{"id":129276,"date":"2017-02-19T07:36:17","date_gmt":"2017-02-19T10:36:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=129276"},"modified":"2017-02-19T07:36:42","modified_gmt":"2017-02-19T10:36:42","slug":"rael-jjardineiro-deixa-as-flores-para-matar-as-saudades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/rael-jjardineiro-deixa-as-flores-para-matar-as-saudades\/","title":{"rendered":"Rael, jardineiro, deixa as flores para matar as saudades"},"content":{"rendered":"<p>O jardineiro Rael Rodrigues Teixeira, de 25 anos, decidiu juntar o dinheiro que ganhou em oito anos de trabalho nos condom\u00ednios e pr\u00e9dios de Bras\u00edlia para voltar, no ano passado, para sua cidade, Chapada Ga\u00facha, no norte mineiro, a 345 km do Distrito Federal. \u201cTinha saudade demais do pai e da m\u00e3e\u201d, diz.<\/p>\n<p>O setor da constru\u00e7\u00e3o civil em Bras\u00edlia vive um momento de estagna\u00e7\u00e3o. Dados do Minist\u00e9rio do Trabalho e Emprego indicam que, nos \u00faltimos dois anos, houve redu\u00e7\u00e3o de postos de trabalho com carteira assinada, ap\u00f3s 13 anos de aumento da oferta. Ao longo de 2016, 2 mil vagas foram fechadas por m\u00eas, em m\u00e9dia.<\/p>\n<p>Rael e um primo alugaram um c\u00f4modo e est\u00e3o montando um pequeno lava-jato no centro do munic\u00edpio. Por enquanto, sobrevive com o sal\u00e1rio de R$ 1,2 mil de um trabalho como guarda no Parque Grande Sert\u00e3o Veredas. \u201cPor ora, n\u00e3o volto pra Bras\u00edlia\u201d, diz, num misto de incerteza e vontade de ficar.<\/p>\n<p>\u00c9 ele quem sugere visitar a comunidade de Buraquinhos, onde moram seus pais e irm\u00e3os. \u201cVoc\u00eas v\u00e3o encontrar uma folia. A gente brinca l\u00e1. Meu pai \u00e9 o alferes, um dos comandantes. Sou filho de Jo\u00e3o Grilo.\u201d O nome do povoado, um reduto de descendentes de escravos, faz refer\u00eancia a buracos cavados no bico por araras vermelhas, para fazer ninho nos pared\u00f5es de arenito que cercam a comunidade.<\/p>\n<p>Nos 40 km de estrada de terra at\u00e9 Buraquinhos, Rael relata que no in\u00edcio achou Bras\u00edlia o \u201cm\u00e1ximo\u201d. \u201cNa verdade, Bras\u00edlia \u00e9 uma cidade violenta\u201d, conta. Ele morou em Ceil\u00e2ndia e S\u00e3o Sebasti\u00e3o, cidades da periferia do Distrito Federal. Trabalhou em reformas de quitinetes e, depois, nos jardins de um conjunto do Programa Minha Casa Minha Vida. E perdeu conhecidos para a criminalidade, a maioria por envolvimento em drogas. \u201cUm primo, o Jivanildo, foi assassinado em S\u00e3o Sebasti\u00e3o. Ele reagiu a um assalto\u201d, relata. \u201cAntes de vir pra c\u00e1, dois homens levaram meu celular e minha carteira. Deu um trabalho danado tirar de novo os documentos.\u201d<\/p>\n<p>Ao longo do caminho, uma vasta \u00e1rea plana est\u00e1 coberta pela soja. Foi ocupada por empres\u00e1rios ga\u00fachos nos anos 1970, com patroc\u00ednio do regime militar. O lugar pertencia ao munic\u00edpio de S\u00e3o Francisco. Em 1994, a comunidade ga\u00facha conseguiu a emancipa\u00e7\u00e3o. A soja ficou no plano do alto dos plat\u00f4s, n\u00e3o desceu o V\u00e3o do Buraco, um vale de arenitos de argila nas cores amarela, laranja, branca e vermelha.<\/p>\n<p>O desinteresse dos ga\u00fachos pelas terras de baixo garantiu a preserva\u00e7\u00e3o de veredas, matas e boa parte do Rio Pardo, um dos cursos citados no Grande Sert\u00e3o: Veredas. As forma\u00e7\u00f5es de argila d\u00e3o um aspecto \u00fanico ao lugar.