{"id":131328,"date":"2017-03-09T00:22:55","date_gmt":"2017-03-09T03:22:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=131328"},"modified":"2017-03-09T08:05:19","modified_gmt":"2017-03-09T11:05:19","slug":"elas-dominam-na-faculdade-mas-nao-no-mercado-de-trabalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/elas-dominam-na-faculdade-mas-nao-no-mercado-de-trabalho\/","title":{"rendered":"Elas dominam na faculdade e perdem mercado de trabalho"},"content":{"rendered":"<p><strong>Edgard Matsuki e Fab\u00edola Sinimb\u00fa<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 mais mulheres (57%) do que homens (43%) cursando universidades no Brasil, segundo o \u00faltimo Censo da Educa\u00e7\u00e3o Superior, elaborado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais An\u00edsio Teixeira (Inep) em 2012. Por\u00e9m, a situa\u00e7\u00e3o se inverte quando as estat\u00edsticas s\u00e3o relacionadas \u00e0s ci\u00eancias como matem\u00e1tica, computa\u00e7\u00e3o e engenharias. Nessas \u00e1reas, o n\u00famero de homens \u00e9 maior do que o de mulheres em todas as regi\u00f5es do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Para a professora do Instituto de Ci\u00eancias Sociais da Universidade de Bras\u00edlia, Lourdes Bandeira, a explica\u00e7\u00e3o para a baixa participa\u00e7\u00e3o das mulheres no meio cient\u00edfico est\u00e1 na pr\u00f3pria ess\u00eancia da ci\u00eancia. \u201cAs qualidades das ci\u00eancias, engenharias e matem\u00e1tica foram criadas com base em caracter\u00edsticas masculinas como objetividade, for\u00e7a e destreza. Esse ideal cria uma esp\u00e9cie de \u201cpir\u00e2mide inversa\u201d nas quais as mulheres s\u00e3o maioria em atividades relativas ao trabalho de cuidado (como enfermagem, nutri\u00e7\u00e3o, pedagogia e assist\u00eancia social) e minoria em \u00e1reas da tecnologia, matem\u00e1tica e engenharias\u201d.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros refletem uma situa\u00e7\u00e3o vis\u00edvel em salas de aulas de universidades pelo pa\u00eds. De acordo com a professora de engenharia da computa\u00e7\u00e3o da UnB Alet\u00e9ia Favacho de Ara\u00fajo, nenhuma aluna se matriculou na turma em 2014. Na opini\u00e3o da professora, a falta de mulheres na \u00e1rea gera dois problemas: desest\u00edmulo \u00e0 participa\u00e7\u00e3o feminina e preconceito contra mulheres que ingressam na \u00e1rea.<\/p>\n<p><strong>Retrocessos na computa\u00e7\u00e3o<\/strong> &#8211; Aleteia convive diariamente com a desigualdade entre homens e mulheres no mundo da programa\u00e7\u00e3o. \u201cEm uma ocasi\u00e3o, uma caloura chegou na porta da sala e perguntou se era a turma de engenharia da computa\u00e7\u00e3o. Os alunos responderam que sim, mas completaram: a sala n\u00e3o \u00e9 sua, voc\u00ea n\u00e3o tem lou\u00e7a para lavar em casa? A menina saiu chorando\u201d, relata.