{"id":138292,"date":"2017-05-13T00:19:08","date_gmt":"2017-05-13T03:19:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=138292"},"modified":"2017-05-13T10:25:26","modified_gmt":"2017-05-13T13:25:26","slug":"drauzio-varella-fecha-trilogia-mal-com-prisioneiras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/drauzio-varella-fecha-trilogia-mal-com-prisioneiras\/","title":{"rendered":"Drauzio Varella encerra a trilogia com Prisioneiras"},"content":{"rendered":"<h6 class=\"Assina\"><strong>Ubiratan Brasil<\/strong><\/h6>\n<p>Quando deu o ponto final em Prisioneiras &#8211; livro cuja primeira fornada de 70 mil exemplares a Companhia das Letras lan\u00e7a neste s\u00e1bado, 13, -, o m\u00e9dico e escritor Drauzio Varella viu-se diante do final de uma jornada de 28 anos. Esse foi o per\u00edodo em que trabalhou como volunt\u00e1rio em pres\u00eddios paulistas, experi\u00eancia que lhe inspirou a escrita Esta\u00e7\u00e3o Carandiru (1999), depois Carcereiros (2012), at\u00e9 fechar a trilogia com Prisioneiras.<\/p>\n<p>S\u00f3 o trabalho na cadeia deve continuar. &#8220;N\u00e3o consigo pensar em outro livro sobre a cadeia &#8211; as hist\u00f3rias que tinha para contar est\u00e3o ali. Sobraram algumas avulsas, mas que s\u00f3 poder\u00e3o inspirar contos. Acredito que consegui dar uma ideia de como vivi essa experi\u00eancia&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Prisioneiras traz suas observa\u00e7\u00f5es como m\u00e9dico volunt\u00e1rio na Penitenci\u00e1ria Feminina de S\u00e3o Paulo, que abriga mais de duas mil encarceradas. Com a escrita fluente que lhe \u00e9 peculiar, Varella descreve um mundo peculiar, em que o amor e a sexualidade dominam as rela\u00e7\u00f5es entre as presidi\u00e1rias, muitas ali est\u00e3o por conta de seus parceiros &#8211; como as flagradas ao tentar levar drogas aos companheiros nas penitenci\u00e1rias masculinas. E como, depois de presas, vivem em solid\u00e3o.<\/p>\n<p>Varella descreve ainda o nascimento e a consolida\u00e7\u00e3o do Primeiro Comando da Capital, o PCC, fac\u00e7\u00e3o criminosa que imp\u00f4s severas regras ao ambiente carcer\u00e1rio, e que surgiu para suprir a incompet\u00eancia do Estado em cuidar do n\u00famero cada vez mais crescente de pres\u00eddios. Sobre tais assuntos, Varella conversou com a reportagem.<\/p>\n<p><b>Como voc\u00ea avalia a experi\u00eancia de escrever a trilogia?<\/b><\/p>\n<p>Pude acompanhar as mudan\u00e7as que aconteceram nas cadeias e no Brasil. O Pa\u00eds de 1989 \u00e9 muito diferente do de hoje e o crime tamb\u00e9m evoluiu, ganhando mais for\u00e7a, se organizando. No Carandiru, existiam pequenas fac\u00e7\u00f5es, com n\u00famero reduzido de presos e uma era inimiga da outra, sem a possibilidade de emergir uma que dominasse. Mas era certo que, em algum momento, isso aconteceria, nesse processo darwiniano.<\/p>\n<p><b>Que \u00e9 o PCC. Seria leviano dizer que o PCC se tornou um mal necess\u00e1rio, uma vez que diminuiu a quantidade de assassinatos at\u00e9 fora da cadeia?<\/b><\/p>\n<p>Eu n\u00e3o diria isso porque n\u00e3o pode existir um mal desse tipo que seja necess\u00e1rio. Mas n\u00e3o se pode negar que os pres\u00eddios dominados pelo PCC s\u00e3o menos violentos porque a viol\u00eancia \u00e9 punida com rigor. Eles surgiram com o pretexto de vingar o massacre dos 111 presos e acabar com a opress\u00e3o no sistema carcer\u00e1rio &#8211; est\u00e1 no estatuto da organiza\u00e7\u00e3o. Se n\u00e3o tivesse havido o massacre, talvez n\u00e3o tivesse existido o PCC, quem sabe outra organiza\u00e7\u00e3o. Eles tinham que garantir a seguran\u00e7a do preso porque sabiam muito bem que a principal opress\u00e3o n\u00e3o vinha do Estado, do sistema penitenci\u00e1rio, mas dos pr\u00f3prios presos, que se esfaqueavam, extorquiam, abusavam da fam\u00edlia. Eles vieram pra organizar esse sistema. N\u00e3o tem mais extors\u00e3o, estupro, nem crack. Nunca imaginei que um dia o sistema penitenci\u00e1rio ficasse sem crack. O Estado nunca teria acabado com isso.<\/p>\n<p><b>O senhor falou do crack. O tr\u00e1fico hoje seria um dos principais causadores do aprisionamento das pessoas?<\/b><\/p>\n<p>Acredito que o tr\u00e1fico de um modo geral, n\u00e3o s\u00f3 do crack, mas da maconha, da coca\u00edna em p\u00f3. Principalmente na cadeia feminina. Mais de 60% das presidi\u00e1rias foram enquadradas no artigo 33, que \u00e9 o do tr\u00e1fico. A nova lei do tr\u00e1fico causou essa explos\u00e3o de presidi\u00e1rios no Pa\u00eds todo. Quando escuto coment\u00e1rios sobre a necessidade de termos uma lei mais r\u00edgida, penso em onde colocar todas essas pessoas.<\/p>\n<p><b>E o que o senhor pensa sobre as leis em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s drogas?