{"id":138298,"date":"2017-05-13T00:05:44","date_gmt":"2017-05-13T03:05:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=138298"},"modified":"2017-05-13T10:28:34","modified_gmt":"2017-05-13T13:28:34","slug":"obra-fundamental-que-nos-deixou-o-critico-e-literario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/obra-fundamental-que-nos-deixou-o-critico-e-literario\/","title":{"rendered":"Obra fundamental que nos deixou o cr\u00edtico e liter\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<h6 class=\"Assina\"><strong>Guilherme Sobota e Ubiratan Brasil<\/strong><\/h6>\n<p>O cr\u00edtico liter\u00e1rio e soci\u00f3logo Antonio Candido, dono de uma das obras mais fundamentais da intelectualidade brasileira, morreu aos 98 anos. Uma h\u00e9rnia de hiato inoper\u00e1vel que acompanhava o ensa\u00edsta h\u00e1 tempos foi a causa da morte, \u00e0 1h40 de sexta-feira, 12. Ele estava internado no Hospital Albert Einstein, em S\u00e3o Paulo, desde s\u00e1bado, 6.<\/p>\n<p>Autor de livros fundamentais como Introdu\u00e7\u00e3o ao M\u00e9todo Cr\u00edtico de Silvio Romero (1944), Forma\u00e7\u00e3o da Literatura Brasileira (1959), Literatura e Sociedade (1965), entre muitos outros, Candido formou uma maneira de pensar a literatura brasileira que influenciou toda a cr\u00edtica cultural do Pa\u00eds. Em 1956, ele criou o Suplemento Liter\u00e1rio de O Estado de S. Paulo, caderno que se tornou paradigma do jornalismo cultural no Brasil.<\/p>\n<p>O cr\u00edtico e ensa\u00edsta se definia como um sobrevivente. &#8220;Sou provavelmente o \u00faltimo amigo vivo de Oswald de Andrade, um escritor dono de uma personalidade vulc\u00e2nica&#8221;, comentou Candido, em rara entrevista, em Paraty, onde, em 2011, fez a confer\u00eancia de abertura da 9\u00aa Festa Liter\u00e1ria Internacional de Paraty, a Flip. Como o homenageado era justamente o autor de Marco Zero, Candido decidiu quebrar seu sil\u00eancio &#8211; n\u00e3o gostava de ser entrevistado tampouco de fazer apari\u00e7\u00f5es p\u00fablicas.<\/p>\n<p>O ensa\u00edsta mantinha fortes lembran\u00e7as de Oswald (1890-1954) justamente por causa de sua personalidade marcante. &#8220;Ele tinha tra\u00e7os de g\u00eanio: mesmo n\u00e3o sendo um grande leitor, Oswald captava a ess\u00eancia dos assuntos e discursava como grande entendedor.&#8221;<\/p>\n<p>A amizade entre eles come\u00e7ou depois de uma crise &#8211; o escritor n\u00e3o gostou de uma cr\u00edtica escrita por Candido sobre Marco Zero, romance de 1943. &#8220;O comunismo fez mal para ele, que passou a escrever uma literatura mais engajada, longe da linguagem telegr\u00e1fica que era seu melhor estilo&#8221;, contou Candido. &#8220;Eu era um jovem cr\u00edtico, estava com 24 anos, e n\u00e3o aceitava aquele sil\u00eancio que rondava a obra de Oswald, considerado um autor inatac\u00e1vel.&#8221;<\/p>\n<p>Passado o tempo, o pr\u00f3prio Antonio Candido reconheceu o exagero de sua escrita, a ponto de produzir um longo ensaio em que reconhecia o valor liter\u00e1rio do autor. Foi o suficiente para estabelecer uma amizade profunda e sincera, que resistiu at\u00e9 \u00e0s novas cr\u00edticas de livros.<\/p>\n<p>O exerc\u00edcio, ali\u00e1s, era arriscado. Candido comentou que o cr\u00edtico liter\u00e1rio de sua \u00e9poca era obrigado a lidar com nomes que, naquele momento, ainda eram desconhecidos.