<\/p>\n<p>Em Buraquinhos, Rael muda de semblante. \u00c9 entre veredas, rios e precip\u00edcios que o jardineiro diz se sentir realizado. \u201cTempo de folia \u00e9 muito bom. A gente fica no grau e percorre a regi\u00e3o, casa por casa, emenda dia e noite.\u201d<\/p>\n<p>Paramos no boteco do Pedrinho. Uma chuva come\u00e7a a cair. Depois, chegam os primeiros homens a cavalo para participar da folia. Com um chap\u00e9u branco de aba, Deodato Ferreira da Silva, de 55 anos, o Di\u00f3, veio do povoado da Aldeia, a 10 km. Logo em seguida chega Jivaldo Pereira dos Santos, de 57, morador do Buraco, mais acima. Ele \u00e9 o organizador da folia. \u201cQuando era crian\u00e7a, meu pai me colocava em cima do cavalo para participar da folia\u201d, lembra. \u201cDe noite, quando chovia, me amarrava com uma toalha na sela do burro para eu n\u00e3o cair.\u201d<\/p>\n<p>Jivaldo viveu 11 anos em Bras\u00edlia, onde atuou como pedreiro e chacareiro. Mesmo n\u00e3o deixou de organizar a festa dos Santos Reis no Buraco e no Buraquinhos. Nos \u00faltimos anos, passou as \u201ctabelas\u201d \u2013 letras de m\u00fasicas da folia \u2013 a Isa\u00edas Ferreira da Hora, de 39 anos. \u201cSe eu for antes do seu Jivaldo, ele continua a tradi\u00e7\u00e3o. Se ele for antes de mim, eu continuo.\u201d Jivaldo se emociona e chora.<\/p>\n<p>A folia come\u00e7a na casa de um morador a uns 7 km do bar do Pedrinho. At\u00e9 l\u00e1, \u00e9 preciso atravessar de carro quatro vezes o Rio Pardo, que serpenteia as forma\u00e7\u00f5es de arenito e o cerrado. O solo \u00e9 seguro, n\u00e3o afunda o carro. Na primeira noite da folia, um senhor de corpo robusto, atarracado, se sobressai. \u00c9 Jo\u00e3o Grilo, pai de Rael. Jo\u00e3o Jos\u00e9 Teixeira, de 65 anos, exibe a bandeira de pano com os desenhos dos reis magos. \u201cFui para Bras\u00edlia garoto trabalhar na constru\u00e7\u00e3o daqueles pr\u00e9dios. A cidade tinha s\u00f3 7 anos\u201d, lembra. \u201cQuem trabalha movimentando massa de cimento convive com todo tipo de gente. Sei como \u00e9 o rosto de homem de bem e o de ladr\u00e3o.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O jardineiro Rael Rodrigues Teixeira, de 25 anos, decidiu juntar o dinheiro que ganhou em oito anos de trabalho nos condom\u00ednios e pr\u00e9dios de Bras\u00edlia para voltar, no ano passado, para sua cidade, Chapada Ga\u00facha, no norte mineiro, a 345 km do Distrito Federal. \u201cTinha saudade demais do pai e da m\u00e3e\u201d, diz. O setor [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":129277,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[79],"tags":[],"class_list":["post-129276","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-pre-historia-de-brasilia"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/129276","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=129276"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/129276\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":129279,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/129276\/revisions\/129279"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/129277"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=129276"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=129276"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=129276"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}