{"id":141365,"date":"2017-06-07T08:38:58","date_gmt":"2017-06-07T11:38:58","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=141365"},"modified":"2017-06-07T10:57:09","modified_gmt":"2017-06-07T13:57:09","slug":"de-aleppo-para-vida-historia-contada-por-nujeen","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/de-aleppo-para-vida-historia-contada-por-nujeen\/","title":{"rendered":"De Aleppo para a vida, uma hist\u00f3ria contada por Nujeen"},"content":{"rendered":"<p><strong>Maria Fernanda Rodrigues<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o se sabe ao certo o que aconteceu com o n.\u00ba 19 da Rua George al-Aswad, no bairro curdo de Sheikh Maqsoud, noroeste de Alepo. E n\u00e3o dava para prever quando a revolu\u00e7\u00e3o se transformou em guerra, quando bombas come\u00e7aram a cair sobre pr\u00e9dios, escolas e hospitais e quando armas qu\u00edmicas come\u00e7aram a matar civis. Mas uma coisa era certa: assim que cabe\u00e7as passaram a ser expostas em pra\u00e7a p\u00fablica e que exterminar fam\u00edlias dentro de casa virou praxe, era hora de partir.<\/p>\n<p>Foi o que fez, em 2012, a fam\u00edlia Mustafa, s\u00edrios de origem curda, que vivia feliz no tal pr\u00e9dio da maior cidade da S\u00edria. No micro-\u00f4nibus arranjado para tir\u00e1-los de Alepo, alguns poucos pertences, afinal, a ideia era voltar logo para casa. A filha mais nova, Nujeen, 13 anos, foi reclamando porque n\u00e3o queria viver de novo em Manbij, no norte da S\u00edria, onde passou a inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Esse foi s\u00f3 o come\u00e7o de um longo, tortuoso e perigoso caminho rumo a um lugar mais seguro. Uma jornada que s\u00f3 terminou em outubro de 2015, com a fam\u00edlia separada &#8211; os pais, na Turquia e os filhos, na Alemanha.<\/p>\n<p>A partir de agora, a hist\u00f3ria que acompanhamos \u00e9 a da fuga da garota &#8220;mimada&#8221;, como ela se considerava, e de sua irm\u00e3 Nasrine, 9 anos mais velha.<\/p>\n<p>Nujeen, hoje com 18 anos, diz que n\u00e3o h\u00e1 her\u00f3is nessa hist\u00f3ria, embora Malala tenha dito que ela era uma hero\u00edna. Mas empurrar uma cadeira de rodas por tr\u00eas meses e nove pa\u00edses e ser respons\u00e1vel pela vida da irm\u00e3 tempor\u00e3 nascida com paralisia cerebral, mesmo quando n\u00e3o havia garantia nenhuma de seguran\u00e7a ou sobreviv\u00eancia, como quando atravessaram de bote infl\u00e1vel, Nujeen sobre a cadeira e Nasrine a segurando, at\u00e9 Lesbos, na Gr\u00e9cia, coloca a irm\u00e3 mais velha, estudante de F\u00edsica quando a guerra estourou, nessa posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas uma hist\u00f3ria contada por uma menina que viveu seus primeiros anos trancada no 5.\u00ba andar de um pr\u00e9dio sem elevador, que n\u00e3o foi para a escola porque sua paralisia afetou a mobilidade e tir\u00e1-la de casa era uma tarefa e tanto, que aprendeu tudo o que sabe, e n\u00e3o \u00e9 pouco, assistindo \u00e0 televis\u00e3o, e que empreende uma viagem &#8220;rumo ao desconhecido&#8221; tem mais apelo.<\/p>\n<p>Nujeen &#8211; A Incr\u00edvel Jornada de Uma Garota Que Fugiu da Guerra na S\u00edria em Uma Cadeira de Rodas foi escrito pela menina em parceria com Christina Lamb, autora, tamb\u00e9m, de Eu Sou Malala. \u00c9 o testemunho, ainda n\u00e3o elaborado, de uma guerra em andamento. O relato sincero de algu\u00e9m que conseguiu escapar, e que s\u00f3 agora pode respirar aliviada e viver uma vida compat\u00edvel com a sua idade: ir \u00e0 escola, ouvir m\u00fasica, ter amigos.<\/p>\n<p>&#8220;Estou segura e n\u00e3o tenho mais medo de estar no meio de um bombardeio&#8221;, diz ao jornal &#8220;O Estado de S. Paulo&#8221;, com uma voz doce e o ingl\u00eas impec\u00e1vel que aprendeu assistindo aos document\u00e1rios da National Geographic, \u00fateis tamb\u00e9m na hora em que o p\u00e2nico batia, e \u00e0 novela Days of Our Lives.<\/p>\n<p>A jornada de Nujeen rumo \u00e0 Alemanha, onde seu irm\u00e3o mais velho, cineasta, vivia desde antes de ela nascer, somou 5.785 quil\u00f4metros. O custo total para ela e a irm\u00e3 foi de \u00a4 5.045, gastos com atravessadores, subornos, botes, coletes salva-vidas, passagens de \u00f4nibus, trem, avi\u00e3o, t\u00e1xi, o primeiro lanche no McDonald\u2019s e chips de celular.<\/p>\n<p>Nujeen saiu de casa em 2012 e nunca mais voltou. Passou os dois primeiros anos da guerra no Norte. Depois, com o Estado Isl\u00e2mico em a\u00e7\u00e3o por ali, atravessou para a Turquia. E seguiu para a Gr\u00e9cia, Maced\u00f4nia, S\u00e9rvia, Cro\u00e1cia, Eslov\u00eania, \u00c1ustria e, finalmente, Alemanha. Para onde olhava, via um mundo novo &#8211; e centenas de refugiados como ela, em filas por estradas sinuosas, \u00e0 espera de um bote \u00e0 beira-mar, em pra\u00e7as negociando o pr\u00f3ximo trecho da viagem com desconhecidos, chorando a morte de um familiar. Todos em profundo desamparo.<\/p>\n<p>Cada detalhe da viagem, da vida antes da guerra e do recome\u00e7o no novo pa\u00eds est\u00e3o registrados na obra narrada por algu\u00e9m que come\u00e7a encarando a experi\u00eancia como uma aventura e que, aos poucos, vai tomando consci\u00eancia do horror. Por exemplo, foi s\u00f3 ao deparar com a cerca constru\u00edda pela Hungria na fronteira com a S\u00e9rvia para barrar os refugiados, ao ver o rosto perdido de seus conterr\u00e2neos sem saber para onde ir, que ela se viu no meio de uma grande trag\u00e9dia, ela conta.<\/p>\n<p>&#8220;Sei que muitas pessoas na Europa nunca tinham ouvido falar na S\u00edria at\u00e9 a guerra come\u00e7ar, mas gostaria que pensassem em n\u00f3s como pessoas. Pessoas orgulhosas de sua cultura, cidades, hist\u00f3ria, comida e de sua cordialidade para com os pa\u00edses em guerra&#8221;, diz. &#8220;\u00c9 humilhante termos nos transformado em um problema que precisa ser resolvido, num pesadelo&#8221;, diz a garota que vive com as irm\u00e3s e sobrinhas em Wesseling, perto de Col\u00f4nia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Fernanda Rodrigues N\u00e3o se sabe ao certo o que aconteceu com o n.\u00ba 19 da Rua George al-Aswad, no bairro curdo de Sheikh Maqsoud, noroeste de Alepo. 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