{"id":129269,"date":"2017-02-19T07:29:23","date_gmt":"2017-02-19T10:29:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=129269"},"modified":"2017-02-19T07:30:01","modified_gmt":"2017-02-19T10:30:01","slug":"de-volta-ao-quilombo-ja-com-um-seculo-de-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/de-volta-ao-quilombo-ja-com-um-seculo-de-vida\/","title":{"rendered":"Puxando de volta ao Quilombo, j\u00e1 com um s\u00e9culo de vida"},"content":{"rendered":"<p>Aureliano Lopes dos Reis, 104 anos, trabalhou na constru\u00e7\u00e3o da BR-040 e de Bras\u00edlia, no final dos anos 1950 e come\u00e7o dos 1960. \u201cPor esses longes todos eu passei, com pessoa minha ao meu lado, a gente se querendo bem. O senhor sabe? J\u00e1 tenteou sofrido o ar que \u00e9 saudade? Diz-se que tem saudade de ideia e saudade de cora\u00e7\u00e3o&#8230; Ah. Diz-se que o Governo est\u00e1 mandando abrir boa estrada rodageira, de Pirapora a Paracat\u00fa, por a\u00ed&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>No fim dos anos 1950, o ent\u00e3o presidente Juscelino Kubitschek levava \u00e0 frente seu plano de construir uma nova capital no Planalto Central. A aventura desenvolvimentista contagiou parte dos pol\u00edticos, empres\u00e1rios e intelectuais que, no \u00edmpeto, viram o segundo maior bioma do Pa\u00eds como algo ligado \u00e0 melancolia e \u00e0 solid\u00e3o. \u201cNo princ\u00edpio era o agreste: o c\u00e9u azul, a terra vermelho-punjente\/ E o verde triste do cerrado\u201d, destaca a letra de Bras\u00edlia, Sinfonia do Alvorada, de Vinicius de Moraes.<\/p>\n<p>O entusiasmo de Juscelino alterou a vida de uma parcela significativa dos moradores do Grande Sert\u00e3o. Aureliano Lopes dos Reis, de 104 anos, largou a agricultura e o garimpo em Paracatu para trabalhar na constru\u00e7\u00e3o do trecho da BR-040 que ligava Belo Horizonte a Bras\u00edlia. Ele chegou \u00e0 nova capital com o asfalto. Na cidade em obras, morou no Morro do Urubu, na Invas\u00e3o do IAPI e no Curral da \u00c9gua, n\u00facleos de moradias improvisadas de trabalhadores dos pr\u00e9dios do Plano Piloto.<\/p>\n<p>Aureliano trabalhava nas obras e, em momentos de folga, vendia milho assado. \u201cEu comprava milho no (N\u00facleo) Bandeirante e vendia no cinema, na feira do Cruzeiro. Assava espiga e vendia\u201d, lembra. \u201cFiquei nove meses pregando taco no Banco do Brasil. A\u00ed, fui trabalhar em condom\u00ednio na W3 Sul, quase dois anos ou mais. Fiquei ainda um tempo de guarda no Banco do Brasil.\u201d<\/p>\n<p>Antes mesmo de ser inaugurada oficialmente, Bras\u00edlia j\u00e1 tinha 64 mil moradores em situa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria. Em 1970, Aureliano e outros moradores de invas\u00f5es foram transferidos pela Campanha de Erradica\u00e7\u00e3o de Invas\u00f5es, a CEI, para uma cidade-sat\u00e9lite rec\u00e9m-constru\u00edda, a Ceil\u00e2ndia. Era o in\u00edcio da cidade que hoje \u00e9 a mais populosa do Distrito Federal. \u201cGanhei lote na Ceil\u00e2ndia. Fiz um barraco l\u00e1. Mas a mulher n\u00e3o quis ir.\u201d<\/p>\n<p>Aureliano voltou \u00e0 comunidade de S\u00e3o Domingos, em Paracatu, Minas Gerais, para recriar o quilombo dos ancestrais e recuperar tradi\u00e7\u00f5es dos negros do munic\u00edpio. A mulher, Lu\u00edsa, e as tr\u00eas filhas continuaram no s\u00edtio do noroeste mineiro. Em 1977, Aureliano viveu um dos momentos de maior emo\u00e7\u00e3o em Bras\u00edlia: o vel\u00f3rio e enterro de Juscelino Kubitschek. Uma multid\u00e3o acompanhou o carro com o corpo da Catedral de Bras\u00edlia, na Esplanada dos Minist\u00e9rios, at\u00e9 o Cemit\u00e9rio Campo da Esperan\u00e7a, no final da Asa Sul. Ele lembra que a imagem do ex-presidente foi projetada num tel\u00e3o para a multid\u00e3o ver. \u201cPegaram ele, puseram num quadro no mode de um espelho e de longe a gente via, no retrato.\u201d<\/p>\n<p>Com a aposentadoria, Aureliano voltou a Paracatu, mais precisamente \u00e0 comunidade quilombola de S\u00e3o Domingos, onde nasceu e foi criado em meio \u00e0s festas religiosas e \u00e0 caretada, dan\u00e7a em que homens usam m\u00e1scaras na v\u00e9spera de S\u00e3o Jo\u00e3o, em junho. L\u00e1 tamb\u00e9m tocava xique-xique, um instrumento musical. \u201cNasci aqui neste quintal no dia 16 de junho de 1912. Meu pai n\u00e3o conheci. Quando ele morreu, eu estava com tr\u00eas meses de nascido. Morreu de cora\u00e7\u00e3o. Minha m\u00e3e morreu com 90 e poucos anos. Meu av\u00f4, Pedro Noronha, morreu com 110, morava ali\u201d, conta. O av\u00f4 foi escravo. \u201cHoje toda cidade aumentou muito.\u201d Ele avalia que o segredo da longevidade est\u00e1 na alimenta\u00e7\u00e3o. \u201cNaquele tempo, a vaca tinha tempo para engordar. Hoje, em quatro dias est\u00e3o matando a vaca.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aureliano Lopes dos Reis, 104 anos, trabalhou na constru\u00e7\u00e3o da BR-040 e de Bras\u00edlia, no final dos anos 1950 e come\u00e7o dos 1960. \u201cPor esses longes todos eu passei, com pessoa minha ao meu lado, a gente se querendo bem. O senhor sabe? J\u00e1 tenteou sofrido o ar que \u00e9 saudade? 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