{"id":140912,"date":"2017-06-04T09:07:12","date_gmt":"2017-06-04T12:07:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=140912"},"modified":"2017-06-04T11:54:29","modified_gmt":"2017-06-04T14:54:29","slug":"cinema-bateu-na-ditadura-como-os-milicos-no-povo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/cinema-bateu-na-ditadura-como-os-milicos-no-povo\/","title":{"rendered":"Cinema bateu na ditadura como os milicos no povo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Luiz Zanin Oricchio<\/strong><\/p>\n<p>Seria injusto dizer que o cinema brasileiro n\u00e3o se ocupou do golpe de 1964 ou dos efeitos da ditadura sobre a sociedade. N\u00e3o s\u00f3 o fez como o elegeu por tema logo ap\u00f3s o acontecimento hist\u00f3rico. J\u00e1 no ano seguinte, 1965, aparecia &#8220;O Desafio&#8221;, de Paulo C\u00e9sar Saraceni.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s da hist\u00f3ria de um jornalista de esquerda (Vianninha) que tem um caso com uma burguesa casada (Isabella), Saraceni recria o clima de desespero, mas tamb\u00e9m de resist\u00eancia, que se armava no imediato p\u00f3s-golpe. Com cenas documentais, cont\u00e9m uma longa sequ\u00eancia do show Opini\u00e3o, com a ent\u00e3o novata Maria Beth\u00e2nia cantando &#8220;Carcar\u00e1&#8221;, can\u00e7\u00e3o de protesto de Jo\u00e3o do Vale, aquela do &#8220;pega, mata e come&#8221;.<\/p>\n<p>Em 1967, \u00e9 lan\u00e7ada a obra-prima do per\u00edodo, &#8220;Terra em Transe&#8221;, de Glauber Rocha. Em forma aleg\u00f3rica, pretende n\u00e3o apenas dar in\u00edcio a um processo de &#8220;digest\u00e3o&#8221; do golpe em andamento, como examinar algumas estruturas da sociedade brasileira que faziam poss\u00edvel este e outros golpes e tornavam irris\u00f3ria a resist\u00eancia de setores progressistas da sociedade a eles.<\/p>\n<p>Cinquenta anos passados, Terra em Transe \u00e9, ainda, a mais radical radiografia da nossa &#8220;alma social&#8221;, dos fatores profundos que nos condenam, at\u00e9 hoje, a ser como somos. Os meetings pol\u00edticos transformados em carnaval, o populismo caricato, a trai\u00e7\u00e3o das elites, o vezo autorit\u00e1rio, o tortuoso relacionamento entre intelectuais e povo &#8211; tudo est\u00e1 l\u00e1, na genial intui\u00e7\u00e3o de Glauber. Rev\u00ea-lo \u00e9 contemplar o Brasil da sua \u00e9poca, e tamb\u00e9m o Brasil de hoje.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s 1968, com o fechamento total do regime depois do AI-5, o cinema, como outras artes, refugiou-se no dom\u00ednio da alegoria para driblar a censura. Em tempos de trevas, as luzes remanescentes piscam \u00e0s escondidas. Desse modo, um diretor consagrado, como Nelson Pereira dos Santos, falava do Brasil em filmes sinuosos como &#8220;Azyllo Muito Louco&#8221; e &#8220;Como Era Gostoso Meu Franc\u00eas&#8221;.<\/p>\n<p>Joaquim Pedro de Andrade, em &#8220;Os Inconfidentes&#8221;, usava os Autos da Devassa como roteiro e falava menos de Tiradentes e da Minas do Brasil Col\u00f4nia que das lutas pela liberdade no pa\u00eds do seu pr\u00f3prio tempo, dominado pelos generais. Esses deslocamentos temporais e formais serviam para iludir censores, mas tamb\u00e9m para fazer acenos \u00e0 luta pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Com a proximidade da redemocratiza\u00e7\u00e3o, o tom come\u00e7a a mudar. Ao transcrever o livro de Graciliano Ramos, o mesmo Nelson Pereira dos Santos faz do seu &#8220;Mem\u00f3rias do C\u00e1rcere&#8221; um hino duro da resist\u00eancia e da busca da liberdade. Nessa mesma \u00e9poca, tamb\u00e9m vem \u00e0 luz aquele que \u00e9 o filme-s\u00edmbolo desse per\u00edodo &#8211; Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho. Iniciado como fic\u00e7\u00e3o, foi interrompido pelo golpe, em 1964. Tentaram destruir os negativos e os personagens foram perseguidos. Tudo voltou \u00e0 tona quase 20 anos depois, quando as filmagens foram retomadas, agora como um document\u00e1rio que buscava as figuras perseguidas pelo golpe. Pelo reencontro de Dona Elizabeth Teixeira, a vi\u00fava do l\u00edder campon\u00eas que era o her\u00f3i do primeiro filme, Coutinho simboliza um pa\u00eds que, ap\u00f3s longo intervalo de trevas, reatava enfim o fio da Hist\u00f3ria e podia seguir adiante.