{"id":141799,"date":"2017-06-11T09:42:24","date_gmt":"2017-06-11T12:42:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=141799"},"modified":"2017-06-11T09:42:24","modified_gmt":"2017-06-11T12:42:24","slug":"silencio-e-antidoto-comprovado-para-uma-saude-estavel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/silencio-e-antidoto-comprovado-para-uma-saude-estavel\/","title":{"rendered":"Sil\u00eancio \u00e9 ant\u00eddoto comprovado para uma sa\u00fade est\u00e1vel"},"content":{"rendered":"<p><strong>Marcel Hartmann<\/strong><\/p>\n<p>Hoje, ao chegar em casa no fim do dia, fa\u00e7a um pequeno esfor\u00e7o: fique cinco minutos sem ligar televis\u00e3o, m\u00fasica, r\u00e1dio ou Netflix. Preste aten\u00e7\u00e3o aos sons do vizinho, da sua casa, dos carros e dos p\u00e1ssaros na rua. \u00c9 uma pr\u00e1tica f\u00e1cil e com mais efeitos ben\u00e9ficos do que voc\u00ea imagina: o sil\u00eancio faz bem ao cora\u00e7\u00e3o, \u00e0 respira\u00e7\u00e3o, \u00e0 mem\u00f3ria, \u00e0 aprendizagem e ao bem-estar.<\/p>\n<p>Tomar esse tempo de quietude, hoje, \u00e9 artigo de luxo. Afinal, estamos sempre rodeados por aparelhos eletr\u00f4nicos, buzinas, furadeiras e arranques de motocicleta. No entanto, esse intervalo \u00e9 fundamental como contraponto ao ru\u00eddo excessivo, o novo inimigo da sa\u00fade.<\/p>\n<p>\u201cSempre se atribuiu que a causa de doen\u00e7as cr\u00f4nicas, sobretudo as do cora\u00e7\u00e3o, seriam apenas envelhecimento e fatores de risco como hipertens\u00e3o, obesidade, tabagismo ou sedentarismo. Mas hoje se sabe que outras quest\u00f5es tamb\u00e9m influenciam. Entre elas, a polui\u00e7\u00e3o sonora\u201d, explica Marcus Bol\u00edvar Malachias, presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC).<\/p>\n<p>\u00c9 que nosso c\u00e9rebro est\u00e1 sempre atento a est\u00edmulos do ambiente e fica de sobreguarda para uma eventual amea\u00e7a. Ru\u00eddos altos s\u00e3o interpretados como perigo. Em resposta, o sistema nervoso central envia uma mensagem \u00e0 gl\u00e2ndula renal para produzir tr\u00eas horm\u00f4nios muito \u00fateis em situa\u00e7\u00f5es nas quais, teoricamente, voc\u00ea corre risco de vida: adrenalina, noradrenalina e cortisol. Conhecidos como \u201chorm\u00f4nios do estresse\u201d, eles estimulam a constri\u00e7\u00e3o dos vasos sangu\u00edneos, o que eleva a press\u00e3o arterial e estimula a circula\u00e7\u00e3o sangu\u00ednea.<\/p>\n<p>Adrenalina e noradrenalina servem para deixar o organismo pronto para um combate corpo a corpo. Juntos, eles levam o sangue das extremidades do corpo para cora\u00e7\u00e3o e grandes vasos do organismo, que alimentam o corpo todo. Como consequ\u00eancia, a press\u00e3o arterial sobe, os batimentos card\u00edacos aceleram, as m\u00e3os esfriam e os l\u00e1bios secam. O cortisol tamb\u00e9m eleva a press\u00e3o arterial, mas ret\u00e9m sal e \u00e1gua no corpo, a fim de ficarmos prontos para um per\u00edodo de priva\u00e7\u00e3o de l\u00edquidos.<\/p>\n<p>O organismo det\u00e9m mecanismos para suportar, eventualmente, tais efeitos. No entanto, se cortisol, adrenalina e noradrenalina atuam todos os dias, o corpo entende que constantemente estamos amea\u00e7ados por algum perigo. \u201cA eleva\u00e7\u00e3o da press\u00e3o, mesmo que n\u00e3o atinja o necess\u00e1rio para o diagn\u00f3stico de hipertens\u00e3o, causa danos vasculares, porque o sangue circula dentro do vaso sob press\u00e3o aumentada. Isso lesiona o endot\u00e9lio, a camada interna dos vasos\u201d, explica o cardiologista Marcus Bol\u00edvar Malachias. Soma-se a isso os efeitos na mente, como ansiedade, estresse e agita\u00e7\u00e3o &#8211; tudo por causa do barulho excessivo.<\/p>\n<p>Inclusive, a OMS publicou, em 2011, um relat\u00f3rio apontando que 3 mil mortes por doen\u00e7a do cora\u00e7\u00e3o daquele ano, na Europa Ocidental, ocorreram em decorr\u00eancia do ru\u00eddo em excesso.<\/p>\n<p>O sil\u00eancio, al\u00e9m de ser amigo dos introspectivos, tamb\u00e9m beneficia cora\u00e7\u00e3o e respira\u00e7\u00e3o. Uma pesquisa feita por m\u00e9dicos da Universidade de Oxford, na Inglaterra, e na Universidade de P\u00e1via, na It\u00e1lia, publicada em 2006 no conceituado peri\u00f3dico Heart, mostrou que o sil\u00eancio melhora o funcionamento card\u00edaco e respirat\u00f3rio.