{"id":133844,"date":"2017-04-01T09:30:12","date_gmt":"2017-04-01T12:30:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=133844"},"modified":"2017-04-01T09:30:12","modified_gmt":"2017-04-01T12:30:12","slug":"sindrome-panico-tambem-atinge-nossas-criancas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/sindrome-panico-tambem-atinge-nossas-criancas\/","title":{"rendered":"S\u00edndrome do p\u00e2nico tamb\u00e9m atinge nossas crian\u00e7as"},"content":{"rendered":"<p><strong>Marcel Hartmann<\/strong><\/p>\n<p>Aos seis anos, Beatriz (nome fict\u00edcio) come\u00e7ou a fazer observa\u00e7\u00f5es recorrentes sobre chuva, vento ou trovoadas. Os pais s\u00f3 achavam curioso, at\u00e9 que os inocentes coment\u00e1rios evolu\u00edram para uma crise de ansiedade \u00e0 beira da piscina de um hotel no interior de S\u00e3o Paulo, em um dia ensolarado de dezembro do ano passado.<\/p>\n<p>Com a aproxima\u00e7\u00e3o de nuvens e amea\u00e7a de chuva, Bia perdeu o controle: ficou extremamente aflita, respirava rapidamente, passou a suar e a aumentar a frequ\u00eancia dos batimentos card\u00edacos. Desesperada, ela saiu correndo para dentro do hotel, pedindo que os pais e a irm\u00e3 mais nova se refugiassem junto.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, a garota n\u00e3o consegue mais sair para lugares ao ar livre &#8211; parques, pra\u00e7as ou passeios pela rua sa\u00edram de sua rotina. A garota exibe sintomas comuns da s\u00edndrome do p\u00e2nico infantil, um transtorno de ansiedade que apenas nos \u00faltimos anos vem chamando a aten\u00e7\u00e3o dos especialistas.<\/p>\n<p>&#8220;A Bia tem grande fixa\u00e7\u00e3o por fen\u00f4menos da natureza, como chuva, nuvens, raios e trov\u00f5es. Quando acorda, a primeira coisa que faz \u00e9 abrir a janela e dizer: &#8216;Hoje tem nuvens, pode chover'&#8221;, conta a m\u00e3e, a jornalista Ana Paula (nome trocado a pedido da entrevistada). Ao falar da primeira crise de ansiedade da filha, na piscina do hotel, Ana explica que a rotina da pequena se transformou. &#8220;Mesmo em dia de sol lindo, ela n\u00e3o quer fazer passeios ao ar livre, prefere ficar em casa. Ela tem no\u00e7\u00e3o de que \u00e9 absurdo, mas mesmo assim fica ansiosa&#8221;, conta.<\/p>\n<p>Em geral, a s\u00edndrome do p\u00e2nico infantil n\u00e3o difere da manifesta\u00e7\u00e3o em adultos: h\u00e1 sintomas no corpo e na mente (confira abaixo). Normalmente, ela \u00e9 marcada pelas crises de ansiedade &#8211; que podem durar de cinco minutos at\u00e9 meia hora e, em casos mais graves, uma hora &#8211; e por algum tipo de fobia (como o medo da natureza de Bia). Se n\u00e3o tratada, ela pode aumentar as chances do desenvolvimento de TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo), hipocondria e depress\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 dados sobre a incid\u00eancia de s\u00edndrome do p\u00e2nico em crian\u00e7as no Brasil. Mas cerca de 5% das crian\u00e7as e adolescentes ocidentais sofrem de algum transtorno de ansiedade, conforme a Associa\u00e7\u00e3o Internacional de Psiquiatria da Inf\u00e2ncia e Adolesc\u00eancia e Profiss\u00f5es Afins (IACAPAP, na sigla em ingl\u00eas), dos Estados Unidos.<\/p>\n<p><strong>Sintomas ps\u00edquicos<\/strong><br \/>\nAnsiedade extremada, preocupa\u00e7\u00e3o desmesurada, agita\u00e7\u00e3o, sensa\u00e7\u00e3o de perigo pr\u00f3ximo, sensa\u00e7\u00e3o de morte, agressividade, falta de conex\u00e3o com a realidade, medo de uma crise de ansiedade.