u00e1. Senhor v\u00e1, senhor veja. \u00c9 um arraial. Hoje ningu\u00e9m mora mais. As casas vazias. Tem at\u00e9 sobrado. Deu capim no telhado da igreja, a gente escuta a qualquer entrar o borb\u00f4lo rasgado dos morcegos (&#8230;) Aquele arraial tem um arruado s\u00f3: \u00e9 a rua da guerra&#8230; o dem\u00f4nio na rua, no meio do redemoinho&#8230; O senhor n\u00e3o me pergunte nada. Coisas dessas n\u00e3o se perguntam bem &#8221;<\/p>\n<p>O sert\u00e3o que serviu de cen\u00e1rio para o embate \u00e9pico entre Diadorim e Herm\u00f3genes nunca esteve t\u00e3o vazio de escolas, livros e gente. Nos \u00faltimos anos, a prefeitura de Buritizeiro (MG) fechou 38 das 50 escolinhas de primeira a quinta s\u00e9rie do ensino fundamental que funcionavam na zona rural. No distrito de Pared\u00e3o de Minas, a 85 km de estrada de terra da sede do munic\u00edpio, local exato onde Diadorim morreu, a escola ainda est\u00e1 aberta, mas n\u00e3o h\u00e1 um \u00fanico exemplar de Grande Sert\u00e3o: Veredas ou outros livros de Guimar\u00e3es Rosa na pequena biblioteca.<\/p>\n<p>Nos anos 1950, quando o romance foi publicado, havia mais moradores no interior de Buritizeiro que nos dias atuais. Eram 6,5 mil pessoas nos s\u00edtios, fazendas e povoados. Hoje s\u00e3o 3,3 mil. O porcentual de moradores no meio rural despencou de 72% para 11% entre a d\u00e9cada de 1960 e 2016. \u00c9 um \u00edndice de concentra\u00e7\u00e3o urbana elevado para um munic\u00edpio que possui o quinto maior territ\u00f3rio de Minas Gerais.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica de educa\u00e7\u00e3o adotada pelo munic\u00edpio n\u00e3o apenas foi afetada pelo decr\u00e9scimo da popula\u00e7\u00e3o no interior como incentiva o \u00eaxodo rural. A centraliza\u00e7\u00e3o do ensino, com o fechamento de escolinhas no campo, tem levado fam\u00edlias a se mudar para o centro de Buritizeiro para garantir o estudo dos filhos. No ano passado, a prefeitura fechou escolas do ensino b\u00e1sico nos lugarejos de Galh\u00e3o, Felismone, Fazenda Chapahaus, Limeira, Marru\u00e1s e Comunidade Samba\u00edba &#8211; esta \u00faltima citada como lugar de passagem do bando de Riobaldo. A conta n\u00e3o inclui escolas fechadas por motivo de falta de alunos, como foi o caso da que funcionava em Cachoeira das Almas.<\/p>\n<p>No cargo desde janeiro, a secret\u00e1ria de Educa\u00e7\u00e3o de Buritizeiro, Kelen Bitencourt, avalia que, na cidade, as escolas est\u00e3o mais preparadas para atender os alunos. Ela diz que a centraliza\u00e7\u00e3o escolar trouxe economia para as contas do munic\u00edpio e facilitou a vida de professores, que tinham de ficar at\u00e9 duas semanas fora para atender estudantes do interior. Hoje o munic\u00edpio tem cinco escolas de primeira a quinta s\u00e9rie, uma infantil e duas creches no per\u00edmetro urbano. Kelen, por\u00e9m, reconhece que o fechamento das escolas no campo prejudica o desenvolvimento dos povoados rurais. &#8220;\u00c9 um problema social que atrapalha as comunidades do interior.&#8221;<\/p>\n<p>H\u00e1 24 anos na rede de ensino municipal, ela relata que nunca houve nesse per\u00edodo trabalho para divulgar o Grande Sert\u00e3o: Veredas entre professores e alunos.<\/p>\n<p>Pared\u00e3o de Minas \u00e9 um dos lugares que os moradores temem que desapare\u00e7am. Nas tr\u00eas ruas do lugar, mais de 40 casas est\u00e3o abandonadas. Com o predom\u00ednio dos eucaliptos, postos de trabalho nas fazendas diminu\u00edram. O fim das carvoarias tamb\u00e9m representou desemprego. O posto dos Correios fechou h\u00e1 dois anos. H\u00e1 ainda a preocupa\u00e7\u00e3o de que a constru\u00e7\u00e3o de uma usina hidrel\u00e9trica no Rio do Sono, um projeto antigo, possa acelerar o fim do distrito.