{"id":138655,"date":"2017-05-16T08:47:44","date_gmt":"2017-05-16T11:47:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=138655"},"modified":"2017-05-16T09:55:52","modified_gmt":"2017-05-16T12:55:52","slug":"voz-de-magoa-traz-de-volta-dori-e-paulo-cesar-pinheiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/voz-de-magoa-traz-de-volta-dori-e-paulo-cesar-pinheiro\/","title":{"rendered":"Voz de M\u00e1goa traz de volta Dori e Paulo C\u00e9sar Pinheiro"},"content":{"rendered":"<p><strong>Roberta Pennafort<\/strong><\/p>\n<p>Se emanassem um cheiro, as m\u00fasicas de Dori Caymmi e Paulo C\u00e9sar Pinheiro teriam o odor singular de terra molhada pela chuva. O gosto seria o de fruta no p\u00e9; a cor, a da pele morena \u00e0 sombra do lampi\u00e3o. As parcerias dos dois voltam a agu\u00e7ar os sentidos no CD Voz de M\u00e1goa, o quarto de Dori desde 2010 com poesias musicadas do amigo. O subt\u00edtulo, M\u00fasica do Brasil, indica as inten\u00e7\u00f5es comuns.<\/p>\n<p>&#8220;A m\u00fasica brasileira anda desmoralizada. Coloquei esse nome para relembrar que ela existe. N\u00e3o s\u00f3 a minha, mas a dos que nos antecederam, meu pai, Tom Jobim, Noel Rosa, Ary Barroso. As pessoas n\u00e3o v\u00e3o mais a shows para assistir, v\u00e3o para botar mulher no ombro. Mas ainda tem gente ligada afetivamente a esse tipo de trabalho, que n\u00e3o tem divulga\u00e7\u00e3o. Encontro esperan\u00e7a quando me dizem na rua: &#8216;Voc\u00ea parece muito o Dori Caymmi'&#8221;, diz o m\u00fasico.<\/p>\n<p>&#8220;Fazemos essas m\u00fasicas para que as pessoas n\u00e3o esque\u00e7am do Rio nem do Brasil. A m\u00fasica de hoje \u00e9 do corpo, n\u00e3o mais do esp\u00edrito&#8221;, acredita Paulo, cujos versos ensinam que esse canto resistente, &#8220;mesmo triste&#8221;, &#8220;ameniza a dor do mundo&#8221;. &#8220;O que escrevo vem do nosso &#8216;mundo de dentro&#8217; (t\u00edtulo da m\u00fasica e do primeiro CD dos quatro). Misturo fazenda e mar. Na inf\u00e2ncia, vi passar gado e passar canoa. Como n\u00e3o posso estar mais nesses lugares, eles se mudaram para dentro de mim.&#8221;<\/p>\n<p>O disco, outro que sai pela Acari Records (de Luciana Rabello, mulher de Paulo), marca a volta do filho do meio de Dorival Caymmi ao Brasil, depois de 24 anos morando em Los Angeles. O trabalho por l\u00e1 escasseou, a aporrinha\u00e7\u00e3o com os deslocamentos para o Brasil aumentou, e Dori, a despeito do mau momento nacional, resolveu retornar.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o para o Rio, onde nasceu, em 1943, e que \u00e9 chorado no CD em Padroeiro, alusiva ao assassinato cruel de um ciclista ocorrido na Lagoa Rodrigo de Freitas, cart\u00e3o-postal da cidade, em 2015: &#8220;A m\u00e3o da insensatez\/ J\u00e1 flechou o cora\u00e7\u00e3o\/ De S\u00e3o Sebasti\u00e3o outra vez\/ O sangue vermelhou, tingiu\/ E esse sangue que jorrou\/ Manchou o Rio&#8221;.