<\/p>\n<p><strong>Sintomas f\u00edsicos<\/strong><br \/>\nTaquicardia, sudorese, transpira\u00e7\u00e3o excessiva, palpita\u00e7\u00e3o, tremores, calafrios, dores no corpo, tontura, falta de ar.<\/p>\n<p>Nas crian\u00e7as, a preocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma simples birra. Para quem sofre de s\u00edndrome do p\u00e2nico, o medo assume contornos horripilantes: a possibilidade de perigo \u00e9 t\u00e3o real quanto a presen\u00e7a, de fato, do perigo. Essa luva de ang\u00fastia que envolve o pensamento incapacita para atividades do dia a dia. E o medo da natureza, da viol\u00eancia urbana, de altura, de grupos ou de pessoas, por exemplo, impede o indiv\u00edduo de sair de casa, entrar no carro e ir para lugares com multid\u00f5es, exemplifica Bruno Raffa, professor da resid\u00eancia em psiquiatria do Hospital S\u00e3o Lucas da PUCRS, em Porto Alegre, e especialista em inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8220;Comportamentos evitativos s\u00e3o sinais de transtorno de ansiedade, que trazem uma preocupa\u00e7\u00e3o excessiva em rela\u00e7\u00e3o ao mundo&#8221;, explica o m\u00e9dico. Em crian\u00e7as, a s\u00edndrome do p\u00e2nico pode ser marcada, al\u00e9m dos conhecidos &#8220;ataques de p\u00e2nico&#8221;, por terrores noturnos (pesadelos que fazem gritar, chorar e tremer) e a necessidade de ficar o tempo todo perto dos pais.<\/p>\n<p>As crises podem ou n\u00e3o ser desencadeadas por um est\u00edmulo. Isto \u00e9, o indiv\u00edduo pode estar exposto ao foco do medo, mas tamb\u00e9m estar tranquilamente no sof\u00e1, assistindo \u00e0 televis\u00e3o.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s enfrentar as primeiras crises, a crian\u00e7a adquire uma &#8220;meta-ansiedade&#8221;: o medo de ficar ansiosa novamente. &#8220;Ela evitar\u00e1 situa\u00e7\u00f5es ou lugares onde sofreu o ataque de p\u00e2nico, por medo de sentir o que sentiu. Isso aumenta o comprometimento da vida, e ela pode deixar de fazer o que fazia normalmente&#8221;, explica Fernando Asbahr, psiquiatra coordenador do Programa de Transtornos Ansiosos na Inf\u00e2ncia e Adolesc\u00eancia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Cl\u00ednicas da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP). &#8220;A longo prazo, isso pode causar depress\u00e3o ou abuso de bebidas e drogas, se n\u00e3o for feito o tratamento, porque o jovem se frustra ao longo do tempo, ao ficar isolado em casa&#8221;, afirma.<\/p>\n<p><strong>Causas <\/strong>&#8211; Pais, n\u00e3o adianta se culpar. A s\u00edndrome do p\u00e2nico \u00e9 resultado da intera\u00e7\u00e3o entre heran\u00e7a gen\u00e9tica e a rela\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo com o ambiente, explica o psiquiatra Fernando Asbahr. &#8220;Ter ou n\u00e3o quadros de ansiedade depende da predisposi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica&#8221;, diz o m\u00e9dico. Fam\u00edlias com hist\u00f3rico de transtornos de ansiedade (pais, tios ou av\u00f3s) t\u00eam mais chance de descendentes adquirirem o mesmo problema.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso da fam\u00edlia de Bia. &#8220;Minha av\u00f3 paterna tinha fobia de chuva. E temos outros parentes, meus e do meu marido, com problemas de ansiedade&#8221;, conta Ana Paula.