{"id":145565,"date":"2017-07-23T09:11:25","date_gmt":"2017-07-23T12:11:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=145565"},"modified":"2017-07-24T09:30:44","modified_gmt":"2017-07-24T12:30:44","slug":"piratas-ditam-lei-e-fazem-festa-nos-rios-da-amazonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/piratas-ditam-lei-e-fazem-festa-nos-rios-da-amazonia\/","title":{"rendered":"Piratas ditam lei e fazem a festa nos rios da Amaz\u00f4nia"},"content":{"rendered":"<p><strong>Karla Mendes<\/strong><\/p>\n<p>A era dos piratas n\u00e3o acabou. Ela apenas mudou de rota: da costa brasileira foi para os rios da Amaz\u00f4nia. Em vez de olho tapado e espadas, usam capuz, metralhadoras e fuzis AR 15. Para comunica\u00e7\u00e3o, sistema de r\u00e1dio VHF. A nova &#8220;ca\u00e7a ao tesouro&#8221; agora \u00e9 por combust\u00edvel, que representa 70% do preju\u00edzo de R$100 milh\u00f5es por ano para as empresas que fazem transporte de carga pelos rios da floresta amaz\u00f4nica.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m chamados de &#8220;ratos d\u2019\u00e1gua&#8221;, os piratas atuam sempre em grupos. Eles ficam de tocaia e, usando r\u00e1dios, articulam o ataque. O alvo predileto s\u00e3o embarca\u00e7\u00f5es que transportam combust\u00edvel e eletr\u00f4nicos da Zona Franca de Manaus.<\/p>\n<p>Com barcos pequenos e r\u00e1pidos, os piratas cercam as embarca\u00e7\u00f5es, amarram uma corda e sobem na balsa, encapuzados, com luvas pretas e armas pesadas, fazendo arrua\u00e7a. A tripula\u00e7\u00e3o \u00e9 presa na cabine e os piratas tomam o comando. Eles levam a carga roubada para um barco maior, ancorado pr\u00f3ximo \u00e0s balsas. Em quase todas as ocorr\u00eancias h\u00e1 tamb\u00e9m roubo de combust\u00edvel dos tanques das embarca\u00e7\u00f5es. Muitas vezes, os piratas levam ainda todos os pertences da tripula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os rios da Amaz\u00f4nia t\u00eam sido alvo crescente de ataques de piratas. O n\u00famero de assaltos nos trechos Manaus-Bel\u00e9m e Manaus-Porto Velho quadruplicou de 50 em 2015 para mais de 200 em 2016, segundo o Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Aquavi\u00e1rios do Amazonas (Sintraqua). Os ataques s\u00e3o feitos quase sempre \u00e0 noite. Durante o dia, as a\u00e7\u00f5es ocorrem com as embarca\u00e7\u00f5es em movimento, para chamar menos a aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nos pontos mais cr\u00edticos, empresas de transporte de carga s\u00f3 navegam acompanhadas de escolta armada. O Estreito de Breves, canal fluvial de acesso ao Arquip\u00e9lago do Maraj\u00f3, no Par\u00e1, \u00e9 um dos trechos mais perigosos. A regi\u00e3o \u00e9 estrat\u00e9gica para o escoamento de diversos produtos. Para atravessar o estreito, as embarca\u00e7\u00f5es precisam reduzir a velocidade. \u00c9 quando os piratas, que est\u00e3o em barcos mais r\u00e1pidos, atacam. &#8220;Essa \u00e9 a \u00e1rea vermelha. Nossa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 horrorosa, pois a pirataria tem uma liga\u00e7\u00e3o muito forte com o tr\u00e1fico internacional de drogas&#8221;, ressalta Eduardo Carvalho, presidente do Sindicato dos Armadores do Par\u00e1 (Sindarpa).<\/p>\n<p>Por dia, s\u00e3o registrados de dois a tr\u00eas ataques no Estreito de Breves, com roubo de 20 mil a 30 mil litros de combust\u00edvel. &#8220;Sem falar de roubos de \u00f3leo de embarca\u00e7\u00f5es menores, que ocorrem toda hora&#8221;, afirma Carvalho. Ele estima que os preju\u00edzos do setor ultrapassem R$ 100 milh\u00f5es. &#8220;A situa\u00e7\u00e3o piora a cada ano. O isolamento \u00e9 completo.