<\/p>\n<p>Dori e a mulher, Helena, encantaram-se por uma casa na Regi\u00e3o Serrana do Estado, a uma hora da capital. Em especial, por um rio que passa por ela. &#8220;Tem \u00e1gua limpa! Vou ficar bem isolado, tem muita coisa l\u00e1 para me deslumbrar, caminhos para conhecer. Gosto de umidade, de neblina, me lembra Debussy, Ravel&#8221;, ele relata, em entrevista na Casa do Choro, foco de resist\u00eancia da m\u00fasica brasileira aberto por Luciana h\u00e1 dois anos, no centro carioca.<\/p>\n<p>&#8220;O Rio est\u00e1 dentro de mim. Mas o Rio de hoje n\u00e3o \u00e9 o Rio em que eu nasci. Este Brasil n\u00e3o foi o que me prometeram. Em Los Angeles, j\u00e1 n\u00e3o estava trabalhando muito nos \u00faltimos 15 anos. Fui o \u00fanico que fui para os EUA e continuei fazendo m\u00fasica brasileira. Mas agora queriam me ensinar a tocar viol\u00e3o. Eu toco assim h\u00e1 40 anos&#8230;&#8221;, conta Dori.<\/p>\n<p>A nova casa na serra poderia ter inspirado o CD. As 16 faixas &#8211; 13 com Paulo, duas p\u00f3stumas, com Jorge Amado e Fernando Brant, e uma com Paulo Frederico e Pedro Amorim &#8211; remetem a um Brasil mais de beira de rio do que de mar. Um lugar cheio de afei\u00e7\u00f5es, algo saudosista, e que n\u00e3o conhece crise. Onde todo rio tem \u00e1gua cristalina, a brisa cheira a maresia e a cravo e a vida \u00e9 serena O vozeir\u00e3o \u00e0 Caymmi e o viol\u00e3o n\u00e3o carecem de outras companhias<\/p>\n<p>&#8220;Cada faixa tem uma letra, uma m\u00fasica e um viol\u00e3o&#8221;, ele define.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que indica o t\u00edtulo, n\u00e3o h\u00e1 m\u00e1goa, &#8220;s\u00f3 pena&#8221;, classifica Dori &#8211; &#8220;fazemos uma resist\u00eancia alegre e pac\u00edfica&#8221;. A dupla n\u00e3o acredita na suposta morte da can\u00e7\u00e3o. &#8220;Muitos dizem, hoje em dia\/ Que a can\u00e7\u00e3o vai se acabar\/ A can\u00e7\u00e3o quem faz \u00e9 o vento\/ \u00c9 o p\u00e1ssaro no ar\/ \u00c9 o som da cachoeira\/ \u00c9 o ritmo do mar&#8221;, aponta &#8220;Can\u00e7\u00e3o sem fim&#8221;, que conclui: &#8220;Enquanto houver gente\/ vai haver can\u00e7\u00e3o de amor&#8221;.<\/p>\n<p>As composi\u00e7\u00f5es dos amigos v\u00eam desde 1969, e s\u00e3o descritas por Maria Beth\u00e2nia &#8211; int\u00e9rprete da talvez mais conhecida delas, \u00c9 o Amor Outra Vez &#8211; como &#8220;um encontro de pura luz&#8221;, &#8220;sa\u00fade de j\u00e1 poder dizer s\u00f3 o que mais interessa&#8221;. J\u00e1 somam uma centena, mais de 20 prontas na gaveta. Nos \u00faltimos anos, a din\u00e2mica tem sido assim: Paulo manda as letras para Dori musicar por Luciana. Ela as envia para Helena. Autodefinidos &#8220;trogloditas&#8221;, eles n\u00e3o t\u00eam e-mail nem usam celular.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Roberta Pennafort Se emanassem um cheiro, as m\u00fasicas de Dori Caymmi e Paulo C\u00e9sar Pinheiro teriam o odor singular de terra molhada pela chuva. O gosto seria o de fruta no p\u00e9; a cor, a da pele morena \u00e0 sombra do lampi\u00e3o. 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