{"id":130531,"date":"2017-03-01T08:54:38","date_gmt":"2017-03-01T11:54:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=130531"},"modified":"2017-03-01T08:56:21","modified_gmt":"2017-03-01T11:56:21","slug":"comida-nao-e-remedio-mas-tambem-nao-e-so-prazer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/comida-nao-e-remedio-mas-tambem-nao-e-so-prazer\/","title":{"rendered":"Comida n\u00e3o \u00e9 rem\u00e9dio, e muito menos \u00e9 s\u00f3 prazer"},"content":{"rendered":"<p><strong>Juliana Carreiro<\/strong><\/p>\n<p>A internet est\u00e1 cheia de extremos, a moda do momento \u00e9 optar por apenas um lado e passar a defend\u00ea-lo com unhas e dentes, doa a quem doer. Vale para pol\u00edtica, religi\u00e3o, futebol e alimenta\u00e7\u00e3o. A discuss\u00e3o mais recente em torno do meu assunto preferido polariza a ideia de ter os alimentos como fonte de prazer ou de t\u00ea-los como inimigos, processo que tem sido chamado de \u2018medicaliza\u00e7\u00e3o\u2019 dos alimentos. Parece que s\u00f3 h\u00e1 dois extremos, ou voc\u00ea vive s\u00f3 de ultraprocessados, que certamente lhe dar\u00e3o uma sensa\u00e7\u00e3o de prazer, ou passa a consumir apenas subst\u00e2ncias que possam lhe trazer algum benef\u00edcio, ainda que sejam bem intrag\u00e1veis, como ovo cru, por exemplo. Ambas s\u00e3o igualmente extremas.<\/p>\n<p>Aprendi com a minha fam\u00edlia que uma comida de verdade, caseira, bem temperada e preparada com dedica\u00e7\u00e3o e afeto certamente ser\u00e1 prazerosa. Mas n\u00e3o \u00e9 isso que tem se falado sobre comer com prazer. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, a ind\u00fastria aliment\u00edcia tem se dedicado com afinco a relacionar o prazer aos alimentos ultraprocessados, como fast food, bolachas recheadas, salgadinhos, refrigerantes e doces, entre tantos outros. Essa dedica\u00e7\u00e3o norteia desde \u00e0s suas f\u00f3rmulas cheias de aditivos qu\u00edmicos, que provocam boas sensa\u00e7\u00f5es e nos causam uma certa depend\u00eancia, at\u00e9 a publicidade. As propagandas dos produtos j\u00e1 n\u00e3o tratam mais do que eles s\u00e3o, falam apenas das emo\u00e7\u00f5es que eles podem proporcionar: \u201cabrimos a felicidade\u201d, \u201c\u00e9 t\u00e3o bom quanto o amor de m\u00e3e\u201d ou \u201cuma aventura radical\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 bom lembrar que uma alimenta\u00e7\u00e3o baseada em ultraprocessados, como tem acontecido com cada vez mais frequ\u00eancia, principalmente entre os pequenos, trar\u00e1 s\u00e9rias consequ\u00eancias de sa\u00fade a curto, m\u00e9dio e longo prazo. Ent\u00e3o, que felicidade \u00e9 esta que estamos oferecendo aos nossos filhos quando eles nos pedem um refrigerante, um iogurte colorido ou um biscoito que promete a eles \u201cuma aventura radical\u201d\u2019? Ser\u00e1 que quando negamos esses produtos os deixamos infelizes? N\u00e3o podemos lhes oferecer uma aventura radical real com uma brincadeira ao ar livre? Em uma escala de felicidade, o fato de termos filhos saud\u00e1veis n\u00e3o se sobrep\u00f5e a um choro ou a uma birra por ter tal produto ou \u201cprazer\u201d negado?<\/p>\n<p>Parece que atualmente a comida tem sido vista como a \u00fanica fonte de prazer de milhares de pessoas. Por que n\u00e3o transferir este papel para outras atividades como brincadeiras, leitura, dan\u00e7a ou encontros com amigos? Al\u00e9m disso, o n\u00edvel de prazer proporcionado n\u00e3o deve ser o \u00fanico crit\u00e9rio na escolha por um alimento. Assim como o \u00e1lcool, o cigarro, o consumo, o jogo e as drogas il\u00edcitas podem proporcionar um prazer inicial, que v\u00eam acompanhados de consequ\u00eancias nocivas, o mesmo pode acontecer com uma alimenta\u00e7\u00e3o desequilibrada.