{"id":138076,"date":"2017-05-11T08:58:04","date_gmt":"2017-05-11T11:58:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=138076"},"modified":"2017-05-11T09:44:58","modified_gmt":"2017-05-11T12:44:58","slug":"tornozeleira-em-rico-e-moleza-vai-ver-o-lado-pobre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/tornozeleira-em-rico-e-moleza-vai-ver-o-lado-pobre\/","title":{"rendered":"Tornozeleira em rico \u00e9 moleza. V\u00e1 ver o lado do preso pobre"},"content":{"rendered":"<p><strong>Gilberto Amendola<\/strong><\/p>\n<p>O detector de metal avisa que algo est\u00e1 errado. O homem para, faz uma cara de enfado e levanta uma das pernas de sua cal\u00e7a bege &#8211; exibindo a tornozeleira eletr\u00f4nica que o acompanha. O agente penitenci\u00e1rio faz um gesto com a cabe\u00e7a e o detento segue adiante. Ouve-se apenas o som seco das portas de ferro que se fecham em sequ\u00eancia.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma manh\u00e3 diferente na penitenci\u00e1ria Adriano Marrey, em Guarulhos, na Grande S\u00e3o Paulo. A enfermaria da unidade transformou-se em uma pequena sala de cinema, onde cerca de cem detentos assistir\u00e3o o document\u00e1rio Corpo de Delito, do diretor Pedro Rocha (e parte do programa Hist\u00f3rias que Ficam, da Funda\u00e7\u00e3o CSN). O filme conta a hist\u00f3ria do detento Ivan, que sai para o semiaberto com uma tornozeleira eletr\u00f4nica. A expectativa \u00e9 de encontrar ali uma audi\u00eancia diretamente interessada no assunto.<\/p>\n<p>Antes das 9 horas, os homens come\u00e7am a ocupar as cadeiras de pl\u00e1stico. A disciplina parece internalizada por eles. N\u00e3o se v\u00ea agentes penitenci\u00e1rios ou esquemas de seguran\u00e7a ostensivos. O sil\u00eancio faz parte do protocolo. Quem se atrasa, e s\u00e3o poucos, tem a desculpa de estar &#8220;fazendo a barba&#8221; &#8211; que foi uma das exig\u00eancia da dire\u00e7\u00e3o para quem fosse acompanhar a sess\u00e3o.<\/p>\n<p>Na sala, homens que est\u00e3o presos por participa\u00e7\u00e3o em assaltos, tr\u00e1fico de drogas e homic\u00eddio. Muitos est\u00e3o &#8220;puxando cana&#8221; pela segunda vez. Os detentos acompanham a hist\u00f3ria de Ivan, que recebe o benef\u00edcio do regime semiaberto, mas se v\u00ea preso em uma rotina que comporta apenas um trajeto entre a casa e um trabalho de &#8220;apertador de parafuso&#8221;. Ele convive com sua mulher e a filha que mal conhece, nascida durante a pris\u00e3o, e um vizinho dez anos mais jovem. N\u00e3o demora e o filme deixa claro que Ivan n\u00e3o se sente livre. A tornozeleira imp\u00f5e barreiras que parecem mais s\u00f3lidas do que aquelas com as quais ele conviveu por oito anos. &#8220;A liberdade com tornozeleira \u00e9 como se o seu pai te desse uma bola no Natal, mas te proibisse de brincar na rua com ela&#8221;, diz Caio Vin\u00edcius Moreira, 30 anos, preso por tr\u00e1fico. &#8220;Ou seja, pra que deu a bola?&#8221;<\/p>\n<p>No document\u00e1rio, Ivan n\u00e3o resiste aos prazeres de &#8220;jogar bola na rua&#8221; e acaba interrompendo o sinal de sua tornozeleira usando papel alum\u00ednio. O juiz decreta a perda do benef\u00edcio e a volta de Ivan ao regime fechado. O p\u00fablico reage com um &#8220;vixeee&#8221; &#8211; e percebe-se que h\u00e1 uma divis\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao uso da tornozeleira.<\/p>\n<p>O preso Pedro Henrique Duarte Angeloni, de 36 anos, j\u00e1 usou tornozeleira. &#8220;\u00c9 uma merda. Voc\u00ea vive rodeado de tenta\u00e7\u00f5es para quebrar a tornozeleira. \u00c0s vezes parece que a sociedade fica s\u00f3 esperando voc\u00ea fazer isso para dizer: \u2018Viu, n\u00e3o falei, foi dar uma chance para bandido&#8230;&#8221; Preso por homic\u00eddio, \u00c1tila Douglas da Silva Leite, de 36 anos, discorda. &#8220;Eu entendo tudo o que est\u00e3o dizendo, mas a liberdade n\u00e3o tem pre\u00e7o. Quando voc\u00ea respira o ar puro, deixa de comer as gororobas da cadeia e come\u00e7a a conviver com a fam\u00edlia, o uso da tornozeleira \u00e9 uma coisa menor&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Hoje, o Brasil tem cerca de 19 mil pessoas com tornozeleiras. O dispositivo pesa menos de 200 gramas e fica preso em volta de um dos tornozelos. O gasto m\u00e9dio do monitoramento do dispositivo \u00e9 de R$ 300 por preso &#8211; um preso em regime fechado custa de R$ 1,5 mil a R$ 4 mil por m\u00eas.<\/p>\n<p>O diretor Pedro Rocha conta que o filme produziu uma identifica\u00e7\u00e3o com os detentos. &#8220;J\u00e1 alguns cr\u00edticos acharam o filme frio, principalmente por ter uma c\u00e2mera est\u00e1tica. Aqui, a gente percebe que n\u00e3o existe essa frieza.&#8221;<\/p>\n<p><b>Rico x pobre &#8211;\u00a0<\/b>O diretor tamb\u00e9m comentou a percep\u00e7\u00e3o atual de que tornozeleiras s\u00e3o um instrumento para presos do colarinho branco, executivos de empreiteiras ou pol\u00edticos. &#8220;O pobre sempre teve uma liga\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima com o espa\u00e7o urbano, a rua, a pra\u00e7a. O rico consegue sobreviver \u00e0 tornozeleira vivendo em casas maiores, tendo todo um entorno estruturado e confort\u00e1vel.&#8221; O detento Moreira concordou. &#8220;Tornozeleira em rico \u00e9 moleza. Uma coisa \u00e9 voc\u00ea estar em uma mans\u00e3o, comendo do bom e do melhor. Outra coisa \u00e9 morar na favela e ter um subemprego.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gilberto Amendola O detector de metal avisa que algo est\u00e1 errado. O homem para, faz uma cara de enfado e levanta uma das pernas de sua cal\u00e7a bege &#8211; exibindo a tornozeleira eletr\u00f4nica que o acompanha. O agente penitenci\u00e1rio faz um gesto com a cabe\u00e7a e o detento segue adiante. 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