<\/p>\n<p>A reportagem chegou no fim de uma tarde de novembro ao distrito de Buritizeiro descrito nas \u00faltimas p\u00e1ginas do romance de Guimar\u00e3es Rosa. Uma chuva tinha passado por l\u00e1. Um filete de claridade do sol entre as nuvens carregadas se refletia nas pedras ovais e alaranjadas que formavam um caminho at\u00e9 as margens do Rio do Sono. O cerrado estava esverdeado, mas numa colora\u00e7\u00e3o pouco vistosa. Boa parte das casas do povoado estava abandonada. N\u00e3o havia ningu\u00e9m nas ruas.<\/p>\n<p>Foi esse trecho do Rio do Sono que o bando de Riobaldo atravessou para o combate final com Herm\u00f3genes. Ali, no centro do povoado, Diadorim cravou a faca em Herm\u00f3genes, que sucumbiu. No embate, Diadorim foi ferida mortalmente.<\/p>\n<p>O nome do lugar faz refer\u00eancia a um morro de argila vermelha na outra margem, j\u00e1 no munic\u00edpio de Jo\u00e3o Pinheiro. Aqui, o Sono \u00e9 encachoeirado, sujo, com uma cor vermelha, do barro arrancado das margens, dos peda\u00e7os de paus arrastados, dos afluentes tomados pela lama. &#8220;\u00c9 tempo de entrada das \u00e1guas&#8221;, explica Givaldo Barbosa, \u00fanico comerciante do povoado.<\/p>\n<p>A rede de energia el\u00e9trica chegou h\u00e1 alguns anos ao Pared\u00e3o, mas o abastecimento \u00e9 irregular. \u00c9 comum o lugar ficar sem luz durante dias. Nas noites quentes e escuras do vilarejo, h\u00e1 um c\u00e9u estrelado. Aves, insetos e r\u00e9pteis na folhagem da beira do rio tornam as noites barulhentas. Sapos maiores do que codornas se confundem com as pedras arredondadas e amareladas da beira do curso.<\/p>\n<p>A escola de ensino fundamental e m\u00e9dio de Pared\u00e3o corre risco de ser fechada pelo governo estadual por falta de alunos. Em novembro, o governo deixou de pagar aos donos de vans de transporte escolar e pelo menos 30 crian\u00e7as de s\u00edtios afastados do povoado deixaram de frequentar as aulas.<\/p>\n<p>A professora G\u00e9ssika Guedes Barbosa, de 30 anos, relata que a falta de merenda escolar \u00e9 outro problema. Crian\u00e7as da zona rural acordam por volta das 4h30 para pegar a van. Na escola, s\u00f3 t\u00eam uma refei\u00e7\u00e3o \u00e0s 9 horas, geralmente macarr\u00e3o com arroz, e conseguem retornar aos s\u00edtios apenas depois das 14 horas. Algumas moram a 58 km do col\u00e9gio.<\/p>\n<p>G\u00e9ssika pretende ampliar a pequena biblioteca escolar e lamenta que a hist\u00f3ria que fala do Pared\u00e3o, da luta de Riobaldo e Diadorim travada com Herm\u00f3genes na margem do Rio do Sono, n\u00e3o esteja dispon\u00edvel para os estudantes do povoado.<\/p>\n<p><b>Morte &#8211;\u00a0<\/b>Ali no Pared\u00e3o, ap\u00f3s o embate com Herm\u00f3genes, Riobaldo decidiu deixar a jagun\u00e7agem. Ele abandonou o povoado consciente de que n\u00e3o veria mais seu grande amor. &#8220;Aonde ia, eu retinha bem, mesmo na doidagem. A um lugar s\u00f3: \u00e0s Veredas-Mortas&#8230; De volta, de volta. Como se, tudo revendo, refazendo, eu pudesse receber outra vez o que n\u00e3o tinha tido, repor Diadorim em vida?&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leonencio Nossa &#8220;Assim, feito no Pared\u00e3o. Mas a \u00e1gua s\u00f3 \u00e9 limpa \u00e9 nas cabeceiras. 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