{"id":137254,"date":"2017-05-04T09:40:54","date_gmt":"2017-05-04T12:40:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=137254"},"modified":"2017-05-04T09:40:54","modified_gmt":"2017-05-04T12:40:54","slug":"joao-firmino-pena-meu-verdadeiro-amigo-zeca-diabo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/joao-firmino-pena-meu-verdadeiro-amigo-zeca-diabo\/","title":{"rendered":"Jo\u00e3o Firmino Pena, meu verdadeiro amigo Zeca Diabo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jos\u00e9 Escarlate<\/strong><\/p>\n<p>Ele era meu amigo desde a minha primeira estada em Bras\u00edlia. Jo\u00e3o Firmino Pena trabalhava no Banco Nacional, aquele do guarda-chuva, transferido de Beag\u00e1. Chegou nos prim\u00f3rdios da cidade, depois de inaugurada. Calmo, tranquilo, irreverente, depois do expediente gostava de um bom u\u00edsque, mas s\u00f3 bebia ap\u00f3s as sete da noite. O preferido era o bar do Hotel Nacional. Fizemos amizade mais forte ainda com a minha ida para o Pal\u00e1cio do Planalto. Mineiro de Caratinga, defendia sua cidade com unhas e dentes. Pouca gente sabe, mas ele se iniciou no jornalismo como colunista social e de fofocas, no jornal Caratinga.<\/p>\n<p>Era o \u201cPenumbra\u201d, provocador, atento, conquistando furos jornal\u00edsticos na sua cidadezinha. Entre suas fa\u00e7anhas foi conseguir exportar Agnaldo Tim\u00f3teo para os c\u00e9us do Brasil e fazer de Stael Abelha, sua conterr\u00e2nea, miss Brasil 1961. Companheiro de inf\u00e2ncia do Ziraldo, tornou-se atra\u00e7\u00e3o com a coluna \u201cNotas de um rep\u00f3rter\u201d. Acreditando no sonho de JK, arrumou a trouxa e veio. Alma pura, era brincalh\u00e3o e gozador. Tinha suas manias. Falando ao telefone, n\u00e3o se despedia do interlocutor. Simplesmente desligava o aparelho.<\/p>\n<p>No Planalto, pregou grandes pe\u00e7as, inclusive a mim. Na sala de imprensa faz\u00edamos rod\u00edzio para tirar do gravador discursos de ministros e do pr\u00f3prio presidente. Cada dia era um. Certa vez tirei do gravador discurso de Geisel lan\u00e7ando regi\u00f5es metropolitanas, onde ele citava Rio, S\u00e3o Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre e Curitiba. Pedi ao Pena para tirar c\u00f3pias. Ele foi e, quando voltou, depois de distribuir o texto para os colegas, enviei a mat\u00e9ria para a Ag\u00eancia Nacional, que distribuiu a \u00edntegra pelo pa\u00eds. At\u00e9 ai, tudo bem.<\/p>\n<p>Na tarde seguinte, ao chegar ao Planalto, vejo pregada no quadro de avisos a primeira p\u00e1gina do jornal \u201cO Caratinga\u201d e, em letras garrafais, a manchete: \u201cGeisel cita Caratinga em seu discurso\u201d. Simplesmente o Pena havia colocado na mat\u00e9ria, ao lado das cidades citadas, o da sua Caratinga. A goza\u00e7\u00e3o foi imensa.<\/p>\n<p>Pena foi meu companheiro na Ag\u00eancia Nacional e EBN e amigo at\u00e9 o fim da vida. Generoso, gostava de ajudar a todos. Quando fui colocado na geladeira por ocasi\u00e3o da Nova Rep\u00fablica, ele sentiu meu drama e falou com o Fernando C\u00e9sar, porta voz de Sarney, que ligou para l\u00e1 e mandou que acabassem com aquilo. Uma tarde, chego ao Planalto e o Pena e Jankiel Gonczarowska discutiam. A mulher do Pena, dona D\u00e9bora, era dentista e trabalhava no minist\u00e9rio do Planejamento. Jankiel, doido por uma mordomia, pediu ao Pena que ela atendesse sua filha. A menina foi e teve arrancado o dente errado. Pena, emparedado, se desculpava. Foi quando o Jankiel desabafou: \u201cEu desculpo, mas minha filha \u00e9 que ficou sem o dente\u201d.