{"id":129886,"date":"2017-02-23T10:14:35","date_gmt":"2017-02-23T13:14:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=129886"},"modified":"2017-02-23T10:15:17","modified_gmt":"2017-02-23T13:15:17","slug":"jenkis-fez-filme-muito-visceral-catartico-e-terapeutico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/jenkis-fez-filme-muito-visceral-catartico-e-terapeutico\/","title":{"rendered":"Jenkis fez filme visceral, cat\u00e1rtico e at\u00e9 terap\u00eautico&#8230;"},"content":{"rendered":"<p><strong>Mariane Morisawa<\/strong><\/p>\n<p>No domingo, 26, Barry Jenkins, 37, pode se tornar o primeiro negro a ganhar um Oscar de dire\u00e7\u00e3o. Ele \u00e9 o quarto a concorrer na categoria, por Moonlight &#8211; Sob a Luz do Luar, que estreia nesta quinta no Brasil e concorre a oito Oscar, al\u00e9m de cinco Independent Spirit Awards, cuja premia\u00e7\u00e3o ser\u00e1 no s\u00e1bado.<\/p>\n<p>O filme, com roteiro de Jenkins, baseado numa hist\u00f3ria de Tarell Alvin McCraney, conta a hist\u00f3ria de Chiron (interpretado por Alex R. Hibbert, Ashton Sanders e Trevante Rhodes) em tr\u00eas fases distintas e se passa na comunidade pobre no sub\u00farbio de Miami onde tanto o cineasta quanto McCraney cresceram nos anos 1980, ambos com m\u00e3es viciadas em crack.<\/p>\n<p>De forma delicada, o filme acompanha Chiron enquanto ele tenta descobrir quem \u00e9. Jenkins falou com exclusividade nesta entrevista.<\/p>\n<p><strong>O que fez com que quisesse contar essa hist\u00f3ria?<\/strong><\/p>\n<p>O cinema me deu minha voz verdadeira, me tornou um ser humano completo. Mas nunca tive chance de voltar ao lugar onde nasci e cresci. Quando li Tarell, vi que ele tinha feito o que eu queria Tamb\u00e9m havia a personagem de Naomie Harris, Paula, que foi inspirada na m\u00e3e de Tarell. Descobri que t\u00ednhamos vivido as mesmas coisas com nossas m\u00e3es.<\/p>\n<p><strong>Sendo t\u00e3o pessoal, foi mais dif\u00edcil?<\/strong><\/p>\n<p>Extremamente. Mas foi terap\u00eautico. Foram 25 dias muito intensos. N\u00f3s est\u00e1vamos no exato lugar onde as coisas aconteceram. Foi muito visceral, cat\u00e1rtico e terap\u00eautico. Acho que algumas coisas n\u00e3o teriam acontecido se n\u00e3o fosse visceral e pessoal.<\/p>\n<p><strong>Tentava relaxar todos os dias ou foi s\u00f3 no fim?<\/strong><\/p>\n<p>S\u00f3 no fim. Meu corpo n\u00e3o aguentou no final. Se tiv\u00e9ssemos de fazer 25 dias com Naomie Harris como minha m\u00e3e, teria sido imposs\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>Sua m\u00e3e viu o filme?<\/strong><\/p>\n<p>Ela viu tudo o que envolvia o filme, exceto o filme em si. Ela assistiu \u00e0s entrevistas que Naomie Harris fez para o longa. Certamente, ela tem orgulho de mim e do filme, mas h\u00e1 uma grande diferen\u00e7a entre ter orgulho porque contei essa hist\u00f3ria e sentar-se para assistir, de alguma forma, a si mesma.<\/p>\n<p><strong>O que espera que as pessoas tirem do filme?<\/strong><\/p>\n<p>Supomos saber tudo sobre personagens como Chiron, ou Paula. Julgamos essas pessoas sem conhec\u00ea-las. Podemos estar ver essas pessoas no metr\u00f4 ou no \u00f4nibus e achar que n\u00e3o temos nada em comum com elas. Aquele homem musculoso, de rosto fechado, nunca foi um menininho que amava dan\u00e7ar na frente do espelho. Roubamos dessa pessoa esse aspecto de sua humanidade. Ent\u00e3o, espero que, depois de assistir ao filme, da pr\u00f3xima vez que encontrarem algu\u00e9m assim, pensem quem aquela pessoa poderia ter sido, ou quem foi. Talvez seja apenas uma fachada, erguida para se proteger do mundo exterior.<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea se protegia?<\/strong><\/p>\n<p>Nos esportes. E n\u00e3o falava. O fato de Chiron falar t\u00e3o pouco est\u00e1 mais baseado em mim do que em Tarell. Achava que, se mostrasse qualquer coisa, exibiria fraqueza.<\/p>\n<p><strong>Espera que o p\u00fablico branco tenha uma percep\u00e7\u00e3o diferente do p\u00fablico negro?<\/strong><\/p>\n<p>O filme tem muitos aspectos diferentes. O que voc\u00ea traz ao cinema dita sua recep\u00e7\u00e3o a elementos do filme. A linguagem, por exemplo: h\u00e1 coisas que n\u00e3o d\u00e1 para entender a n\u00e3o ser que se tenha crescido num lugar com linguagem semelhante. Vivemos nesse mundo em que precisamos entender tudo. Tudo precisa ser completamente sobre n\u00f3s. E isso rouba das pessoas que fazem arte, que criam hist\u00f3rias, a especificidade das pr\u00f3prias vozes.<\/p>\n<p><strong>Muitas vezes, quando se fala da experi\u00eancia negra no cinema, o tom \u00e9 mais agressivo. Moonlight \u00e9 mais suave. Por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>S\u00f3 porque o filme fala de um menino negro, pobre, com uma m\u00e3e viciada em crack e que tamb\u00e9m talvez seja gay, sup\u00f5em-se certas coisas sobre como essa hist\u00f3ria deve ser contada. Para mim, trata-se sempre da humanidade e da consci\u00eancia dos personagens. E n\u00e3o queria que as expectativas do que s\u00e3o esses temas, ou de como essas quest\u00f5es normalmente se manifestam, ditassem como contamos essa hist\u00f3ria. Em geral, seria um filme mais austero, com c\u00e2mera na m\u00e3o, cinza. Mas Miami \u00e9 bonita. N\u00e3o vi raz\u00e3o para negar essa beleza.<\/p>\n<p><strong>O filme mostra uma forma diferente de masculinidade porque existe uma imagem de como algu\u00e9m como Chiron \u00e9. Era importante desconstruir esse estere\u00f3tipo?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o se v\u00ea esse personagem representado com muita frequ\u00eancia no cinema ou na TV. Quando existe, \u00e9 um retrato estereotipado. Trevante Rhodes, o ator, para mim, desencadeou a desconstru\u00e7\u00e3o, s\u00f3 por ser como \u00e9. No seu teste para outro papel, eu o julguei, como o p\u00fablico faz. Pensei: &#8220;Esse cara \u00e9 muito masculino, musculoso. N\u00e3o pode ser sens\u00edvel, vulner\u00e1vel&#8221;. Mas percebi um po\u00e7o de sensibilidade e vulnerabilidade. E vi que o estava julgando baseado puramente em seu visual. Se fiz isso e mudei de opini\u00e3o no teste, acho que o p\u00fablico pode fazer o mesmo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mariane Morisawa No domingo, 26, Barry Jenkins, 37, pode se tornar o primeiro negro a ganhar um Oscar de dire\u00e7\u00e3o. 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