{"id":129273,"date":"2017-02-19T07:32:48","date_gmt":"2017-02-19T10:32:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=129273"},"modified":"2017-02-19T07:32:48","modified_gmt":"2017-02-19T10:32:48","slug":"feitos-na-vida-sabendo-viver-ao-seu-proprio-modo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/feitos-na-vida-sabendo-viver-ao-seu-proprio-modo\/","title":{"rendered":"Feitos na vida, sabendo viver ao seu pr\u00f3prio modo"},"content":{"rendered":"<p>Respons\u00e1vel por levar a bandeira, Deodato passa o estandarte na cabe\u00e7a dos homens que participam da festa e est\u00e3o em roda, em frente \u00e0 casa. Alguns se ajoelham. Depois, entram na resid\u00eancia e come\u00e7am a tocar e cantar diante de uma lapinha, um pequeno altar feito de folhas de buriti e flores de gravat\u00e1. Dentro da casa de teto escurecido pela fuma\u00e7a do fog\u00e3o \u00e0 lenha, uma estampa de S\u00e3o Jo\u00e3o, um desenho de Nossa Senhora Aparecida.<\/p>\n<p>As mulheres ficam na cozinha. Meninos e meninas disputam espa\u00e7os nos cantos das portas para acompanhar a apresenta\u00e7\u00e3o. Os homens est\u00e3o com velhos viol\u00f5es, cavaquinhos, pandeiros e chocalhos. S\u00e3o 25 minutos ininterruptos de uma melodia sem altera\u00e7\u00f5es. Em seguida, dan\u00e7am o lundu, em pares, um de costas para o outro.<\/p>\n<p>Deodato retira de um bornal um litro de aguardente com diversas ervas do cerrado e d\u00e1 um c\u00e1lice da bebida a cada foli\u00e3o. O ritmo fica mais veloz. Fazem uma roda, depois organizam uma cenografia, que chamam de quadrilha, trocando de posi\u00e7\u00f5es, como se estivessem tran\u00e7ando uma corda com os corpos. Outras garrafas de bebida passam de m\u00e3o em m\u00e3o.<\/p>\n<p>Os homens est\u00e3o quase em transe quando come\u00e7a a ser servido o jantar numa mesa improvisada do lado de fora da casa. Ali, moradores oferecem pa\u00e7oca de carne de porco, arroz, macarr\u00e3o, feij\u00e3o e sucos. Durante a noite, foli\u00f5es se revezam nos instrumentos musicais e na adora\u00e7\u00e3o \u00e0 lapinha.<\/p>\n<p>J\u00e1 de manh\u00e3, a primeira parada \u00e9 num cemit\u00e9rio. A cruz que marca a sepultura da sogra de Jo\u00e3o Grilo est\u00e1 tomada pelo cerrado. Ele conta que escreveu num p\u00e9 de gon\u00e7alo, uma \u00e1rvore frondosa, a data da morte dela. A \u00e1rvore engrossou, o tempo apagou o registro. Em outro cemit\u00e9rio na mata, o foli\u00e3o Valmir de Moraes conta que ali est\u00e1 enterrada uma irm\u00e3 que morreu em trabalho de parto. A filhinha tamb\u00e9m morreu. Sem caix\u00f5es, os corpos foram levadas \u00e0 sepultura sobre um estrado de buritis.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Grilo retoma a caminhada, agora por uma trilha estreita na mata. Uns v\u00e3o a cavalo, outros de motocicleta e a maioria a p\u00e9. Mulheres e crian\u00e7as s\u00e3o as \u00faltimas. Cada palmo de cerrado tem uma hist\u00f3ria para essas pessoas. Num trecho da estrada, Jo\u00e3o Grilo mostra o primeiro buriti em que subiu na vida. Passou a inf\u00e2ncia ali.<\/p>\n<p>O foli\u00e3o Milton Pereira de Moraes, de 29 anos, que recebeu o apelido de Cabelinho pelo corte estilo punk, quer saber a hist\u00f3ria do alferes. E tamb\u00e9m conta sua hist\u00f3ria. Trabalhou em eucalipto por alguns anos. Com a crise, voltou para a comunidade. \u201cConhe\u00e7o todo o processo do eucalipto, do plantio ao corte\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Em meio a cantos que ecoam entre os pared\u00f5es que cercam Buraquinhos, os foli\u00f5es \u201cgiram\u201d por cemit\u00e9rios, casas e s\u00edtios em homenagem a vivos e a mortos, ao que passou e ao que passar\u00e1. Abaixo das montanhas, a manh\u00e3 \u00e9 \u00famida, mesmo com sol intenso. A luminosidade real\u00e7a as cores do cerrado. Ao longo do caminho, surge vermelha, intensa, a caliandra, tamb\u00e9m conhecida por flor do diabo e ciganinha. Formada por dezenas de cerdas finas, semelhante a uma vassourinha, nasce em terras secas, entre pedras e areia. \u00c0 noite, se fecha. Arrancada do ch\u00e3o, resiste por poucos minutos.<\/p>\n<p>Pelo caminho se encontra um pau-d\u2019arco, \u00e1rvore baixa, frondosa e retorcida, carregada de folhas amarelas. Um olhar mais atento permite ver centenas de flores e fungos min\u00fasculos de formas e cores variadas. Pequenas orqu\u00eddeas, l\u00e1 chamadas de sumar\u00e9s roxas, azuis, lilases e rosas, cord\u00e3o-de-s\u00e3o-francisco \u2013 flores laranjas encravadas e um n\u00facleo espinhoso \u2013, amor-em-balan\u00e7a \u2013 uma flor branca, em calda. Longe dos mais velhos, os jovens seguem cantando versos. \u201cMorena o seu bico caiu, deixa que eu apoio ele pra voc\u00ea\u201d, diz um deles. \u201cN\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o posso vender o colch\u00e3o\/ Minha mulher n\u00e3o pode dormir no ch\u00e3o\u201d, destaca outro. \u201cEm cima daquela serra, eu vou pilar caf\u00e9\/ Abre a roda menininha, que papai n\u00e3o quer.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Respons\u00e1vel por levar a bandeira, Deodato passa o estandarte na cabe\u00e7a dos homens que participam da festa e est\u00e3o em roda, em frente \u00e0 casa. Alguns se ajoelham. 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