{"id":142404,"date":"2017-06-17T19:49:01","date_gmt":"2017-06-17T22:49:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=142404"},"modified":"2017-06-18T10:02:24","modified_gmt":"2017-06-18T13:02:24","slug":"comunidade-gay-avanca-firme-entre-os-evangelicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/comunidade-gay-avanca-firme-entre-os-evangelicos\/","title":{"rendered":"Comunidade gay avan\u00e7a firme entre os evang\u00e9licos"},"content":{"rendered":"<p><strong>Priscila Mengue<\/strong><\/p>\n<p>Alexya Salvador, de 36 anos, costuma dizer que \u201cnasceu e cresceu\u201d na Igreja Cat\u00f3lica. Durante quatro anos, at\u00e9 frequentou um semin\u00e1rio para seguir o sacerd\u00f3cio. Contudo, quanto mais o tempo passava, menos encontrava acolhimento naquela religi\u00e3o. Em 2009, h\u00e1 um ano sem ir \u00e0 missa e ainda com identidade masculina, procurou uma igreja para casar com o professor de matem\u00e1tica Rodrigo Salvador, de 28.<\/p>\n<p>Ao visitar o primeiro culto, avistou uma drag queen no p\u00falpito e j\u00e1 soube que passaria a frequentar a Igreja Comunidade Metropolitana (ICM), pioneira mundial na chamada \u201cteologia inclusiva\u201d e fundada em 1968 nos Estados Unidos. \u201cSempre tive um chamado espiritual muito forte. Era muito dif\u00edcil para mim n\u00e3o poder exercer isso\u201d, diz. Ao lado da ICM, S\u00e3o Paulo tem ao menos outras tr\u00eas igrejas protestantes abertas \u00e0 comunidade LGBT: a Igreja Contempor\u00e2nea Crist\u00e3, a Comunidade Crist\u00e3 Nova Esperan\u00e7a e a Cidade de Ref\u00fagio.<\/p>\n<p>Diante desse espa\u00e7o restrito e tamb\u00e9m pela press\u00e3o pol\u00edtica de bancadas religiosas contra reivindica\u00e7\u00f5es da causa LGBT, a Associa\u00e7\u00e3o da 21.\u00aa Parada do Orgulho LGBT escolheu o tema \u201cIndependente de nossas cren\u00e7as, nenhuma religi\u00e3o \u00e9 Lei! Todas e todos por um Estado Laico\u201d para a edi\u00e7\u00e3o de 2017, que ocorre neste domingo, 18, a partir das 10 horas, na Avenida Paulista.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria de Alexya ainda \u00e9, portanto, uma exce\u00e7\u00e3o. Ela relata que, se tivesse encontrado o conforto que a ICM lhe trouxe, possivelmente teria feito a transi\u00e7\u00e3o de g\u00eanero antes, o que ocorreu apenas em 2012. \u201cPor volta dos 22 anos, disse que era gay, o que n\u00e3o era verdade. Eu me sentia atra\u00edda por homens, mas n\u00e3o me considerava um\u201d, relembra. S\u00f3 por se declarar homossexual, teve de deixar atividades da par\u00f3quia que frequentava naquela \u00e9poca, como a catequese.<\/p>\n<p>Hoje pastora auxiliar em um templo em Santa Cec\u00edlia, zona oeste de S\u00e3o Paulo, Alexya deve tornar-se a primeira reverenda transg\u00eanero da ICM na Am\u00e9rica Latina ainda neste ano. Nos cultos, utiliza uma batina preta com colarinho branco, parecida com a que \u00e9 utilizada por padres cat\u00f3licos, religi\u00e3o que det\u00e9m rituais lit\u00fargicos parecidos. Al\u00e9m das atividades na igreja, \u00e9 professora de geografia e tem dois filhos, Gabriel, de 12 anos, e Ana Maria, de 10 anos, que tamb\u00e9m \u00e9 transg\u00eanero.<\/p>\n<p>A pastora participa anualmente da Parada LGBT, mas relata haver pouco di\u00e1logo entre as igrejas inclusivas. \u201cFico feliz que existam outras. Acho que a gente deveria ser mais unido. At\u00e9 porque pessoas LGBT t\u00eam pavor de religi\u00e3o, porque foram oprimidas a vida toda por dogmas religiosos. A gente tem de desconstruir esses dogmas e mostrar uma doutrina de amor\u201d, argumenta.<\/p>\n<p>Dentre os temas que dividem a teologia inclusiva est\u00e3o o consumo de pornografia, bebidas alco\u00f3licas e sexo antes do casamento, al\u00e9m de outros costumeiramente condenados em religi\u00f5es protestantes. \u201cNa ICM, dizemos que a sua cabe\u00e7a \u00e9 o seu guia. N\u00e3o tem raz\u00e3o para proibir bebida, balada, carnaval, se isso n\u00e3o faz mal nem para mim nem para o outro. At\u00e9 brinco que sexo antes do casamento n\u00e3o tem problema tamb\u00e9m desde que n\u00e3o atrase a hora da celebra\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Pol\u00eamica &#8211; Temas como o sexo antes do casamento e consumo de bebida ainda dividem a chamada teologia inclusiva Foto: Daniel Teixeira<br \/>\nCidade de Ref\u00fagio. Na quarta-feira, o Estado visitou um culto de uma das maiores igrejas abertas a LGBTs do Brasil, a Cidade Ref\u00fagio, que tem a sua principal sede na Avenida S\u00e3o Jo\u00e3o, no centro de S\u00e3o Paulo. Ela foi criada em 2011, pelo casal de pastoras Lanna Holder, de 42 anos, e Rosania Rocha, de 44, que deixaram a igreja e os respectivos casamentos ap\u00f3s se conhecerem.