{"id":141481,"date":"2017-06-08T08:40:02","date_gmt":"2017-06-08T11:40:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=141481"},"modified":"2017-06-08T09:17:59","modified_gmt":"2017-06-08T12:17:59","slug":"paris-pode-esperar-mas-quem-quer-ver-deve-correr","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/paris-pode-esperar-mas-quem-quer-ver-deve-correr\/","title":{"rendered":"Paris Pode Esperar, mas quem quiser assistir, deve correr"},"content":{"rendered":"<p><strong>Luiz Zanin Oricchio<\/strong><\/p>\n<p>Cinema se faz em fam\u00edlia: Francis Ford \u00e9 um mestre, Sofia tem pr\u00eamio garantido em qualquer festival de primeira linha e agora \u00e9 mam\u00e3e Coppola quem apresenta seu filme. Paris Pode Esperar, com\u00e9dia rom\u00e2ntica de Eleanor Coppola, pode n\u00e3o trazer grande novidade ou qualquer ousadia de linguagem cinematogr\u00e1fica Mas a verdade \u00e9 que a mulher de Francis Ford e m\u00e3e de Sofia assina um filme agrad\u00e1vel e gostoso &#8211; no sentido literal como no figurado do termo.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria come\u00e7a no final de mais um Festival de Cannes, o mais badalado do mundo. Michael (Alec Baldwin) \u00e9 um produtor superocupado, sem muito tempo a dedicar \u00e0 esposa, Anne (Diane Lane), que o acompanha. Na viagem de volta, planejada para ser num jatinho particular, Anne n\u00e3o pode acompanhar o marido, pois est\u00e1 com problema no ouvido e \u00e9 desaconselhada de pegar avi\u00e3o. Quem se oferece para lev\u00e1-la de carro a Paris \u00e9 o s\u00f3cio de Michael, o franc\u00eas Jacques Cl\u00e9ment (Arnaud Viard).<\/p>\n<p>Uma longa e agrad\u00e1vel viagem da Riviera Francesa a Paris, ao todo umas sete horas de percurso, pelas boas estradas do pa\u00eds. Quer algo mais agrad\u00e1vel? Pois bem, Anne deseja chegar \u00e0 capital o mais r\u00e1pido poss\u00edvel, mas Jacques interrompe o trajeto a todo instante, a pretexto de mostrar \u00e0 mulher um museu, uma pequena igreja encantadora, um restaurante fabuloso mas que ningu\u00e9m conhece, etc. Preciosidades da Fran\u00e7a espalhadas pelo caminho.<\/p>\n<p>Enfim, a americana tem pressa e o franc\u00eas quer saborear a vida. Quer maior clich\u00ea que este? Pois acrescente os seguintes: Anne \u00e9 estressada e Jacques \u00e9 sedutor, gourmet e pilota um velho carro charmoso, sem GPS, e que jamais parou numa oficina para revis\u00e3o desde que foi fabricado l\u00e1 pelos anos 1960.<\/p>\n<p>Pois bem, enfrentando toda essa artilharia de lugares-comuns, Eleanor consegue se defender bem, com alguns expedientes simples e eficazes. O primeiro deles \u00e9 o cen\u00e1rio escolhido, o interior da Fran\u00e7a que, para quem conhece, \u00e9 um para\u00edso na Terra. Longe da loucura metropolitana, desfila uma fieira de pequenas e discretas cidades, calmas e bonitas, nas quais se come muito bem H\u00e1 sempre um museu a ser visitado, uma paisagem inesperada, del\u00edcias locais e o bom vinho regional, para n\u00e3o falar dos queijos. A gastronomia une-se \u00e0 frui\u00e7\u00e3o visual e ao insuper\u00e1vel prazer de uma conversa a dois, entre um homem e uma mulher que se descobrem aos poucos.<\/p>\n<p>A outra boa sacada de Eleanor \u00e9 apostar na intimidade que se vai estabelecendo aos poucos entre os dois e aponta talvez para um in\u00edcio de relacionamento. Mas ela sabe que, nesses casos, a ambiguidade pode ser mais interessante que desfechos expl\u00edcitos. Nada \u00e9 direto, porque, se Jacques \u00e9 um homme \u00e0 femmes nato, tamb\u00e9m tem grande considera\u00e7\u00e3o por seu s\u00f3cio e amigo, Michael. Anne, embora se sinta negligenciada por um marido workaholic, o ama e deseja sim que a vida seja diferente, mas em sua companhia Essa atmosfera de sedu\u00e7\u00e3o e a ambival\u00eancia da atra\u00e7\u00e3o m\u00fatua paira sobre a hist\u00f3ria e confere uma suave eletricidade a esse flerte maduro.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m de boa ajuda \u00e9 o charme discreto dos dois int\u00e9rpretes principais. Diane Lane e Arnaud Viard mant\u00eam a qu\u00edmica do relacionamento e, discretos por\u00e9m eficazes, conseguem extrair dignidade do subsolo de lugares-comuns do texto que interpretam. Fazem isso atrav\u00e9s de pequenos gestos, olhares, insinua\u00e7\u00f5es. Enfim, da t\u00e9cnica de interpreta\u00e7\u00e3o que lhes permite &#8220;dizer&#8221; muito mais do que est\u00e1 escrito.<\/p>\n<p>De outro lado, Paris Pode Esperar \u00e9 tamb\u00e9m um filme imag\u00e9tico, que explora bem a paisagem mas tamb\u00e9m os ambientes fechados dos pequenos restaurantes, dos hot\u00e9is de estrada, de um ou outro museu visto por dentro. Tudo isso, arranjado com eleg\u00e2ncia, contribui para o prazer do espectador.<\/p>\n<p>De qualquer forma, Paris Pode Esperar \u00e9 um daqueles filmes em que os norte-americanos se comparam com outros povos e realizam uma suave autocr\u00edtica do seu modo de vida. Nada radical, nada definitivo, tudo dentro dos limites da dec\u00eancia e do bom gosto. Ficamos assim: todos os povos t\u00eam seus altos e baixos e os americanos, com seu excesso de dedica\u00e7\u00e3o ao trabalho, a filosofia de vida como competi\u00e7\u00e3o permanente e a devo\u00e7\u00e3o absoluta ao sucesso pagam pre\u00e7o alto. Os europeus s\u00e3o vistos de outro modo. Os ingleses s\u00e3o admirados pelo sotaque e por Shakespeare. Os italianos por serem \u00f3timos amantes e por sua devo\u00e7\u00e3o ao dolce far niente. Os franceses, pelo dom da sedu\u00e7\u00e3o, pela Torre Eiffel e pela gastronomia.<\/p>\n<p>N\u00e3o deixa de haver alguma verdade embutida nesses padr\u00f5es simplificados e o que Paris Pode Esperar ensina \u00e9 algo da ordem da autoajuda e da sabedoria popular: precisamos viver com mais calma, afeto e prazer. Apesar de \u00f3bvia, \u00e9 uma li\u00e7\u00e3o cada vez menos praticada. Mas quem discordaria da sua verdade?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiz Zanin Oricchio Cinema se faz em fam\u00edlia: Francis Ford \u00e9 um mestre, Sofia tem pr\u00eamio garantido em qualquer festival de primeira linha e agora \u00e9 mam\u00e3e Coppola quem apresenta seu filme. 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