<\/p>\n<p>Bom de copo. Bebia todas as noites. Rep\u00f3rter do jornal \u00daltima Hora e embalado por Samuel Wainer, que gostava dele, Pena n\u00e3o bebia \u00e0 luz do dia. S\u00f3 depois das sete da noite. Quando inventaram o hor\u00e1rio de ver\u00e3o, 19 horas ainda estava claro. Foi quando indagaram a ele se ia esperar escurecer. \u201cClaro que n\u00e3o. Se estiver claro, coloco \u00f3culos escuros\u201d. Pena s\u00f3 me chamava de \u201cZeca Diabo\u201d, personagem do ator Lima Duarte, criado por Dias Gomes na novela \u201cO Bem Amado\u201d. Ligava pra minha casa, Aurora atendia e ele pedia, \u201cme chama o Zeca Diabo\u201d. Isso era em qualquer lugar. Na EBN, ou onde fosse.<\/p>\n<p>Mas ele n\u00e3o era s\u00f3 ternura. Um dia, em plena revolu\u00e7\u00e3o, chegando ao Planalto foi informado de que sua credencial havia sido cassada pelo capit\u00e3o Tedeska, chefe da seguran\u00e7a. Com bom tr\u00e2nsito com o ent\u00e3o coronel Meira Mattos, Pena sabia que o militar jantava periodicamente no restaurante Caravelle. Encontrou-se com ele e disse do problema. Antes, escreveu uma carta ao general Geisel, do Gabinete Militar de Castello Branco, que a repassou a Meira Mattos.<\/p>\n<p>Chamado a pal\u00e1cio um m\u00eas depois, Meira Mattos abriu: \u201cPena, o capit\u00e3o Tedeska vai lhe devolver a credencial. Est\u00e1 tudo em ordem. Passe na seguran\u00e7a\u201d. Ai o Pena encrespou: \u201cPerd\u00e3o, coronel. Estarei na sala de imprensa aguardando o capit\u00e3o para receber de volta minha credencial\u201d. \u00c0s 15 horas, Tedeska devolveu o documento ao Jo\u00e3o Pena. Mas o Gabinete Militar prosseguiu nas investiga\u00e7\u00f5es. Resumo da \u00f3pera: foi constatado que um colega do Pena, da Radio Nacional, o dedurou dizendo que ele \u201csabotava\u201d a cobertura do presidente Castello Branco.<\/p>\n<p>Pena era querido por todos, mas n\u00e3o tinha estampa. Cobria o Pal\u00e1cio pela Rede Globo, mas sem imagem. Quando havia algo importante a Globo mandava os olhos verdes do Pedro Rog\u00e9rio ou a Beatriz Thielmann. Pena era grande amigo do Toninho Drummond, \u201ccapo\u201d da emissora, em Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>Na madrugada do dia 3 de outubro de 1989, ap\u00f3s completar 60 anos de idade, o valente e querido amigo Jo\u00e3o Firmino Pena nos deixava. Faleceu ao lado da mulher, D\u00e9bora, e das filhas Luciene, Denise e Liliane, \u00e0s quais dedicou seu livro \u201cDe Caratinga \u00e0s Muralhas da China\u201d, com a hist\u00f3ria de sua vida. Fui ao sepultamento, na Ala dos Pioneiros do Campo da Esperan\u00e7a. Fiquei intrigado quando vi seu caix\u00e3o fechado. At\u00e9 hoje sou grilado com isso. Denise e dona D\u00e9bora negam que ele tenha sido agredido, o que eu suspeitava. Disseram que fora desejo seu, o que duvido.<\/p>\n<p>O cronista Dilson Ribeiro, membro da Academia de Letras de Bras\u00edlia, assinala que, no livro, Pena \u201cradiografa as mazelas do regime que sepultamos em 15 de mar\u00e7o de 1985. Deixou os limites da cidadania mineira, ganhou os quatro cantos do mundo para ver de perto as muralhas da China e os mist\u00e9rios da civiliza\u00e7\u00e3o oriental. Finaliza dizendo que \u201ca moldura de Jo\u00e3o Pena sempre foi exemplo de corre\u00e7\u00e3o com os colegas, um verdadeiro bom car\u00e1ter\u201d. Todos n\u00f3s ficamos \u00f3rf\u00e3os de um grande amigo.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-83053\" src=\"http:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/PV.png\" alt=\"\" width=\"122\" height=\"26\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Escarlate Ele era meu amigo desde a minha primeira estada em Bras\u00edlia. Jo\u00e3o Firmino Pena trabalhava no Banco Nacional, aquele do guarda-chuva, transferido de Beag\u00e1. Chegou nos prim\u00f3rdios da cidade, depois de inaugurada. 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