<\/p>\n<p>A ideia inicial era investigar os efeitos de diferentes tipos de m\u00fasicas nos sistemas cardiovascular e respirat\u00f3rio. M\u00e9dicos pegaram 24 volunt\u00e1rios &#8211; metade m\u00fasicos profissionais e a outra metade leigos &#8211; e monitoraram os c\u00e9rebros deles enquanto ouviam diferentes estilos de m\u00fasica ou faziam absoluto sil\u00eancio. Nos per\u00edodos de m\u00fasica r\u00e1pida, aumentaram os indicadores de press\u00e3o arterial, ritmo card\u00edaco, respira\u00e7\u00e3o e velocidade de uma art\u00e9ria cerebral. Mas, no sil\u00eancio, todos esses indicadores ca\u00edram, bem mais do que em m\u00fasicas lentas. Ou seja, no sil\u00eancio, os volunt\u00e1rios ficaram mais calmos e relaxados.<\/p>\n<p>\u201cPodemos dizer que ele \u00e9 uma boa receita m\u00e9dica\u201d, diz Marcus Bol\u00edvar Malachias, presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que empresas de tecnologia buscam criar aparelhos que isolam sons externos, na promessa de trazer alguma paz de esp\u00edrito para moradores de cidades grandes.<\/p>\n<p>Mas se engana quem pensa que o c\u00e9rebro fica quieto durante o sil\u00eancio. Na verdade, uma regi\u00e3o espec\u00edfica fica ativa: a rede de modo padr\u00e3o, que envolve v\u00e1rias \u00e1reas do \u00f3rg\u00e3o. Quando entramos em um profundo estado de imers\u00e3o, t\u00edpico de quando visualizamos mem\u00f3rias enquanto estamos de olhos abertos, essa rede fica em funcionamento intenso. \u201cIsso ajuda no processamento de mem\u00f3ria, mas exige sil\u00eancio e introspec\u00e7\u00e3o\u201d, diz Marcio Baltazhar, neurologista coordenador do departamento cient\u00edfico de Neurologia Cognitiva da Academia Brasileira de Neurologia (ABN).<\/p>\n<p>Outro efeito \u00e9 a neurog\u00eanese, que \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o de novos neur\u00f4nios. Uma pesquisa publicada em 2013 na revista Brain Structure and Function estudou o efeito do sil\u00eancio em ratos. Os resultados mostraram que as cobaias produziram mais neur\u00f4nios, algo essencial para combater o mal de Alzheimer.<\/p>\n<p>Mente prudente. A mais do que almejada paz de esp\u00edrito \u00e9 outra consequ\u00eancia do sil\u00eancio. Ele prepara o terreno para momentos de introspec\u00e7\u00e3o. Afinal, \u00e9 dif\u00edcil voc\u00ea manter o foco em si mesmo se o ambiente oferece dezenas de est\u00edmulos ao seu c\u00e9rebro. Sobretudo quanto falamos da aprendizagem. Ela exige o isolamento para dirigirmos nosso foco aos livros, sem dispers\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cO sil\u00eancio traz introspec\u00e7\u00e3o, que \u00e9 importante para a mem\u00f3ria e a aten\u00e7\u00e3o. Ele permite rememorar, analisar e consolidar os acontecimentos do dia\u201d, afirma Marcio Baltazhar, tamb\u00e9m professor de neurologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Campinas (Unicamp).<\/p>\n<p>Para al\u00e9m da mem\u00f3ria e da aten\u00e7\u00e3o, a quietude tamb\u00e9m nos leva em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 maturidade emocional. Esse intervalo \u00e9 necess\u00e1rio para adquirirmos uma dist\u00e2ncia dos acontecimentos e, assim, adotarmos as melhores sa\u00eddas dispon\u00edveis para nossos obst\u00e1culos.\u201cEle propicia habilidade para resolver um problema: voc\u00ea identifica o que est\u00e1 errado, as poss\u00edveis solu\u00e7\u00f5es e as consequ\u00eancias de cada um\u201d, explica Cristina Miyazaki, psic\u00f3loga coordenadora do mestrado em Psicologia e Sa\u00fade da Faculdade de Medicina de S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, ficar em sil\u00eancio estimula uma habilidade essencial em nossos relacionamentos: a escuta. Ao ficarmos atentos ao que nossa mente tem a dizer, cultivamos a alteridade para com o outro. \u201cO relacionamento \u00e9 uma troca na qual voc\u00ea tem que falar, mas ser capaz de ouvir. Em sil\u00eancio, voc\u00ea p\u00e1ra para pensar, o que evita tomar decis\u00f5es impulsivas com resultados negativos\u201d, diz Cristina, que tamb\u00e9m faz parte da Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP).<\/p>\n<p>Como diria o pr\u00eamio nobel de Medicina de 1903, Roberto Koch: \u201cUm dia a humanidade ter\u00e1 que lutar contra a polui\u00e7\u00e3o sonora, assim como contra a c\u00f3lera e a peste\u201d. Talvez o sil\u00eancio seja uma dessas armas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marcel Hartmann Hoje, ao chegar em casa no fim do dia, fa\u00e7a um pequeno esfor\u00e7o: fique cinco minutos sem ligar televis\u00e3o, m\u00fasica, r\u00e1dio ou Netflix. 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