<\/p>\n<p>Apesar do gene influenciar, ele n\u00e3o explica tudo &#8211; se fosse assim, pais com s\u00edndrome do p\u00e2nico teriam todos os filhos com a mesma viv\u00eancia. Entra, aqui, a intera\u00e7\u00e3o da pessoa com o ambiente, que far\u00e1 (ou n\u00e3o) a doen\u00e7a se manifestar. Isso inclui desde uma experi\u00eancia traum\u00e1tica (como bullying, um assalto, um acidente de carro, o testemunho de um inc\u00eandio ou de uma tempestade) quanto pais ansiosos e estressados, que ensinam ao filho a encarar a realidade de forma semelhante.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c0s vezes, a fam\u00edlia \u00e9 excessivamente protetora e tem uma vis\u00e3o muito negativa das coisas. Isso faz a crian\u00e7a ver o mundo sob a \u00f3tica do medo e de que as coisas v\u00e3o dar errado&#8221;, explica Bruno Raffa. Como resultado, a crian\u00e7a visualiza a possibilidade de que algo d\u00ea errado no futuro (o que de fato, pode ocorrer &#8211; com qualquer um) como uma senten\u00e7a de que o pior cen\u00e1rio vai acontecer. Viver torna-se, aos poucos, a tentativa de evitar uma cat\u00e1strofe.<\/p>\n<p><strong>Tratamento<\/strong> &#8211; N\u00e3o veja a s\u00edndrome do p\u00e2nico do seu filho como uma senten\u00e7a de m\u00e1 qualidade de vida, alertam os especialistas. Ela n\u00e3o \u00e9, necessariamente, incapacitante. De fato, a doen\u00e7a \u00e9 motivada pela ansiedade &#8211; e como esta n\u00e3o tem &#8220;cura&#8221;, ao menos no sentido mais utilizado, a s\u00edndrome tamb\u00e9m n\u00e3o. A ci\u00eancia sabe que indiv\u00edduos que tiveram s\u00edndrome do p\u00e2nico em algum momento da vida t\u00eam mais chances de sofrer algum transtorno de ansiedade.<\/p>\n<p>No entanto, o tratamento com terapia e, eventualmente, antidepressivos ou ansiol\u00edticos, controla as manifesta\u00e7\u00f5es das crises. E, com isso, permite uma vida saud\u00e1vel &#8211; incluindo, futuramente, a perda da fobia. A longo prazo, a medicina j\u00e1 tem boas orienta\u00e7\u00f5es para controlar a ansiedade: a pr\u00e1tica de exerc\u00edcios f\u00edsicos, de yoga e de medita\u00e7\u00e3o s\u00e3o algumas delas.<\/p>\n<p>Na hora da crise, cabe aos pais tentar acalmar a crian\u00e7a. &#8220;Leve-a para um lugar tranquilo, com poucos est\u00edmulos visuais e sonoros, e fa\u00e7a ela inspirar por 10 segundos e expirar por mais 10 segundos. Pe\u00e7a que ela pense em coisas boas at\u00e9 relaxar&#8221;, orienta Raffa.<\/p>\n<p>E, no dia a dia, procure n\u00e3o culpar a crian\u00e7a, nem cobr\u00e1-la por maturidade. Ana Paula, a m\u00e3e de Bia, segue \u00e0 risca. &#8220;Eu e meu marido damos apoio, conversamos e explicamos, sem supervalorizar. A gente conversa e ela entende. A Bia \u00e9 superindependente, descolada e muito inteligente&#8221;, diz a jornalista. &#8220;Ela toma florais e j\u00e1 est\u00e1 melhor. Mas acho que entraremos com a terapia, at\u00e9 para termos a tranquilidade de que tudo ficar\u00e1 bem resolvido&#8221;, diz Ana.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marcel Hartmann Aos seis anos, Beatriz (nome fict\u00edcio) come\u00e7ou a fazer observa\u00e7\u00f5es recorrentes sobre chuva, vento ou trovoadas. Os pais s\u00f3 achavam curioso, at\u00e9 que os inocentes coment\u00e1rios evolu\u00edram para uma crise de ansiedade \u00e0 beira da piscina de um hotel no interior de S\u00e3o Paulo, em um dia ensolarado de dezembro do ano passado. 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