<\/b><\/p>\n<p>Acredito que teremos de liberar as drogas. \u00c9 uma quest\u00e3o de tempo. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel manter uma lei t\u00e3o restritiva. Liberar n\u00e3o significa deixar de regulamentar. Temos regras em rela\u00e7\u00e3o ao cigarro, ao \u00e1lcool e isso precisa acontecer com as demais drogas, mas sei que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples. Quando vejo passeatas pregando a legaliza\u00e7\u00e3o, penso: legalizar significa o que exatamente? Liberar geral? As quadrilhas que hoje vendem droga poder\u00e3o fazer legalmente? E os que est\u00e3o presos por tr\u00e1fico v\u00e3o deixar as cadeias porque deixou de ser crime? A produ\u00e7\u00e3o da maconha dever\u00e1 ser estatizada? E ser\u00e1 poss\u00edvel confiar na capacidade do Estado de evitar corrup\u00e7\u00e3o e um tr\u00e1fico paralelo? N\u00e3o \u00e9 simples. Temos de come\u00e7ar aprendendo e podemos come\u00e7ar com a menos mal\u00e9fica de todas, a maconha. A partir da\u00ed, surgir\u00e1 o estudo de medidas que podem ser implementadas para tirar o usu\u00e1rio da m\u00e3o do traficante. Isso vai ter um impacto muito grande porque mais da metade do lucro vem da maconha, uma vez que a quantidade de usu\u00e1rios \u00e9 maior.<\/p>\n<p><b>O que pensa da pena de morte?<\/b><\/p>\n<p>Funciona no crime, onde tem uma fun\u00e7\u00e3o did\u00e1tica. Porque \u00e9 aplicada imediatamente. Nenhum pa\u00eds que aplicou a pena de morte reduziu a criminalidade. Um exemplo s\u00e3o os Estados Unidos. Mas n\u00e3o reduziu por qu\u00ea? Porque a sociedade n\u00e3o pode cometer erros jur\u00eddicos &#8211; \u00e9 preciso dar todas as oportunidades de defesa e isso leva tempo. Entre o crime ser cometido e a execu\u00e7\u00e3o condenada, podem passar anos, d\u00e9cadas. A\u00ed \u00e9 uma maldade, uma vingan\u00e7a da sociedade. Todo mundo j\u00e1 esqueceu, outros j\u00e1 morreram. Eram crian\u00e7as quando ocorreu o crime e agora s\u00e3o adultos. A sociedade se vinga de uma pessoa. Isso n\u00e3o reduz a criminalidade. J\u00e1 entre a bandidagem reduz porque a puni\u00e7\u00e3o \u00e9 imediata. Voc\u00ea comete um crime de acordo com as leis locais e voc\u00ea morre no dia seguinte, \u00e0s vezes no mesmo dia. O que serve como li\u00e7\u00e3o porque os que est\u00e3o pr\u00f3ximos sabem que, se cometerem o mesmo erro, morrem.<\/p>\n<p><b>Presidi\u00e1rias gr\u00e1vidas s\u00e3o obrigadas a se separar do filho quando a crian\u00e7a completa seis meses. Talvez seja a pior das puni\u00e7\u00f5es. Mas h\u00e1 exce\u00e7\u00f5es, como a de Adriana Ancelmo, mulher do ex-governador S\u00e9rgio Cabral, que conseguiu sair da pris\u00e3o para cuidar dos filhos.<\/b><\/p>\n<p>A repercuss\u00e3o foi muito grande. No dia em que Adriana foi liberada, cerca de 30 presidi\u00e1rias comentaram comigo. &#8220;Quem tem dinheiro pode e eu fico aqui&#8221;, diziam. E voc\u00ea reconhece as mulheres que ficaram sem os filhos apenas pelo olhar. \u00c9 como se fosse a capa de livro sobre depress\u00e3o: um olhar morto, vazio.<\/p>\n<p><b>O senhor pretende continuar com esse trabalho?<\/b><\/p>\n<p>Enquanto tiver condi\u00e7\u00e3o, vou fazer. Aqui, elas falam de sentimentos, estabelecendo uma rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a. Estou h\u00e1 tanto tempo que j\u00e1 tratei de fam\u00edlias. J\u00e1 cuidei do av\u00f4, do pai e do filho. E, mesmo na feminina, j\u00e1 tratei da m\u00e3e e agora estou tratando da filha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ubiratan Brasil Quando deu o ponto final em Prisioneiras &#8211; livro cuja primeira fornada de 70 mil exemplares a Companhia das Letras lan\u00e7a neste s\u00e1bado, 13, -, o m\u00e9dico e escritor Drauzio Varella viu-se diante do final de uma jornada de 28 anos. Esse foi o per\u00edodo em que trabalhou como volunt\u00e1rio em pres\u00eddios paulistas, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":138293,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[70],"tags":[],"class_list":["post-138292","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/138292","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=138292"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/138292\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":138297,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/138292\/revisions\/138297"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/138293"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=138292"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=138292"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=138292"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}