<\/p>\n<p>&#8220;Certo dia, recebi um livro chamado Perto do Cora\u00e7\u00e3o Selvagem, assinado por Clarice Lispector. Pensei que fosse um pseud\u00f4nimo, porque isso n\u00e3o \u00e9 nome de gente, Lispector. Eu n\u00e3o sabia quem era e precisava dizer se o livro era bom ou era ruim. Ou seja, minha responsabilidade como cr\u00edtico era muito grande, pois lidava com autores como Murilo Mendes e Carlos Drummond de Andrade, que ainda n\u00e3o tinham conquistado notoriedade. Tive a sorte de viver um tempo de esplendor da literatura brasileira. Mas avalia\u00e7\u00f5es erradas poderiam custar o emprego.&#8221;<\/p>\n<p>Candido lembrou que, em sua \u00e9poca, a cr\u00edtica era militante e alguns jornais tinham o chamado cr\u00edtico titular. No seu caso, ele era o do jornal Folha da Manh\u00e3, enquanto o do Estado era Tobias Barreto. &#8220;O cr\u00edtico titular tinha muito autoridade, porque representava o jornal. Costumo dizer que a cr\u00edtica liter\u00e1ria daquele tempo era uma atividade de alto risco.&#8221;<\/p>\n<p>Trabalhou na fun\u00e7\u00e3o durante 24 anos e se orgulhava, por exemplo, de ter escrito o primeiro artigo anal\u00edtico sobre a obra de Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto. &#8220;Ele n\u00e3o sabia disso. Foi Drummond quem o informou.&#8221;<\/p>\n<p>Com o tempo, a fun\u00e7\u00e3o de resenhista foi gradativamente assumida pelos te\u00f3ricos de universidade, que preferiam n\u00e3o correr risco.<\/p>\n<p>&#8220;Eles escreviam apenas sobre escritores j\u00e1 mortos, com a obra consolidada, o que evitava julgamentos apressados se fosse o caso de autores ainda vivos.&#8221;<\/p>\n<p>Para ele, a cr\u00edtica era essencialmente exercida por te\u00f3ricos universit\u00e1rios. Candido dizia conhecer a maioria, pois foram seus alunos, formando a &#8220;par\u00f3quia&#8221;, como gosta de ironizar. &#8220;Admiro muito as novas gera\u00e7\u00f5es de cr\u00edticos, todos muito eruditos&#8221;, comentou, citando Roberto Schwarz e Jos\u00e9 Miguel Wisnik, entre outros.<\/p>\n<p>Lembrou que vivia &#8220;encalhado&#8221; no passado, pois ainda utilizava uma m\u00e1quina de escrever, dispensando computador, celular e outros produtos da modernidade. Tamb\u00e9m desconhecia o que se produz atualmente na literatura, preferindo a releitura de cl\u00e1ssicos. &#8220;Faz 20 anos que n\u00e3o leio nada de novo. Prefiro Dostoievski, Proust, E\u00e7a de Queiroz.&#8221;<\/p>\n<p>Para Candido, a arte e a literatura respondia \u00e0s necessidades profundas do ser humano. E foi sobre isso que ele refletiu em O Direito \u00e0 Literatura, importante ensaio em que defende a necessidade de estender a todos, sem distin\u00e7\u00e3o de classe, o acesso a este bem imaterial.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Guilherme Sobota e Ubiratan Brasil O cr\u00edtico liter\u00e1rio e soci\u00f3logo Antonio Candido, dono de uma das obras mais fundamentais da intelectualidade brasileira, morreu aos 98 anos. Uma h\u00e9rnia de hiato inoper\u00e1vel que acompanhava o ensa\u00edsta h\u00e1 tempos foi a causa da morte, \u00e0 1h40 de sexta-feira, 12. 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