&#8221;<\/p>\n<p>O comandante Enilson Ant\u00f4nio Sousa Miranda, de 59 anos, relatou ao Estado o terror dos ataques piratas no Estreito de Breves. Em uma noite de janeiro de 2015, ele foi feito ref\u00e9m pr\u00f3ximo \u00e0 Vila de Ant\u00f4nio Lemos, em uma viagem de Bel\u00e9m para Santar\u00e9m, numa embarca\u00e7\u00e3o que transportava 30 carretas de cargas diversas. &#8220;Eu tinha acabado de jantar. Me pegaram pelo macac\u00e3o e colocaram um rev\u00f3lver 38 na minha cabe\u00e7a. Me bateram, pisaram no meu pesco\u00e7o para eu deitar no ch\u00e3o e me levaram para a proa.&#8221;<\/p>\n<p>Segundo Miranda, os piratas prenderam a tripula\u00e7\u00e3o nos camarotes e levaram tudo o que puderam em um barco maior: aparelho de r\u00e1dio de comunica\u00e7\u00e3o da embarca\u00e7\u00e3o, celulares, \u00f3leo diesel, \u00f3leo combust\u00edvel e at\u00e9 comida. Os bandidos estavam drogados. Traumatizado, Miranda teve de fazer tratamento psicol\u00f3gico e psiqui\u00e1trico. Meses depois, ele foi demitido. &#8220;N\u00e3o tem seguran\u00e7a nenhuma ali.&#8221;<\/p>\n<p>Depois de trabalhar por 20 anos no trecho Rio Paraguai-Paran\u00e1, o comandante Marcelo Concei\u00e7\u00e3o de Oliveira passou a navegar na Amaz\u00f4nia h\u00e1 tr\u00eas meses. Ao passar pelo trecho para Bel\u00e9m, ficou com medo de ataques de piratas, algo que, segundo ele, n\u00e3o existia na outra regi\u00e3o. &#8220;Praticamente n\u00e3o dormi com a minha tripula\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p><b>Opera\u00e7\u00e3o conjunta &#8211;<\/b>\u00a0Cientes dos ataques de piratas, autoridades do Par\u00e1 passaram a atuar de forma conjunta, valendo-se de servi\u00e7os de intelig\u00eancia, principalmente no Estreito de Breves. &#8220;O pessoal invade e rouba toda a carga. O que pesa muito \u00e9 a quest\u00e3o do roubo de carga da Zona Franca de Manaus&#8221;, afirma o delegado Ualame Fialho Machado, superintendente regional da Pol\u00edcia Federal no Par\u00e1. Levantamento do Sindarpa aponta que 71% dos assaltos ocorrem em \u00e1reas onde n\u00e3o h\u00e1 nenhum sistema de comunica\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel, o que dificulta que a pol\u00edcia seja acionada. &#8220;Quando s\u00f3 roubam, digo que \u00e9 lucro, pois \u00e9 um grupo muito violento&#8221;, diz o delegado.<\/p>\n<p>Um dos agravantes para a pirataria na Amaz\u00f4nia \u00e9 o envolvimento da pr\u00f3pria tripula\u00e7\u00e3o. Todas as investiga\u00e7\u00f5es presididas pelo delegado Dilermando Dantas J\u00fanior, diretor do Grupamento Fluvial de Seguran\u00e7a P\u00fablica no Par\u00e1 (GFLU), constataram o envolvimento de pelo menos um tripulante nas ocorr\u00eancias. &#8220;E tinha inqu\u00e9rito com toda a tripula\u00e7\u00e3o envolvida.&#8221;<\/p>\n<p>As empresas de transporte reclamam da falta de m\u00e3o de obra especializada. &#8220;Se n\u00e3o tivermos forma\u00e7\u00e3o de aquavi\u00e1rios em grande escala e mais bem preparados, n\u00e3o vamos conseguir combater a pirataria&#8221;, ressalta Raimundo Holanda, presidente da Federa\u00e7\u00e3o Nacional das Empresas de Navega\u00e7\u00e3o Aquavi\u00e1ria. Por meio de nota, a Marinha informou que n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o entre o aumento de roubo e a poss\u00edvel &#8220;falta de aquavi\u00e1rios&#8221; na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Os trabalhadores se defendem. &#8220;O aquavi\u00e1rio \u00e9 assaltado no meio do rio, faz o BO na delegacia mais pr\u00f3xima e, quando chega na cidade, ainda \u00e9 preso. \u00c9 humilhante&#8221;, reclama o capit\u00e3o Rucimar Souza, presidente do Sintraqua.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Karla Mendes A era dos piratas n\u00e3o acabou. Ela apenas mudou de rota: da costa brasileira foi para os rios da Amaz\u00f4nia. Em vez de olho tapado e espadas, usam capuz, metralhadoras e fuzis AR 15. Para comunica\u00e7\u00e3o, sistema de r\u00e1dio VHF. 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