{"id":136547,"date":"2017-04-27T08:33:09","date_gmt":"2017-04-27T11:33:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=136547"},"modified":"2017-04-27T08:34:33","modified_gmt":"2017-04-27T11:34:33","slug":"peca-traz-discurso-forte-para-examinar-problema-indigena","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/peca-traz-discurso-forte-para-examinar-problema-indigena\/","title":{"rendered":"Pe\u00e7a traz discurso forte para examinar problema ind\u00edgena"},"content":{"rendered":"<p><strong>Maria Eug\u00eania de Menezes<\/strong><\/p>\n<p>No teatro, a primeira palavra dita em cena \u00e9 uma esp\u00e9cie de chave para um mundo que ainda n\u00e3o se conhece. A maneira como \u00e9 pronunciada, a quem se dirige, do que trata: est\u00e1 ali como um mapa para o espet\u00e1culo que vir\u00e1 a seguir. Em Se Eu Fosse Iracema, a atriz Adassa Martins rompe o sil\u00eancio inicial com signos incompreens\u00edveis. Frases em alguma l\u00edngua ind\u00edgena, um discurso do qual nada se apreende.<\/p>\n<p>A escurid\u00e3o \u00e9 quase completa. Na penumbra, apenas uma faixa t\u00eanue de luz corta o palco na horizontal e p\u00f5e em evid\u00eancia os olhos da int\u00e9rprete. Nesses minutos iniciais, o espectador n\u00e3o ouve nem v\u00ea nada de reconhec\u00edvel. Apenas sombras, um corpo disforme, \u00e0 semelhan\u00e7a de Abaporu. Est\u00e1 a caminhar no territ\u00f3rio da alteridade radical. Quem \u00e9 o \u00edndio? O que \u00e9?<\/p>\n<p>Em 2012, a etnia guarani-caiov\u00e1 divulgou uma carta em que pedia que se decretasse sua morte coletiva. A pe\u00e7a partiu da\u00ed. O fato, \u00e0 \u00e9poca, gerou alguma como\u00e7\u00e3o nas redes sociais, certa dose de espanto. Uma das raras situa\u00e7\u00f5es em que essa gente ex\u00f3tica aparece nos notici\u00e1rios. Um \u00edndio queimado por adolescentes em Bras\u00edlia, um menino \u00edndio degolado em uma rodovi\u00e1ria. A gente se lembra de ter ouvido essas hist\u00f3rias e depois esquece.<\/p>\n<p>As primeiras palavras em portugu\u00eas pronunciadas pela int\u00e9rprete t\u00eam ar de manifesto. &#8220;Um homem branco vale mais do que um homem de qualquer outra cor.&#8221; Mas esse mon\u00f3logo se p\u00f5e a ampliar &#8211; ao limite do paroxismo &#8211; o que poderia soar mera frase de efeito. \u00c9 uma mulher branca quem fala. A confus\u00e3o entre imagem e discurso \u00e9 um dos recursos usados pela dire\u00e7\u00e3o de Fernando Nicolau para embaralhar convic\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Indicada para o Pr\u00eamio Shell do Rio, por sua atua\u00e7\u00e3o, Adassa Martins se transmuta em muitas figuras: \u00e9 uma crian\u00e7a, um paj\u00e9, uma \u00edndia que viu o pai ser espancado e foi expulsa de suas terras. A atriz empresta for\u00e7a, veracidade e veem\u00eancia a cada um desses relatos. \u00c9 not\u00e1vel como transforma a voz, como domina o corpo para dar-lhe outras formas. Mas o brilho n\u00e3o se restringe \u00e0 representa\u00e7\u00e3o, est\u00e1 na forma como imp\u00f5e sua presen\u00e7a. Adassa n\u00e3o se traveste. Evidencia a pele branca, o olhar branco. E n\u00e3o nos deixa esquecer: \u00e9 uma estrangeira. A dizer de dores que n\u00e3o s\u00e3o suas. Mas s\u00e3o. A dizer de um eu que \u00e9 um outro.<\/p>\n<p>Uma pe\u00e7a que trata da quest\u00e3o ind\u00edgena &#8211; dir\u00e3o muitos quando instados a resumir Se Eu Fosse Iracema. A senten\u00e7a \u00e9 t\u00e3o verdadeira quanto imprecisa. Nessa cria\u00e7\u00e3o, se est\u00e1 a falar, sobretudo, de vis\u00f5es hegem\u00f4nicas, de olhares parciais e excludentes sobre o mundo, de estere\u00f3tipos que se perpetuam. O Brasil, o pa\u00eds do futuro, \u00e0 espera de um destino glorioso que nunca se realiza.<\/p>\n<p>A dramaturgia de Fernando Marques reflete sobre compaix\u00e3o, empatia, identidade, justi\u00e7a e direitos; entremeia trechos da Constitui\u00e7\u00e3o federal a narrativas e lendas. Vai contando do que somos sem saber: seres forjados por atrocidades, do\u00e7uras, belezas e viol\u00eancias indiz\u00edveis.<\/p>\n<p>S\u00e3o sum\u00e1rias as indica\u00e7\u00f5es cenogr\u00e1ficas: um tronco de \u00e1rvore cortado, um \u00fanico figurino que se restringe a uma saia de borracha. Uma economia de meios que dialoga com a bem urdida ilumina\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo. Com o aux\u00edlio de precisos feixes e faixas de luz, Adassa Martins vir\u00e1 desenhar seus personagens e criar atmosferas.<\/p>\n<p>Os ambientes de luz e sombra contam dos lugares pelos quais a obra passeia. Elegem o claro para a contund\u00eancia do discurso, a penumbra para os enlevos po\u00e9ticos.<\/p>\n<p>\u00c9 tempo de um teatro pol\u00edtico de outra natureza, distante do discurso pedag\u00f3gico que pautou as cria\u00e7\u00f5es, por exemplo, do Teatro de Arena e de seus autores. Um impulso \u00e9tico e transformador embala algumas das melhores cria\u00e7\u00f5es das \u00faltimas temporadas e Se Eu Fosse Iracema se une a essa boa safra. N\u00e3o d\u00e1 prioridade \u00e0 mensagem em detrimento da est\u00e9tica; tem convic\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o certezas. Cada espectador sai de l\u00e1 sozinho, com um gosto amargo na boca e sem o amparo de palavras conciliadoras.<\/p>\n<p><strong>SE EU FOSSE IRACEMA<\/strong><br \/>\nIta\u00fa Cultural<br \/>\n2\u00aa e 3\u00aa, \u00e0s 20h. Gr\u00e1tis<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Eug\u00eania de Menezes No teatro, a primeira palavra dita em cena \u00e9 uma esp\u00e9cie de chave para um mundo que ainda n\u00e3o se conhece. A maneira como \u00e9 pronunciada, a quem se dirige, do que trata: est\u00e1 ali como um mapa para o espet\u00e1culo que vir\u00e1 a seguir. 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