<\/p>\n<p>Um marco da \u00e9poca de transi\u00e7\u00e3o foi &#8220;Pra Frente, Brasil&#8221;, de Roberto Farias, cuja hist\u00f3ria denunciava a tortura, de modo naturalista e sem disfarces. Produzido em plena ditadura, sofreu todo tipo de press\u00e3o. A hist\u00f3ria \u00e9 a de um homem (Reginaldo Faria) preso por engano pelos \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o e torturado nos por\u00f5es do regime. &#8220;Nunca Fomos T\u00e3o Felizes&#8221;, de Murilo Salles, conta uma hist\u00f3ria de relacionamento entre pai e filho tendo por fundo a luta armada de resist\u00eancia ao regime. A trama \u00e9 baseada em conto de Jo\u00e3o Gilberto Noll.<\/p>\n<p>Nesse umbral aberto pela redemocratiza\u00e7\u00e3o, come\u00e7am a surgir filmes que representam aspira\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas tanto dos diretores como do p\u00fablico. Deve ser lembrado Jango, o document\u00e1rio de grande sucesso de Silvio Tendler, que reconstitu\u00eda o governo e a conspira\u00e7\u00e3o contra Jo\u00e3o Goulart.<\/p>\n<p>Com a normaliza\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, essa produ\u00e7\u00e3o se intensifica. A mem\u00f3ria da resist\u00eancia armada ao regime, do ex\u00edlio e da tortura, ganha muitos t\u00edtulos, em document\u00e1rio ou em fic\u00e7\u00e3o. Para enumerar, saem filmes como O Que \u00c9 Isso, Companheiro, Zuzu Angel, Lamarca, Cabra Cega, A\u00e7\u00e3o Entre Amigos, Yara, Batismo de Sangue, 70 e Galeria F. (ambos de Emilia Silveira), entre outros Recordam figuras da guerrilha (Carlos Lamarca, Carlos Marighella, Iara Iavelberg), ou a\u00e7\u00f5es da luta armada, como o sequestro de embaixadores para resgate de prisioneiros pol\u00edticos (O Que \u00c9 Isso, Companheiro?, H\u00e9rcules 56 e 70).<\/p>\n<p>Houve cineastas que utilizaram o per\u00edodo como material de fic\u00e7\u00e3o, como A\u00e7\u00e3o Entre Amigos, de Beto Brant, ou Cabra Cega, de Toni Venturi. A mem\u00f3ria da tortura tamb\u00e9m n\u00e3o esteve ausente com Que Bom te Ver viva, de L\u00facia Murat, Corte Seco, de Renato Tapaj\u00f3s, e Batismo de Sangue, de Helv\u00e9cio Ratton.<\/p>\n<p>Esse conjunto de filmes, no entanto, ainda deve ser considerado deficit\u00e1rio, dada a import\u00e2ncia do per\u00edodo para a Hist\u00f3ria brasileira. Em geral, investe num memorialismo que n\u00e3o toca quest\u00f5es pol\u00edticas mais delicadas ou tenta entender estruturas que tornaram tais fatos poss\u00edveis. Uma exce\u00e7\u00e3o \u00e9 Cidad\u00e3o Boilesen, de Chaim Litewski, que ilumina a trajet\u00f3ria de um empres\u00e1rio financiador dos aparelhos de repress\u00e3o em S\u00e3o Paulo, o dinamarqu\u00eas Henning Albert Boilesen, do Grupo Ultragaz.<\/p>\n<p>Tema espinhoso, o da colabora\u00e7\u00e3o de parte do empresariado com as masmorras da ditadura, raramente debatido pelo cinema brasileiro A exce\u00e7\u00e3o de Cidad\u00e3o Boilesen ilustra uma tese do cr\u00edtico Jean-Claude Bernardet sobre as dificuldades do cinema brasileiro em enfrentar algumas esferas de poder da sociedade brasileira, notadamente a Justi\u00e7a, o sistema financeiro e a m\u00eddia, em especial no relacionamento entre elas e a ditadura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiz Zanin Oricchio Seria injusto dizer que o cinema brasileiro n\u00e3o se ocupou do golpe de 1964 ou dos efeitos da ditadura sobre a sociedade. 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