{"id":133499,"date":"2017-03-29T08:33:27","date_gmt":"2017-03-29T11:33:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=133499"},"modified":"2017-03-29T16:00:19","modified_gmt":"2017-03-29T19:00:19","slug":"para-que-o-ceu-nao-caia-e-dancar-ensina-lia-rodrigues","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/para-que-o-ceu-nao-caia-e-dancar-ensina-lia-rodrigues\/","title":{"rendered":"Para que o C\u00e9u n\u00e3o caia, \u00e9 s\u00f3 dan\u00e7ar, ensina Lia Rodrigues"},"content":{"rendered":"<p><strong>Helena Katz<\/strong><\/p>\n<p>Espalhar no ar, com um sopro, o que vem da terra para cobrir os corpos. Primeiro, o p\u00f3 de caf\u00e9, depois, a farinha branca, e por fim, a\u00e7afr\u00e3o. E os corpos v\u00e3o se cobrindo da hist\u00f3ria de um certo Brasil, com o marrom que, talvez, possa vir do ciclo do caf\u00e9; com o branco que, talvez, possa remeter ao ciclo do a\u00e7\u00facar; e com o dourado, que, talvez, possa ser do ciclo do ouro. Mas, quando se olha com mais aten\u00e7\u00e3o, percebe-se que \u00e9 justamente o que vai cobrindo os bailarinos que os deixa nus e os leva a tentar recompor algo dessa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Para Que o C\u00e9u N\u00e3o Caia, o trabalho mais recente de Lia Rodrigues com a sua companhia, em cartaz no Sesc Belenzinho, fala do outro, aquele que n\u00e3o se sabe ouvir, e nos mergulha no desconforto de precisar admitir n\u00e3o saber &#8211; a condi\u00e7\u00e3o primeira para mudar algo.<\/p>\n<p>Quando os bailarinos chegam bem perto de n\u00f3s, criando uma situa\u00e7\u00e3o de intimidade, uma quase impossibilidade se escancara. O rosto abre uma terceira dimens\u00e3o na cena porque nela se faz relevo. Se oferece sem defesa, mas ambivalente: convida e interdita. J\u00e1 o olhar, ele parece saber algo e, a partir desse algo, \u00e0s vezes confronta, \u00e0s vezes convida. No face a face, fica-se ref\u00e9m porque a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o cabe na simetria. Ao aproximar o rosto de n\u00f3s, cada bailarino fecha um circuito, cuja qu\u00edmica tenta afofar o escuro onde se d\u00e1.<\/p>\n<p>Com o fil\u00f3sofo Emmanuel L\u00e9vinas, a gente aprende que a experi\u00eancia com o outro lembra a vulnerabilidade do encontro com a face porque tamb\u00e9m excede a possibilidade de ser descrito. \u00c9 dessa natureza a aproxima\u00e7\u00e3o das faces dos bailarinos. Por eles, nos chegam esses outros, sejam os craqueiros zumbis da favela da Mar\u00e9 ou os ianom\u00e2mis de Davi Kopenawa em A Queda do C\u00e9u, livro que \u00e9 uma das muitas presen\u00e7as convocadas em Para Que o C\u00e9u N\u00e3o Caia. M\u00e1rio de Andrade que levou Lia pela m\u00e3o para o Brasil de Folia, sua cria\u00e7\u00e3o estreada em 1996 e recriada em 1997, reaparece nas dan\u00e7as, sobretudo no Mateus matreiro de Francisco Thiago Cavalcanti.<\/p>\n<p>Folia reaparece como que &#8220;explodida&#8221;. Porque agora, uma estrutura de ocupar e distribuir sustenta a composi\u00e7\u00e3o. Os bailarinos v\u00e3o ocupando o espa\u00e7o e o p\u00fablico precisa se distribuir ao seu redor. Os passos que eles dan\u00e7am seguem a mesma l\u00f3gica: v\u00e3o ocupando seus corpos, mas uma urg\u00eancia os expele para o espa\u00e7o, distribuindo-os como se o caf\u00e9, a farinha e o a\u00e7afr\u00e3o continuassem a ser soprados.<\/p>\n<p>As vozes gritadas riscam em n\u00f3s a sua mescla de ardor e aridez, desbaratinam o que se gostaria ordenado, espancam as palavras n\u00e3o ditas. As bocas abertas pulsam imagens implac\u00e1veis de dores.<\/p>\n<p>O elenco, que estampa diversidade em todas as dire\u00e7\u00f5es (tamanho, modos de fazer, cor, etc.), distribui a sua compet\u00eancia em cada inflex\u00e3o. Os excessos est\u00e3o afastados. M\u00e9rito de cada um e, sobretudo, do trabalho meticuloso de Am\u00e1lia Lima que, pela primeira vez, n\u00e3o dan\u00e7a e atua como assistente de cria\u00e7\u00e3o e dire\u00e7\u00e3o. Leonardo Nunes cresceu tanto, artisticamente, que seu corpo alargado de sabedorias, agora cintila.<\/p>\n<p><b>Est\u00e1 escuro &#8211;\u00a0<\/b>\u00c9 preciso agarrar com os olhos aquilo que os corpos p\u00f5em no espa\u00e7o. Porque o mundo n\u00e3o \u00e9 dado, mas constru\u00eddo pelo nosso olhar. Porque nele est\u00e1 tamb\u00e9m esse outro a ser encontrado. Sendo o c\u00e9u &#8220;aquilo que est\u00e1 acima de n\u00f3s&#8221;, na l\u00edngua ianom\u00e2mi, que arcos impedir\u00e3o que desabe? Para que o c\u00e9u n\u00e3o caia vai instalando um, que toma formas distintas, e em cada uma delas reafirma a for\u00e7a da combina\u00e7\u00e3o de todos os p\u00f3s. \u00c9 uma met\u00e1fora contundente do que \u00e9 necess\u00e1rio fazer para que o c\u00e9u n\u00e3o caia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Helena Katz Espalhar no ar, com um sopro, o que vem da terra para cobrir os corpos. Primeiro, o p\u00f3 de caf\u00e9, depois, a farinha branca, e por fim, a\u00e7afr\u00e3o. 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