<\/p>\n<p>Para a professora, o campo da programa\u00e7\u00e3o regrediu em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 participa\u00e7\u00e3o feminina. \u201cQuando eu entrei na gradua\u00e7\u00e3o [na d\u00e9cada de 90], eram 18 alunas em uma turma de 40. Hoje, chego a dar aula em turmas sem nenhuma mulher. A m\u00e9dia \u00e9 de duas mulheres a cada 30 alunos. As que entram tendem a ir se isolando dos colegas. Isso tamb\u00e9m prejudica a pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o\u201d, diz. Quando era aluna, Alet\u00e9ia lembra que quebrou tabus para seguir na computa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cNa gradua\u00e7\u00e3o e no mestrado, at\u00e9 que eu n\u00e3o sofri preconceitos. Mas no doutorado teve uma ocasi\u00e3o em que o professor pediu para desenvolver um programinha. Est\u00e1vamos em cinco e eu falei para fazermos em grupo. Um rapaz disse que n\u00e3o iria fazer porque eu era menina. O choro ficou engatado na garganta. Eu fiz o trabalho com outro rapa, e o nosso resultado foi melhor. Depois, eles pediam: vamos fazer trabalho juntos. Eu respondia: voc\u00eas s\u00e3o meninos. N\u00e3o fa\u00e7o grupo com meninos.\u201d<\/p>\n<p>M\u00e3e de dois filhos (uma menina de 7 anos e um menino de 1), a professora acredita que a educa\u00e7\u00e3o em casa pode mudar esse quadro no futuro. \u201cAs meninas t\u00eam que ser incentivadas a gostar de lego [blocos de montar], a gostar de matem\u00e1tica. Mas o que \u00e9 coisa de menina hoje? \u00c9 cuidar da casa? Ela n\u00e3o pode gostar de matem\u00e1tica? Por que os pais n\u00e3o brincam com as filhas da mesma forma que brincam com os filhos? S\u00f3 quando isso mudar, a mentalidade vai mudar.\u201d<\/p>\n<p><strong>Abnegada da ci\u00eancia<\/strong> &#8211; Desde crian\u00e7a, a professora de f\u00edsica da UnB Adriana Ibaldo tinha muito bem definida a \u00e1rea que seguiria: ci\u00eancias. \u201cA minha paix\u00e3o come\u00e7ou aos 4 anos, mas foi no ensino m\u00e9dio que me decidi pela qu\u00edmica [primeira gradua\u00e7\u00e3o]\u201d. Foi nesta \u00e9poca que ela come\u00e7ou a enfrentar as primeiras barreiras. \u201cNo ensino m\u00e9dio, j\u00e1 h\u00e1 um certo preconceito para quem tenta buscar a carreira em ci\u00eancias. Era como se fosse um desperd\u00edcio voc\u00ea optar pelas ci\u00eancias mais b\u00e1sicas.\u201d<\/p>\n<p>Na primeira gradua\u00e7\u00e3o, o fato de ser mulher n\u00e3o provocava discrimina\u00e7\u00e3o. \u201cNa qu\u00edmica, a propor\u00e7\u00e3o homem-mulher \u00e9 menos assim\u00e9trica do que na f\u00edsica. Quando eu fui para a f\u00edsica, senti o preconceito maior\u201d, afirma.<\/p>\n<p>A professora diz acreditar que a f\u00edsica \u00e9 a \u00e1rea das exatas que tem o ambiente mais hostil. \u201cH\u00e1 uma crise entre a defini\u00e7\u00e3o de feminilidade e qualidade de trabalho no meio. Quando voc\u00ea pensa em cientista, a primeira imagem que vem \u00e0 cabe\u00e7a \u00e9 masculina. A gente come\u00e7a a sentir a diferencia\u00e7\u00e3o s\u00f3 por ser mulher.\u201d Adrina ressalta que foi justamente por estar \u201cfora do estere\u00f3tipo\u201d que enfrentou os maiores desafios.<\/p>\n<p>\u201cPara eles, se voc\u00ea n\u00e3o seguir o estere\u00f3tipo da abnegada da ci\u00eancia, se voc\u00ea gosta de uma academia, de maquiagem ou se interessa por outros assuntos, isso \u00e9 um atestado de burrice. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 sutil, voc\u00ea percebe a maneira como as pessoas falam com voc\u00ea. Elas s\u00e3o mais did\u00e1ticas do que o necess\u00e1rio\u201d, destaca Adriana.<\/p>\n<p>Ela observa que as mulheres t\u00eam mais dificuldade para serem ouvidas, porque s\u00e3o minoria. \u201cVoc\u00ea est\u00e1 numa reuni\u00e3o, a\u00ed fala o t\u00f3pico A. Ningu\u00e9m d\u00e1 cr\u00e9dito. Mas, se um homem falar a mesma coisa, ele \u00e9 ouvido.