<\/p>\n<p>Quem discorda disso \u00e9 taxado como \u2018radical\u2019, \u2018chato\u2019, \u2018natureba\u2019, \u2018neur\u00f3tico\u2019 e agora tem sido apontado por \u2018medicalizar a alimenta\u00e7\u00e3o\u2019, como se o nosso caf\u00e9 da manh\u00e3 fosse composto apenas por duas claras de ovo com \u00f3leo de coco e canela. Desse jeito fica f\u00e1cil criar extremos. Para as acaloradas discuss\u00f5es e principalmente para a ind\u00fastria aliment\u00edcia n\u00e3o \u00e9 interessante que haja uma grada\u00e7\u00e3o, apenas dois p\u00f3los bem distantes. A comida como rem\u00e9dio ou como fonte de prazer. Assim somos levados a escolher um lado. Se optarmos pelo prazer, n\u00e3o faltar\u00e1 produtos que nos ofere\u00e7am emo\u00e7\u00f5es em todas as refei\u00e7\u00f5es. Se preferirmos a \u2018medicaliza\u00e7\u00e3o\u2019 teremos in\u00famero \u2018shakes\u2019, e alimentos vendidos como \u2018funcionais\u2019. Na minha opini\u00e3o, ao optarmos por um dos extremos estaremos servindo a um ou outro segmento industrial que encomenda artigos cient\u00edficos para justificar a oferta de seus produtos. Essa \u00e9 uma discuss\u00e3o longa e profunda que n\u00e3o cabe em um post, muito menos nos rasos 140 caracteres do Twitter, mas que deve ser feita.<\/p>\n<p>Vou dar um exemplo do que seria a \u2018coluna do meio\u2019. Substituo frequentemente a farinha de trigo pela f\u00e9cula de batata na hora de fazer um bolo, muitas vezes usamos sim o \u00f3leo de coco para agregar mais valor nutricional ao que vamos comer. Eu coloco at\u00e9 flocos de amaranto nos p\u00e3es e bolos que fa\u00e7o em casa. S\u00e3o alimentos gostosos, muito nutritivos e feitos com carinho. Tenho muito prazer em comer, n\u00e3o como nada que me desagrade pensando nos poss\u00edveis benef\u00edcios que receberei. Tenho a sorte de ter muito conhecimento \u00e0 minha disposi\u00e7\u00e3o para aliar sa\u00fade, sobretudo a preven\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as, ao prazer, \u00e0 afetividade, \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o familiar, \u00e0 reuni\u00e3o de pessoas e \u00e0 tudo que a boa comida proporciona. Definitivamente n\u00e3o estamos medicalizando a nossa alimenta\u00e7\u00e3o e n\u00e3o somos dignos de pena, nem eu, as milh\u00f5es de pessoas em todo mundo que j\u00e1 perceberam a influ\u00eancia dos alimentos na nossa qualidade de vida. Apenas estamos utilizando a comida a nosso favor e deixando de consumir aquilo que nos adoece. Nos preocupamos com o que vamos ou n\u00e3o comer porque sabemos que a comida \u00e9 a \u00fanica mat\u00e9ria prima do nosso organismo e \u00e9 determinante para prevenir ou gerar doen\u00e7as.<\/p>\n<p>Devemos estar atentos para resgatar ou mesmo descobrir valores intr\u00ednsecos de bom senso que norteava a alimenta\u00e7\u00e3o dos nossos av\u00f3s e bisav\u00f3s, que utilizavam produtos naturais, da esta\u00e7\u00e3o, para preparar pratos gostosos, mas que n\u00e3o eram vistos como a sua \u00fanica fonte de prazer. O prazer verdadeiro estava em volta da mesa, no carinho que tiveram para preparar aquele prato com ingredientes que tamb\u00e9m sejam fontes de sa\u00fade. Comida de verdade n\u00e3o \u00e9 rem\u00e9dio, mas evita o uso de rem\u00e9dios de verdade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Juliana Carreiro A internet est\u00e1 cheia de extremos, a moda do momento \u00e9 optar por apenas um lado e passar a defend\u00ea-lo com unhas e dentes, doa a quem doer. 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