{"id":147988,"date":"2017-08-07T00:21:28","date_gmt":"2017-08-07T03:21:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=147988"},"modified":"2017-08-07T09:26:43","modified_gmt":"2017-08-07T12:26:43","slug":"denys-arcand-encanta-as-telonas-com-seu-reino-da-beleza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/denys-arcand-encanta-as-telonas-com-seu-reino-da-beleza\/","title":{"rendered":"Denys Arcand encanta as telonas com seu Reino da Beleza"},"content":{"rendered":"<h6 class=\"Assina\"><strong>Luiz Zanin Oricchio<\/strong><\/h6>\n<p>Do canadense Denys Arcand esperamos sempre algo meio corrosivo. E criativo. Seus filmes anteriores, &#8220;O Decl\u00ednio do Imp\u00e9rio Americano&#8221;, &#8220;Jesus de Montreal&#8221;, &#8220;As Invas\u00f5es B\u00e1rbaras&#8221; e &#8220;A Era da Inoc\u00eancia&#8221; revelaram um olhar \u00e1cido e perturbador sobre a nossa t\u00e3o cara (nos dois sentidos do termo) civiliza\u00e7\u00e3o ocidental. Em &#8220;O Reino da Beleza&#8221;, o registro muda. Ou parece mudar.<\/p>\n<p>Temos aqui um ambiente que, seguindo o t\u00edtulo, deslumbra por sua beleza. Filmado em Ont\u00e1rio e no Queb\u00e9c, e tamb\u00e9m em Paris, apresenta um mundo desenhado em linhas equilibradas. N\u00e3o por acaso, seu protagonista \u00e9 Luc Sauvageau (Eric Bruneau), um arquiteto de talento. Ele \u00e9 casado com a bela St\u00e9phanie (M\u00e9lanie Thierry) e mora numa casa de cinema, com paisagem deslumbrante, desenhada por seu mestre em arquitetura. Tudo \u00e9 de um bom gosto que chega a enjoar.<\/p>\n<p>Quando vai a Paris receber um pr\u00eamio por sua carreira, Luc encontra-se com a mulher que foi perturbadora em seu passado, Lindsay (Melanie Merkosky). O filme toma ent\u00e3o o caminho do flashback, mostrando o que aconteceu antes e como se chegou \u00e0quele ponto.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o entendemos a estrat\u00e9gia de Arcand, a de colocar uma esp\u00e9cie de &#8220;retrogosto&#8221; avinagrado a estragar o gran cru que parece ser a vida de Luc. Como a nota fora de escala num concerto de perfeita harmonia, um raio em c\u00e9u azul, enfim, algo de inesperado que se passa no interior da perfei\u00e7\u00e3o mais acabada Arcand nos diz que os melhores cristais est\u00e3o sujeitos a rachaduras. E que estas s\u00e3o inevit\u00e1veis.<\/p>\n<p>Percebido esse detalhe, entramos de novo no universo de Arcand, embora de maneira n\u00e3o t\u00e3o expl\u00edcita como em filmes anteriores. Nestes, o diretor procurava flagrar o mal-estar instalado entre indiv\u00edduos, mesmo em civiliza\u00e7\u00f5es tidas como as mais desenvolvidas do planeta. Pa\u00edses imbat\u00edveis em quesitos como democracia, combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o, assist\u00eancia social, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, seguran\u00e7a &#8211; tudo isso de que sentimos falta no chamado &#8220;3\u00ba Mundo&#8221;, conhecido hoje pelo eufemismo de &#8220;pa\u00edses em desenvolvimento&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 como se a civiliza\u00e7\u00e3o cobrasse pre\u00e7o alto demais a seus participantes. Nenhuma novidade nisso: o velho Freud j\u00e1 havia detectado essa disson\u00e2ncia numa obra cujo t\u00edtulo n\u00e3o deixa margem a d\u00favidas &#8211; &#8220;O Mal-Estar na Civiliza\u00e7\u00e3o&#8221;, ensaio de 1930, escrito no bode existencial do entreguerras. Para fazer parte do clube civilizat\u00f3rio, reprimimos tanto nossos impulsos naturais que pagamos em neurose e infelicidade o pre\u00e7o da admiss\u00e3o. Os mais fracos funcionam como sintomas desse desajuste estrutural da condi\u00e7\u00e3o civilizada.<\/p>\n<p>Em suma, Arcand estuda o que vai mal num mundo em que tudo parece ir bem. N\u00e3o \u00e9 pouca coisa, mesmo levando-se em conta de que esse filme, nada banal, n\u00e3o chega ao n\u00edvel dos seus anteriores.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiz Zanin Oricchio Do canadense Denys Arcand esperamos sempre algo meio corrosivo. E criativo. Seus filmes anteriores, &#8220;O Decl\u00ednio do Imp\u00e9rio Americano&#8221;, &#8220;Jesus de Montreal&#8221;, &#8220;As Invas\u00f5es B\u00e1rbaras&#8221; e &#8220;A Era da Inoc\u00eancia&#8221; revelaram um olhar \u00e1cido e perturbador sobre a nossa t\u00e3o cara (nos dois sentidos do termo) civiliza\u00e7\u00e3o ocidental. 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