<\/p>\n<p>Com o tema \u201cVencendo traumas\u201d, o culto reuniu cerca de 250 fi\u00e9is, em sua a maioria gays, l\u00e9sbicas e bissexuais entre 20 e 40 anos, embora tamb\u00e9m houvesse crian\u00e7as, idosos e casais heterossexuais. No in\u00edcio, a pastora Rosania e outros integrantes da igreja cantavam versos como \u201cao Deus da minha vida, que me compreendeu sem nenhuma explica\u00e7\u00e3o\u201d. Fi\u00e9is erguiam os bra\u00e7os, alguns muito emocionados. Outros, gritavam \u201caleluia\u201d. Na frente do altar, um rapaz e duas mo\u00e7as vestiam t\u00fanicas cor-de-rosa e dan\u00e7avam.<\/p>\n<p>Em seguida, a pastora Lanna come\u00e7ou o serm\u00e3o, no qual comparou a hist\u00f3ria de abandono e abusos sofrida por Jeft\u00e9, no Antigo Testamento, com o que ela e outras pessoas LGBT viveram. \u201cJeft\u00e9 vivenciou a dor de um filho desprotegido. Quantos de n\u00f3s n\u00e3o vivenciamos essa dor?\u201d, questionou a pastora. \u201cMas Deus nunca foi indiferente com voc\u00ea. Est\u00e1 cuidando de n\u00f3s nos m\u00ednimos detalhes.\u201d<\/p>\n<p>Durante o culto, assistido por ao menos 227 pessoas pela internet, Lanna lembrou os apelidos pejorativos que muitos de seus fi\u00e9is j\u00e1 ouviram. \u201cVoc\u00ea n\u00e3o \u00e9 o maricas que falavam que voc\u00ea era\u201d, disse. Logo depois, em tom descontra\u00eddo, condenou rela\u00e7\u00f5es antes do casamento. \u201cN\u00e3o precisa fazer \u2018test drive\u2019. Fala \u2018eu sou passivo\u2019, eu \u2018sou ativo\u2019 e s\u00f3. A gente faz uma an\u00e1lise hist\u00f3rico-cr\u00edtica da B\u00edblia, mas n\u00e3o podemos mudar o que ela defende.\u201d<\/p>\n<p>Dentre os frequentadores, muitos estavam \u00e0 vontade em demonstrar afeto com pessoas do mesmo g\u00eanero, seja por estar de m\u00e3os dadas ou abra\u00e7ados. Dentre eles estavam a pedagoga Cris Rosa, de 34 anos, que conheceu Marta Almeida, de 48, na igreja que frequenta h\u00e1 seis anos.<\/p>\n<p>Elas se casaram h\u00e1 dois anos naquele mesmo local, com Cris usando um vestido com tem\u00e1tica africana. \u201cA primeira vez que eu vim, foi para provocar a Lanna. Eu odiava ela. Achava que ela ainda era uma (Silas) Malafaia de saias, que se dizia ex-l\u00e9sbica curada\u201d, lembra, ao se referir ao passado da pastora na Assembleia de Deus. \u201cVim cheia de desaforo, achando que iria detestar, mas chorei o culto inteiro. Nunca mais sa\u00ed daqui.\u201d<\/p>\n<p>Umbanda e candombl\u00e9 &#8211; O psiquiatra Marcelo Niel, de 43 anos, come\u00e7ou a frequentar terreiros de umbanda por volta dos 20 anos, quando ainda cursava a faculdade de Medicina. Foi 10 anos depois, contudo, que passou a se declarar gay. Hoje filho de santo no candombl\u00e9, Niel estuda as duas religi\u00f5es em seu doutorado em Antropologia. Segundo ele, a receptividade aos LGBTs depende dos respons\u00e1veis pelas casas ou terreiros.<\/p>\n<p>Mas um dos motivos pelo qual Niel atribui o maior espa\u00e7o no candombl\u00e9, por exemplo, \u00e9 que cada pessoa se reporta ao seu orix\u00e1, que pode tanto ser homem quanto mulher. Dentro dos mitos da religi\u00e3o, h\u00e1 casos de orix\u00e1s andr\u00f3genos que se envolveram com figuras do mesmo g\u00eanero, como Xang\u00f4, considerado o mais viril dentre os orix\u00e1s. \u201cA gente tem uma rela\u00e7\u00e3o muito pr\u00f3xima com o nosso orix\u00e1, de modo que se acredita at\u00e9 que eles influenciam nossas a\u00e7\u00f5es\u201d, diz.<\/p>\n<p>J\u00e1 na umbanda, a cren\u00e7a \u00e9 mais voltada para o aspecto espiritual, conforme explica Pai Jo\u00e3ozinho Galerani, do Terreiro da V\u00f3 Benedita, de Campinas. \u201cNa minha casa, sempre digo que somos todos iguais e temos que primar pelo amor.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Priscila Mengue Alexya Salvador, de 36 anos, costuma dizer que \u201cnasceu e cresceu\u201d na Igreja Cat\u00f3lica. Durante quatro anos, at\u00e9 frequentou um semin\u00e1rio para seguir o sacerd\u00f3cio. Contudo, quanto mais o tempo passava, menos encontrava acolhimento naquela religi\u00e3o. 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