\u201d<\/p>\n<p><strong>Escolhas desde a inf\u00e2ncia<\/strong> &#8211; Aos 26 anos, a estudante brasiliense B\u00e1rbara Xavier \u00e9 uma das duas \u00fanicas alunas da turma do sexto semestre de engenharia mec\u00e2nica da UnB. A hist\u00f3ria dela \u00e9 um exemplo de como a escolha da ci\u00eancia \u00e9 influenciada pela educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cMinha inf\u00e2ncia foi muito diferente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 das minhas amigas. Sempre gostava de atividades ao ar livre. Minha m\u00e3e me dava boneca, e eu perguntava: &#8216;por que voc\u00ea acha que eu quero brincar de cuidar de menino? Isso n\u00e3o \u00e9 brincadeira.&#8217; O modo de brincar influenciou nas minhas escolhas.\u201d<\/p>\n<p>B\u00e1rbara acredita que suas principais amigas n\u00e3o tiveram a mesma oportunidade de escolher um curso para estudar. \u201cMuitas achavam estranha a minha escolha. Mas eu sabia que elas n\u00e3o tinham dimens\u00e3o do que estavam falando. Elas simplesmente n\u00e3o t\u00eam as ci\u00eancias como op\u00e7\u00e3o\u201d, diz.<\/p>\n<p>Para seguir no ramo, B\u00e1rbara evita confrontos com os colegas quando eles falam coisas desagrad\u00e1veis. \u201cO fato de estar em constante contato com meninos desde a inf\u00e2ncia fez eu me acostumar com o que eles falam. Como n\u00e3o sou uma pessoa muito questionadora, evito bater de frente. S\u00f3 que isso n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o ocorre. Voc\u00ea est\u00e1 em um universo masculino. Ent\u00e3o \u00e9 obrigada a se submeter a situa\u00e7\u00f5es em que as mulheres n\u00e3o ficam t\u00e3o confort\u00e1veis.\u201d<\/p>\n<p>Uma dessas situa\u00e7\u00f5es aconteceu com uma colega que j\u00e1 saiu do curso de engenharia mec\u00e2nica. \u201cO Centro Acad\u00eamico [CA] era cheio de p\u00f4steres de mulheres nuas. N\u00e3o \u00e9 legal ser mulher e ficar vendo isso. Eu n\u00e3o reclamei, mas ela reclamou, e o presidente do CA na \u00e9poca colocou em vota\u00e7\u00e3o e venceu o n\u00e3o. No fim, houve uma discuss\u00e3o e tiraram\u201d.<\/p>\n<p>Para mudar esse quadro, B\u00e1rbara participa de um projeto da universidade que apresenta a meninas adolescentes os caminhos da ci\u00eancia. \u201cLevar um projeto como esse para a escola \u00e9 interessante porque voc\u00ea mostra esse mundo para elas&#8221;, afirma a estudante.<\/p>\n<p>A estudante acredita que n\u00e3o apenas ela, mas a ci\u00eancia ganha com todo esse trabalho de conscientiza\u00e7\u00e3o. \u201cA mulher tem algumas qualidades que o homem n\u00e3o tem. Ela cuida dos m\u00ednimos detalhes e tem uma percep\u00e7\u00e3o no micro que o homem n\u00e3o tem.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Edgard Matsuki e Fab\u00edola Sinimb\u00fa H\u00e1 mais mulheres (57%) do que homens (43%) cursando universidades no Brasil, segundo o \u00faltimo Censo da Educa\u00e7\u00e3o Superior, elaborado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais An\u00edsio Teixeira (Inep) em 2012. Por\u00e9m, a situa\u00e7\u00e3o se inverte quando as estat\u00edsticas s\u00e3o relacionadas \u00e0s ci\u00eancias como matem\u00e1tica, computa\u00e7\u00e3o e engenharias. 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