{"id":139367,"date":"2017-05-22T00:37:34","date_gmt":"2017-05-22T03:37:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=139367"},"modified":"2017-05-22T08:40:58","modified_gmt":"2017-05-22T11:40:58","slug":"cenas-diferentes-marcam-o-ritmo-de-pecas-faceis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/cenas-diferentes-marcam-o-ritmo-de-pecas-faceis\/","title":{"rendered":"Cenas diferentes marcam o r\u00edtmo de Pe\u00e7as F\u00e1ceis"},"content":{"rendered":"<h6 class=\"Assina\">Helena Katz<\/h6>\n<p>Um som que puxa do corpo um movimento que se torna um movimento de dan\u00e7a? Ou um movimento de dan\u00e7a que aparece no corpo desenhando uma sonoridade? Essa parece ser a fric\u00e7\u00e3o que alimenta &#8220;Pe\u00e7as F\u00e1ceis&#8221;, a nova cria\u00e7\u00e3o do Grupo Pr\u00f3-Posi\u00e7\u00e3o, de Sorocaba, que ficou em cartaz at\u00e9 domingo no Teatro Tusp da Rua Maria Ant\u00f4nia, em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>O acordeom e a voz est\u00e3o l\u00e1 desde o come\u00e7o, nos anos 1970, garantidos por Janice Vieira, uma das pioneiras da dan\u00e7a contempor\u00e2nea no Brasil. A partir de 2008, quando Andr\u00e9ia Nhur, sua filha, passou a formar com ela a dupla que deu continuidade ao grupo, o foco na rela\u00e7\u00e3o som-movimento foi ganhando a centralidade na sua produ\u00e7\u00e3o, at\u00e9 encontrar no contraponto barroco de Bach um est\u00edmulo para a sua estrutura coreogr\u00e1fica. Agora, uma can\u00e7\u00e3o existente se dobra sobre si mesma para se tornar um rastro que rasga para deixar sair a nostalgia que conforta e se mostrar como o que uma cole\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es muito vasta balbucia.<\/p>\n<p>&#8220;Pe\u00e7as F\u00e1ceis&#8221;, a nova produ\u00e7\u00e3o de Janice Vieira e Andreia Nhur (m\u00e3e e filha que d\u00e3o seguimento \u00e0s atividades do Grupo Pr\u00f3-Posi\u00e7\u00e3o, fundado em 1973), \u00e9 uma &#8220;plataforma sonorocoreogr\u00e1fica&#8221;, segundo suas criadoras. Ela re\u00fane, para al\u00e9m deste espet\u00e1culo, tamb\u00e9m um site, workshops, conversas, e colabora\u00e7\u00f5es com os diversos artistas convidados para este projeto: a professora e artista da dan\u00e7a Helena Bastos, a musicista e multi-instrumentista Andreia Drigo, o diretor de teatro e iluminador Roberto Gil Camargo, a especialista em canto l\u00edrico M\u00e1rcia Mah, a bailarina e educadora som\u00e1tica Adriana Pinheiro, a atriz e produtora Paola Bertolini, o cantor e percussionista Ramon Vieira.<\/p>\n<p>A surpresa, desta vez, \u00e9 que embora estejam apenas as duas no palco, n\u00e3o se trata de um duo, pois a m\u00fasica se enuncia como uma terceira presen\u00e7a. N\u00e3o como um personagem, mas como uma fisicalidade. \u00c0s vezes, materializa um sopro, um vento ou um balan\u00e7ar, \u00e0s vezes aparece como um pedido de sil\u00eancio na forma de um &#8220;shh&#8221; que assobia. Em vez de acumular, pratica um esvaziar constante. N\u00e3o desenha c\u00edrculos que se fecham, mas rabiscos que pespontam an\u00fancios que n\u00e3o se completam.<\/p>\n<p>Aos poucos, sonoridades v\u00e3o virando vest\u00edgios de melodia, duas vozes v\u00e3o se desenhando para que dois corpos possam ser identificados pelo movimento que lhes d\u00e1 forma, movimento esse que tanto vem das sonoridades quanto lhes faz nascer. O enovelamento deles se atualiza em um processo de assimetrias barroquizantes, que vai misturando xaxado com flamenco, pas de deux com viol\u00e3o e &#8220;pandeiro face&#8221; (pandeiro se tornando rosto, rosto se tornando pandeiro).<\/p>\n<p>As m\u00e3os v\u00e3o abrindo um caminho no ar para que a m\u00fasica de Bach (1685-1750) e Christian Petzold (1677-1733) possa come\u00e7ar, e ent\u00e3o ela, a m\u00fasica, permite que os gestos passem a se organizar em frases mais longas. Parece uma condi\u00e7\u00e3o para que outras sonoridades possam, ent\u00e3o, surgir. Mas o curioso \u00e9 que elas se agregam n\u00e3o para sustentar, mas para interromper os gestos que com elas se enroscam.<\/p>\n<p>N\u00e3o mais uma trilha sonora, mas agora uma arquitetura de sonoridades que se monta como coreografia, borrando um pouco os dom\u00ednios de cada uma delas. Aqui, som e gesto de dan\u00e7a se respiram, se tornam condi\u00e7\u00e3o do outro poder existir.<\/p>\n<p>Um viol\u00e3o-corpo, um acordeom-corpo, um corpo-pandeiro, um corpo-castanhola. As bailarinas foram despertas para outros fazimentos, que precisam apagar os contornos da m\u00fasica e da dan\u00e7a para que ambas se materializem uma na outra. Corpo e sonoridades v\u00e3o se testando, ensaiando o que pode virar corpo, o que pode virar m\u00fasica. Curiosamente, parecem agora ambicionar ser uma arquitetura capaz de construir uma l\u00edngua pr\u00f3pria que ensaia sair.<\/p>\n<p>&#8220;Pe\u00e7as F\u00e1ceis&#8221; verticaliza, na trajet\u00f3ria do Grupo Pro-Posi\u00e7\u00e3o, os estudos sobre mem\u00f3ria e gesto (de dan\u00e7a e de m\u00fasica), levando-os da escala da hist\u00f3ria para a da cultura e, ao mesmo tempo, evidencia, na dan\u00e7a de Andreia e Janice, uma polifonia temperada com humor e leveza. Agora, essa dan\u00e7a regurgita as refer\u00eancias abocanhadas, tecendo-se em um barroquismo de preciosidades.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Helena Katz Um som que puxa do corpo um movimento que se torna um movimento de dan\u00e7a? Ou um movimento de dan\u00e7a que aparece no corpo desenhando uma sonoridade? 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